Conservadores movimentam-se para substituir May e desbloquear o “Brexit”

Grupo de deputados e membros do governo propõe um primeiro-ministro de "gestão" que negoceie com Bruxelas enquanto o parlamento pondera as opções de saída. Todos dão o acordo de May como morto. Amanhã há Conselho de Ministros.

Theresa May
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Theresa May HENRY NICHOLLS/Reuters

O Partido Conservador britânico está a movimentar-se para desbloquear o processo do “Brexit” e crescem os sinais de que pode haver uma mudança na estratégia que passará pela substituição de Theresa May à frente do Governo.

As fontes citadas pela imprensa britânica dizem que essa mudança pode acontecer no prazo de dez dias, mas há quem fale numa saída já nesta segunda-feira.

Segundo o jornal The Sunday Times, 11 ministros consideram que May tem que sair. O Mail on Sunday garante que há unanimidade e que o homem que tem a função de garantir que os membros do partido vão às votações e cumprem a discuplina de voto, Julian Smith, já aconselhou a primeira-ministra a traçar um plano de saída.

Membros influentes do partido confirmaram à BBC que se May ceder o lugar há margem para os deputados conservadores aprovarem o acordo que negociou com a União Europeia para a saída do Reino Unido do bloco, ainda que de forma “relutante”.

À imprensa britânica deste domingo, várias fontes do partido disseram que há um grupo de deputados e ministros que quer substituir May por um primeiro-ministro “de gestão”, até que se escolha um novo líder dentro de alguns meses. O nome avançado para fazer esta gestão é o David Lidington, segundo o jornal The Telegraph. Outro nome que dizem poder reunir consenso para esta função é Michael Gove.

O mesmo jornal diz que na noite deste domingo, um grupo de notáveis conservadores reúne com May em Chequers, a residência de campo dos primeiros-ministros britânicos. Boris Johnson – que foi ministro dos Negócios Estrangeiros e saiu do Governo em divergência com o rumo das negociações de May com a UE –  Dominic Raab, Jacob Rees-Mogg e Iain Duncan Smith, todos do núcleo duro que defende a saída do Reino Unido ada UE, são alguns dos que compõem a delegação.

Já foi anunciada uma reunião do Conselho de Ministros para as dez da manhã de segunda-feira.

Porém, o ministro das Finanças, David Hammond, advertiu para os riscos destas movimentações para substituir May . “Não resolve o problema”, disse, como não resolve o problema “mudar o partido no Governo”. Questionado pelo Guardian, recusou dizer se os colegas o tinham abordado para apoiar o afastamento de May ou para intervir no processo. Admitiu que “as pessoas estão frustradas”.

Hammond deixou porém claro que o acordo negociado por Theresa May com Bruxelas pode não ser aprovado, se levado uma terceira vez a votação - já chumbou duas vezes e o presidente do Parlamento esclareceu que só marcará nova votação se o texto for mudado. “Estou muito realista e creio que não conseguiremos uma maioria para o acordo da primeira-ministra. E se for esse o caso, o parlamento terá que decidir não apenas sobre aquilo com que discorda mas sobre aquilo que quer”, disse Hammond à Sky News.

Iain Duncan Smith, um dos homens que vai a Chequers, deputado eurocéptico para quem May “humilhou” o país, disse que substituir May é uma solução “aterradora”. “Se a resposta que temos é encontrar um ‘gestor’, seja Lidington ou outra pessoa, qual era afinal a pergunta?”, disse à BBC. E afirmou que alguns membros do governo “não são aptos para o lugar que ocupam se se comportam desta maneira”. “Por amor de deus, calem-se”, pediu-lhes.

Mas a “rebelião” ganha terreno. “Receio que acabou para a primeira-ministra… Precisamos de um novo primeiro-ministro que consiga consenso e que consiga formar uma coligação [no parlamento] para um plano B”, disse ao Financial Times George Freeman, deputado conservador pró-permanência na União Europeia

Lidington, que é vice-primeiro-ministro, é o nome defendido pelos pró-União Europeia. Neste domingo, Lidington disse apenas que “não tem tempo” para conspirações.

Os apoiantes da solução “gestor” dizem que Lidignton está em condições de negociar um prolongamento mais extenso do “Brexit” e supervisionar o processo enquanto os deputados votam sobre as diferentes opções de saída. Bruxelas já deixou claro quais são os prazos que Londres tem para desfazer o bloqueio e decidir se quer o “Brexit”, como quer o “Brexit” (com acordo ou sem acordo) ou se quer cancelar a saída. Quando ao texto do acordo de saída, não há renegociação. 

O acordo negociado por May inclui uma cláusula de salvaguarda para evitar a reposição de controlos alfandegários na ilha da Irlanda, que é o centro da polémica, mesmo depois das concessões dos líderes europeus que deram “garantias juridicamente vinculativas” de que este regime extraordinário terá sempre um carácter temporário se alguma vez for aplicado.

May, regressou a Londres após o Conselho Europeu de quinta e sexta-feira com a oferta de uma extensão do prazo para o “Brexit”, que estava previsto para 29 de Março, em duas modalidades: se o acordo de saída for aprovado, a saída concretiza-se a 22 de Maio; se voltar a ser chumbado, como é provável, o Reino Unido terá de definir o seu caminho e pôr um novo plano à consideração da UE até 12 de Abril (o dia em que termina o prazo legal para a apresentação das listas às eleições europeias).

Um adiamento mais prolongado obriga a que o Reino Unido participe nas eleições europeias.

Já na segunda-feira, os deputados votam uma emenda destinada a dar ao Parlamento o controlo dos próximos passos - pode abrir caminho para uma votação na quarta-feira, meramente indicativa, sobre que opção preferem para o “Brexit”. Isto sem se saber quando o Governo pede a terceira votação do acordo de saída, mas como diz o Politico tem que estar tudo feito antes de dia 12.