Amesterdão proíbe visitas guiadas ao Red Light District

Tratar as trabalhadoras do sexo como atracção turística é “desrespeitoso” e “coisa do passado”, afirma vereador da capital da Holanda. Proibição entra em vigor em 2020 e é uma das medidas tomadas para combater o excesso de turismo no centro.

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Miguel Manso

Desde Abril de 2018 que os turistas têm de ficar de costas voltadas para as montras onde posam as trabalhadoras do sexo enquanto ouvem as explicações dos guias turísticos. Mas a medida não se revelou suficientemente eficaz para travar os excessos dos turistas e a autarquia decidiu agora banir por completo as visitas guiadas ao bairro mais famoso de Amesterdão.

A decisão procura “não só evitar a sobrelotação [turística] do Red Light District”, mas também acabar com uma prática “desrespeitosa para as trabalhadoras do sexo”. “É uma coisa do passado tratá-las como atracção turística”, defende o vice-presidente da câmara municipal e vereador da economia, Udo Kock, em comunicado.

A medida vai entrar em vigor apenas em 2020, mas a partir de 1 de Abril já se sentem restrições: as visitas guiadas ao bairro vão ser permitidas apenas até às 19h (actualmente estão autorizadas até às 23h). Segundo os dados divulgados pela , todas as semanas, mais de mil grupos de visitas guiadas atravessam a Oudekerksplein, praça central do Red Light District. “Nos horários de pico – entre as 11h e as 12h e entre as 19h e as 20h – há 28 grupos por hora, em média, na praça.”

Amesterdão, a cidade improvável

As restrições implementadas no ano passado – incluindo um sistema especial de licenças e novas regras quanto às paragens nos percursos e aos comportamentos dos participantes – vieram “reduzir o nível de perturbação causado pelos grupos”. Mas não “erradicaram” o problema. Tanto residentes como pequenos negócios continuam a denunciar “distúrbios causados por grupos de turistas”. “Mais de 80% dos trabalhadores da indústria do sexo” inquiridos durante a avaliação das medidas defendem que “as visitas têm um efeito negativo” no negócio. E continuam a ser reportados casos de “comportamentos rudes e fotografias indesejadas”.

Por isso, a autarquia decidiu ir agora mais longe e banir por completo as visitas guiadas no bairro, famoso pelos bordéis com montras iluminadas a vermelho onde posam trabalhadoras do sexo. E que foi, durante muitos anos, juntamente com as coffee shops e a canábis legalizada, um dos principais postais turísticos de Amesterdão.

A proibição faz parte de um conjunto de medidas aprovadas na semana passada com o objectivo de combater o excesso de turismo no centro histórico. E, a partir de 1 de Janeiro de 2020, estão também proibidas as free tours e a “solicitação de participantes”. Além de “atraírem cada vez mais visitantes”, contribuindo para o aumento de turistas naquela área da cidade, o município acredita que “incentivar activamente as pessoas” a participar nas visitas guiadas ditas gratuitas mas no final das quais é pedido o pagamento de uma contribuição é “frequentemente sentido como perturbador”.

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As visitas guiadas aos outros bairros do centro histórico – para lá das montras do Red Light District – vão manter-se. Mas com regras mais restritivas. O número máximo de participantes por passeio vai descer de 20 para 15 pessoas. E vão incluir uma taxa turística, actualmente já aplicada nos cruzeiros ao longo dos canais de Amesterdão e a bordo dos autocarros turísticos (0,66€). No comunicado, apontam-se mais detalhes sobre a taxa para o decorrer da Primavera. Vai ainda ser introduzida uma acreditação oficial para os guias turísticos a operar na cidade.

No ano passado, mais de 19 milhões de turistas visitaram Amesterdão, uma cidade com cerca de 850 mil residentes. O presidente da autarquia estima que o número suba aos 29 milhões até 2025. O aumento do turismo tem sido tão drástico que a capital dos Países Baixos tem estado na vanguarda para o travar. Em Dezembro, foi retirado o famoso letreiro “I amsterdam” que emoldurava todas as fotografias em frente ao Rijksmuseum. E foi lançado um programa municipal, sugestivamente apelidado de “Cidade em equilíbrio”, que prevê a suspensão de novos hotéis, de lojas de souvenirs, postos de vendas de ingressos. Também a utilização de plataformas como o Airbnb ou o Booking foi limitada – os proprietários não podem alocar os alojamentos a este tipo de serviços durante mais de 30 dias por ano.

Amesterdão, vista para um postal turístico

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