Roubo de Tancos era para tráfico de armas, diz ex-chefe do SIRP

Antigo responsável das "secretas" destaca que quem sabe de terrorismo é o Serviço de Informações e Segurança e não a Procuradoria-Geral da República.

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O antigo chefe das secretas, Júlio Pereira, no Parlamento LUSA/ANDRÉ KOSTERS

O assalto aos paióis de Tancos, em 27 de Junho de 2017, tinha como objectivo o tráfico de armas praticado pelo crime organizado, porventura com colaboração interna de militares, afirmou esta terça-feira o juiz-desembargador Júlio Pereira, ex-secretário-geral do Serviço de Informações da República Portuguesa (SIRP). O chefe das “secretas” até Novembro de 2017, portanto ainda em funções aquando do roubo, falava na comissão parlamentar de inquérito e acentuou que o terrorismo internacional nunca foi hipótese cimeira para os seus serviços.

“O tráfico de armas é um negócio de oportunidade, penso que houve dificuldades em fazer sair o material roubado, pelo que houve a devolução”. É esta a radiografia do que se passou com o roubo de Tancos, feita por Júlio Pereira, que destacou o amadorismo da acção e o facto de, apenas ter sido “escoado" o material mais fácil de colocar no mercado, as munições. O antigo responsável do SIRP insistiu, por várias vezes, que a actividade de tráfico de armas constava dos relatórios do SIS – Serviço de Informações de Segurança – um dos “braços” do SIRP. “Inclusive, as campanhas de recolha de armas tiveram por base esses relatórios”, insistiu, referindo-se às acções coordenadas nos últimos anos pelas forças de segurança.

“Há um grande mercado de armamento em todo o mundo”, comentou aos deputados, dando exemplos de roubos verificados em bases militares no estrangeiro nos últimos anos. “Tinha acontecido um furto de armas em Israel, outro em França, ainda outro numa base americana na Alemanha”, recordou. “Quem pode lá ir, vai, mas o que se passou em Tancos não tem nada a ver com o que ocorreu internacionalmente”, argumentou. Em Portugal, recordou os roubos de armas no Regimento dos Comandos, na Carregueira, em finais de 2010 princípios de 2011, no Arsenal do Alfeite em 2011, e o das 57 pistolas Glock cujo furto foi detectado em finais de Janeiro de 2017, das quais só oito foram recuperadas.

Júlio Pereira afirmou desconhecer a existência de uma lista de compras de material de guerra, que circulava no submundo europeu, que teria sido comunicada ao SIS por congéneres estrangeiros e que os serviços portugueses terão divulgado aos membros da Unidade de Coordenação Anti Terrorista, na reunião de 4 de Julho de 2017, dias depois do assalto. 

O destino do material roubado em Tancos seria qualquer dos cenários de conflito do mundo, tendo destacado, em especial, África, pela proximidade e conhecimento daquela zona em Portugal. “Mais do que os grupos terroristas eram os cenários de risco, pessoas que tivessem estado no Médio Oriente ou em África”, referiu. A possibilidade terrorista, nomeadamente da ETA, atribuída aos investigadores do Ministério Público foi liminarmente recusada. “Foi uma notícia especulativa, a organização estava decapitada, moribunda”, acentuou. A este propósito, ressalvou que, se a “Procuradoria-Geral da República fala em terrorismo internacional, a entidade competente na matéria em Portugal para o fazer é o SIS.” 

Júlio Pereira sublinhou, por várias vezes, que as autoridades militares não informaram logo após a descoberta do roubo de Tancos e admitiu que a coordenação dos serviços de segurança, secretos e militares não é a melhor. “Há sempre alguma dificuldade em partilhar, é próprio das corporações, mas tem havido evolução”, reconheceu. Contudo, nada adiantou sobre os temas de uma reunião, em 29 de Junho de 2017, portanto após o roubo, entre os serviços de informação militares e o SIS.