Na política australiana há muito espaço para o “genocídio branco” e as “invasões muçulmanas”

Grupos de supremacistas brancos tentaram inflitrar-se num dos partidos da coligação no Governo, e há senadores que defendem abertamente a proibição da entrada de muçulmanos no país.

Scott Morrison, primeiro-ministro da Austrália
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Scott Morrison, primeiro-ministro da Austrália LUSA/PETER RAE

Em Maio de 2018, durante um congresso da juventude do Partido Nacional Australiano, de centro-direita e na coligação de Governo, um novo membro surpreendeu alguns dos seus colegas com uma moção que parecia estar no partido errado. Para Clifford Jennings, era urgente apoiar “uma imigração de povos e nações culturalmente compatíveis”.

Os meses foram passando sem grandes convulsões, até que o canal australiano ABC revelou a crescente ambição do movimento supremacista branco australiano, numa reportagem transmitida em Outubro: afinal, Clifford Jennings fazia parte de um grupo de 22 pessoas com ligações à chamada “alt-right”, apanhadas a infiltrarem-se no partido com o objectivo de o mudar por dentro.

A expulsão dos 22 extremistas foi anunciada em Novembro pelo líder do partido e vice-primeiro-ministro australiano, Michael McCormack: “Congratulamo-nos com o facto de a investigação ter sido concluída de forma rápida e eficaz, e não descansaremos até que o último destes extremistas tenha sido identificado e expulso do partido.”

Mas a ideia de que a Austrália tem de apertar ainda mais as suas políticas de imigração, para permitir apenas a entrada de “povos e nações culturalmente compatíveis”, parece estar a ganhar terreno no país.

Declarações “nojentas"

Poucas horas depois do ataque terrorista na Nova Zelândia, o senador australiano Fraser Anning, conhecido por querer proibir a entrada de muçulmanos no seu país, viu-se no centro de uma tempestade política por relativizar a responsabilidade do atacante.

“Sou contra qualquer forma de violência na nossa comunidade e condeno as acções do atirador”, disse o senador. “No entanto, e apesar de este tipo de ataques violentos nunca poderem ser justificados, fica bem patente que há um medo na nossa comunidade, tanto na Austrália como na Nova Zelândia, da crescente presença muçulmana.”

“A verdadeira causa do derramamento de sangue”, concluiu Anning, “é o programa de imigração, que permite aos muçulmanos fanáticos emigrarem para a Nova Zelândia”.

As palavras do senador foram prontamente condenadas pelo primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, que as considerou “nojentas” – em vez das políticas de imigração, a responsabilidade pelos “ataques assassinos” na Nova Zelândia devia ser atribuída a “um terrorista extremista, violento e de extrema-direita”, disse o chefe do Governo australiano.

Mas quando o debate sobre a imigração na Austrália é feito sem um atentado terrorista a limitá-lo, as posições de alguns membros do Governo australiano chegam a aproximar-se das vozes mais radicais.

E há um elemento comum a ligar o nacionalista branco que assassinou 49 pessoas na Nova Zelândia ao senador australiano Fraser Anning e ao actual ministro da Administração Interna da Austrália, Peter Dutton: todos eles acreditam que está em curso a perseguição e matança de agricultores brancos pela maioria negra na África do Sul – uma acusação lançada nos círculos da extrema-direita após o fim do apartheid, quando o Governo sul-africano aprovou a meta de expropriar 30% dos terrenos agrícolas para entregá-los a cidadãos negros.

A crença na existência de um “genocídio branco”, e a convicção de que os países de maioria branca estão a ser invadidos por muçulmanos, são os principais motores da raiva do atirador australiano, segundo o manifesto que escreveu e publicou na Internet pouco antes do ataque.

Agricultores brancos refugiados

Em Março de 2018, o ministro da Administração Interna australiano fez eco dessa crença ao propor que os agricultores brancos sul-africanos fossem recebidos na Austrália como refugiados, dizendo que precisam “da ajuda de um país civilizado”.

“Eles cumpririam as nossas leis, seriam integrados na nossa sociedade, trabalhariam arduamente e não ficariam a depender da assistência social”, disse Peter Dutton.

Essa proposta foi criticada por alguns dos seus colegas no Governo e nunca chegou a ser analisada, mas contou com um apoio entusiasta – Fraser Anning, o senador que culpou as políticas de imigração pelo ataque desta sexta-feira na Nova Zelândia, disse na altura que a medida seria bem-vinda para fazer face ao “genocídio branco” na África do Sul.

“Quando estas pessoas tomam posse das quintas, como vimos na Rodésia [Zimbabwe], as quintas entram em ruína. Daqui a uns anos, vão exigir a nossa ajuda e podem ter a certeza de que as Nações Unidas vão exigir-nos que os apoiemos com ajuda externa”, disse o senador australiano.

Num texto publicado no site The Conversation, a especialista em discurso de ódio Kaz Ross, doutorada na Universidade de Melbourne, atribui a origem da ideia do “genocídio branco” ao movimento neonazi norte-americano, no fim da década de 1970.

“Quem adere à ideia do ‘genocídio branco’ quer um regresso ao chamado modo de vida tradicional, que se define pela família nuclear e por papéis de género prescritos. Eles dividem os seres humanos em raças separadas e vêem o multiculturalismo e as migrações como ameaças, porque cada raça deve ser contida naquilo que consideram ser as terras delas.”  

Ainda que distante das declarações mais radicais do seu ministro da Administração Interna e do senador Anning, o próprio primeiro-ministro australiano já foi acusado de contribuir para a percepção de que há uma invasão de imigrantes no país, como aconteceu em Novembro do ano passado.

“As pessoas dizem: chega, chega, chega”, disse o chefe do Governo australiano num discurso em Sydney, referindo-se à suposta vontade da maioria da população de limitar a entrada de imigrantes na Austrália.

“As estradas estão entupidas, os autocarros e os comboios estão cheios. As escolas não recebem mais matrículas. Eu estou a ouvir-vos muito bem”, disse Scott Morrison, numa altura em que se discutia uma possível redução no número de entradas anuais de 190 mil para 160 mil.

Essa redução não chegou a ser aprovada para 2019-2020, e as sondagens indicam que há uma enorme diferença entre a realidade e a percepção sobre o número de imigrantes muçulmanos no país.

Segundo uma sondagem Fairfax-Ipsos, de Novembro de 2018, os australianos acreditam que há seis vezes mais muçulmanos no país do que aquilo que os números mostram – segundo o Censo de 2016, havia 604.200 muçulmanos na Austrália, ou 2,6% da população total, mas a maioria dos inquiridos na sondagem coloca esse valor nos 17%.

Proposta de lei

Mas o debate sobre a imigração está em destaque permanente na Austrália, um país cujo programa de imigração restritivo já foi criticado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados e várias organizações não-governamentais.

Nas últimas semanas, as duas câmaras do Congresso australiano aprovaram uma proposta de lei, contra a vontade do Governo, que autoriza os requerentes de asilo detidos em ilhas no Pacífico a serem tratados nos hospitais do país.

Segundo a proposta, um requerente de asilo detido em Nauru ou na ilha de Manus, na Papuásia-Nova Guiné (onde o Governo australiano mantém detidos, ao todo, 1015 imigrantes e refugiados que chegam de barco à Austrália), tem de ser avaliado por dois médicos antes de ser transferido para a Austrália. E mesmo depois disso, o Governo australiano pode vetar a sua entrada por razões de segurança ou de antecedentes criminais. Se a entrada for recusada por se suspeitar de que os dois médicos erraram no diagnóstico, a transferência tem de ser aprovada por pelo menos cinco médicos num painel de oito.

Mesmo com estas limitações, vários membros do Governo, incluindo o primeiro-ministro, têm dito que os cidadãos australianos podem perder os seus lugares nas listas de espera, o que foi desmentido pelas associações médicas australianas – entre 2016 e 2017, os hospitais australianos públicos acolheram 6,6 milhões de pacientes, e podem acolher algumas dezenas ou centenas de requerentes de asilo sem problemas.

“Mesmo que tenhamos mais 1000 admissões para além das 6,6 milhões que tivemos em 2016-2017, nem sequer conseguiríamos medir esse aumento porque é pequeno de mais”, disse ao canal ABC Stephen Duckett, director do programa de saúde do Instituto Grattan, com sede em Melbourne.