Houve mesmo um furto de material de guerra em Tancos?

As chefias militares sempre garantiram que houve um furto de material de guerra em Tancos, mas nos bastidores das Forças Armadas e da política, alguns pela calada e outros de viva voz, há muito que essa certeza é colocada em causa. Os muitos mistérios que sempre envolveram o assalto e os episódios, alguns caricatos, que se seguiram dão corpo às dúvidas de que houve um furto.

Paióis de Tancos
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Paióis de Tancos LUSA/PAULO CUNHA

Quando no dia 10 de Setembro do ano passado, o ministro da Defesa, Azeredo Lopes, disse que podia não ter havido “furto nenhum” em Tancos e que, “por absurdo”, se podia “admitir que o material já não existisse”, muitos abriram a boca de espanto. Outros não, porque a declaração do ministro vinha dar corpo a uma teoria que há já algum tempo corria nos bastidores militares e políticos: não terá havido roubo em Tancos, mas sim uma falta de material militar só detectada em meados de Junho de 2017 e que se terá ficado a dever a deficientes registos. Uma teoria grave, porque significaria que as chefias militares mentiram ao longo de todo o processo. Esta terça-feira foi detido o director da Polícia Judiciária Militar, coronel Luís Vieira, no âmbito da investigação ao reaparecimento do material de guerra na Chamusca. Além deste responsável foram detidos pelo menos mais cinco pessoas, incluindo outros elementos da PJ Militar, da GNR e um suspeito civil. 

A verdade é que o desaparecimento das armas do Paióis Nacionais de Tancos esteve sempre envolvido em densos mistérios, muitas dúvidas e até em momentos de tragicomédia.

Em primeiro lugar, nunca se soube em que momento exacto aconteceu o eventual furto, se ele foi levado a cabo numa só acção ou em várias. Também nunca se soube se entrou alguma viatura no perímetro dos paióis, ou se o material de guerra terá sido levado pela mão.

Soube-se, após o furto, que os militares juravam que tinha acontecido; que o perímetro de segurança aos Paióis Nacionais era feito por vedações a caírem de velhas; que a videovigilância estava avariada há anos; que a vigilância física era feita de forma deficiente.

Também nunca se soube porque não foi avisada de imediato do roubo a secretária-geral do Sistema de Segurança Interna (SSI), Helena Fazenda, que devia ser das primeiras a serem informadas e que afirmou no Parlamento só ter sabido pelos jornais.

Assalto cirúrgico

O que se soube muito pouco tempo depois de detectada a falta foi qual o material roubado, graças a uma notícia de um jornal espanhol, confirmada pelas chefias militares portuguesas.

A revelação do material em falta mostrava que quem o tinha eventualmente furtado sabia exactamente onde estava  e o que levar, já que só visitaram três dos 20 paióis de Tancos, precisamente aqueles onde se encontrava o material mais relevante. Por outro lado, o material furtado “encaixava” um no outro. Os seja, foram roubados explosivos de diverso tipo e exactamente o equipamento necessário para o fazer explodir.

Chegados aqui, das duas uma: o roubo não poderia ter ser feito sem a conivência e informações de alguém do interior dos Paióis ou teria sido levado a cabo por uma organização criminosa internacional altamente profissional.

Seguiram-se declarações contraditórias por parte das chefias militares, como, por exemplo, de que o material roubado era obsoleto e depois já não o era. Seguiram-se também muitas notícias nunca desmentidas de uma “guerra” entre a Polícia Judiciária Militar (PJM) e a PJ, a quem cabe o comando da investigação ainda em curso do Ministério Público.

Material a mais ou material a menos?

A 18 de Outubro do ano passado, o material desaparecido em Tancos apareceu a cerca de 25 quilómetros do perímetro militar, abandonado num terreno na zona da Chamusca. A recuperação não se tinha ficado a dever às investigações em curso pelo Exército, através da sua Polícia Judiciária Militar (PJM), nem à investigação conjunta entre militares e Ministério Público, através da Polícia Judiciária. Ficou a dever-se, segundo revelou o Exército, de uma chamada anónima para a GNR, que depois alertou a PJM, que deu conta do local onde se encontrava o armamento. A PJM não chamou ao local a PJ, mas chamou a GNR…de Loulé. Nunca ninguém explicou porque não foi chamada a PJ e porque se recorreu aos militares de Loulé, quando havia diversos quartéis de GNR na região da Chamusca onde as armas tinham sido encontradas.

Mais perguntas sem respostas: Há quanto tempo estava o armamento naquele terreno abandonado na Chamusca? Quem fez a verificação de que o material encontrado era mesmo o desaparecido, além da PJM?

Segundo o Exército, o material encontrado correspondia quase na totalidade ao que tinha sido furtado — apenas faltavam algumas munições. Mas, em “compensação” tinha surgido uma caixa de petardos que não estava na lista oficial do equipamento desaparecido em Junho. Uma situação “compreensível”, disse Rovisco Duarte, porque é comum haver “problemas de registo” daquilo a que os militares chamam “material volante”. Material que é utilizado na instrução, podendo ter sido registada a sua saída e não ter sido na realidade consumido por várias razões, como por exemplo atmosféricas, regressando ao paiol.

“Problemas de registo”, o principal facto que citam aqueles que levantam a hipótese de o material de guerra nunca ter sido roubado.

"Indício preocupante de manipulação dos factos"

José Manuel Neto Simões, capitão-de-fragata na reforma, escreveu, a 15 de Junho deste ano, num artigo de opinião no PÚBLICO, o seguinte: “O aparecimento [do armamento] não resultou da investigação, pelo que, no mínimo, é um episódio inusitado com objectivos de carácter duvidoso. E constitui um indício preocupante de manipulação dos factos, tendo em vista lançar um manto de obscuridade na tentativa de condicionar o inquérito, cuja investigação criminal é da responsabilidade do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP/PJ).”

E acrescenta: “Vai ao encontro da narrativa oficial de mistificação para que não haja demissões como ocorreram no Ministério da Administração Interna — responsabilização política pela deficiente gestão dos fogos de Pedrógão —, mesmo antes do apuramento de responsabilidades criminais!” O Exército, sempre pronto a responder quando algo que é escrito ou dito na comunicação social sobre o ramo falta à verdade ou está errado, não disse uma palavra sobre estas afirmações.

Há cerca de um mês, o Expresso, escrevia, citando a investigação em curso, que afinal, entre o material encontrado na zona da Chamusca não estava a totalidade do que tinha sido roubado.

O Exército sempre recusou dar ao Parlamento a lista do material recuperado, argumentando que está "legalmente impedido" de divulgar a lista porque faz parte da investigação do DCIAP.

Fracas penas

O Exército concluiu em Janeiro deste ano os processos disciplinares abertos no ramo, castigando quatro militares. A pena mais greve (proibição de saída da unidade por 15 dias) foi para um sargento, por não ter mandado fazer as rondas de segurança. Um oficial que poderia ter feito a ronda e não fez teve uma repreensão agravada. Um praça viu-lhe aplicada uma repreensão simples por ter preenchido mal a papelada da entrada e saída de material de Tancos e um outro ficou impedido de sair unidade durante seis dias por incitamento a declarações falsas. Nenhum foi responsabilizado directamente pelo desaparecimento das armas. Nem eles nem ninguém, por enquanto.

Castigos parcos para tão grave falta, mas uma oportunidade para o Exército dar a sua investigação como concluída, continuando as mais altas chefias militares a garantirem que houve mesmo um assalto aos Paióis Nacionais de Tancos.