C. Tangana, o rapper espanhol que gosta de Tolstói

No início de Fevereiro, a estrela em ascensão da música latina estreou-se no Musicbox, em Lisboa, e horas antes falou com o PÚBLICO.

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C Tangana DR

C. Tangana, o rapper madrileno em ascensão que mistura trap, reggaetón e outras sonoridades latinas e não só, diz que as suas canções e peças de arte favoritas de sempre são, ao mesmo tempo, “boa arte e populares”, de artistas que “não trabalham só para um nicho”. Tal como Salvador Dalí, a quem foi buscar o nome da sua mais recente mixtape, Avida Dollars (era a alcunha que o detractor André Breton lhe dava)? “Ou Bob Dylan”, alguém que ele cresceu a ouvir, “ou, não sei, Tolstói”, responde ao PÚBLICO. Tolstói? “Sou fã dos russos no geral”, explica o rapper licenciado em filosofia, um curso que seguiu porque “era o único que podia fazer só a ler”. “Quando era adolescente gostava de existencialismo, li muita literatura russa, muito Nietzsche e todos os seus ‘filhos’, bem como todo o realismo sujo, do Henry Miller ao Kerouac”, continua.

Antón Álvarez Alfaro conta isto no Lost Lisbon, uma guest house perto do Musicbox, no Cais do Sodré, onde daí a umas horas dará o seu primeiro concerto (esgotadíssimo) em Lisboa, no início de Fevereiro. Tangana tinha estado meses antes por Lisboa, mas mais pelos lados de Barreiro, Cova do Vapor e Damaia, a rodar o teledisco de Pa’ llamar tu atención, uma canção a meias com o DJ e produtor catalão Alizzz com a colaboração do funkeiro brasileiro MC Bin Laden – o senhor de Tá tranquilo tá favorável. É um dos vários nomes com quem trabalhou, um rol que vai da ex-namorada Rosalía a El Niño de Elche, ambos no campo do flamenco, passando pela norte-americana de origem mexicana Becky G, uma das 20 mulheres mais ouvidas do Spotify (o top da plataforma de streaming conta com bastantes nomes latinos).

Da filosofia ao rap foi um passinho. Em casa, além de Dylan, ouvia Van Morrison ou o seu conterrâneo Antonio Vega. Na rua, com os amigos, ouvia rap, um género que lhe começou a chegar via MTV. Ouvia o boom bap nova-iorquino dos anos 1990, com Gang Starr e o seu Moment of Truth ou Mobb Deep. Começou por tentar emular esses heróis. Mas essa música já estava feita – e bem. “Sempre fui curioso e tentei fazer coisas novas”, explica. E foi isso que começou a acontecer.

O objectivo é fazer música que ainda não tenha sido feita. “Estou a tentar fazer algo que não é o que estou a ouvir. Estou a tentar chegar a um ponto e às vezes chego, outras não. Quando faço isso, vou para a próxima”, confessa. Contudo, “há sempre uma distância”. “Penso que estou sempre à frente da minha música, por isso é que não gosto muito dela”, comenta.

É, então, estranho dar concertos? “Sim, tem de haver uma razão muito boa. O meu sítio é o estúdio”, responde. “Concertos não são sobre a minha música, é um tipo de ritual com as pessoas, não é pela música, é pela ligação. Nem é uma grande actuação, sou só um rapper. Não estive dez anos a aprender piano para ser um virtuoso”, conta.

Há quem o associe a música bastante triste. Por exemplo, edição espanhola revista Vice, no ano passado, foi falar com um psicólogo para perceber por que é que ele estava tão triste. Ele diz que não é bem assim: “Às vezes sim, outras não. Tenho muita música para dançar, tenho alguma música para estares muito triste no teu quarto a pensar nela, e muitas faixas que são as minhas favoritas para as actuações ao vivo, sobre ambição e paixão, que motivam as pessoas.”

Em Agosto do ano passado saiu no YouTube um freestyle de C. Tangana chamado Spanish jigga, em que se compara ao rapper norte-americano Jay-Z – “Jigga” é uma das suas alcunhas: “Estava a falar dele como um homem de negócios. Quando era mais novo era mais boémio, mas quando comecei esta nova era e decidi chegar ao topo comecei a falar disso: quero crescer, ter sucesso, ter poder, não ter de estar por debaixo de pessoas que não sabem nada sobre a música e me podem tirar o que não querem.” Não é, diz, “uma mensagem comum” em Espanha. “Quero dizer que para seres um artista não tens de esquecer tudo na tua vida. Não tens de estar a sofrer a cada momento da tua vida para ser um artista. Não é necessário. Podes viver muitas vidas diferentes.”

Não é estranho, um homem que no seu país é visto como branco comparar-se a um homem negro? “Não acho que seja caucasiano. Vivemos no Norte de África e somos o sul da Europa. Sinto que sou mais semelhante a pessoas da Colômbia ou de Tunes ou de Marraquexe do que a alguém da Alemanha”, responde.

Por falar nesses países, diz que há cada vez mais abertura a colaboração com espanhóis. “Toda a gente é agora mais aberta com a língua e com os espanhóis, porque sempre fomos latinos não-típicos. Somos diferentes, temos todo o problema colonialista, acho que temos sido bem-vindos lá, mas não sempre”, confessa. E é “um óptimo momento” para música feita em espanhol. “Temos tantas estrelas pop latinas e de reggaetón que estão a quebrar barreiras”, continua. Mas, afirma, acha "que é tempo de quebrar a ideia do reggaetón”. “Adoro reggaetón, mas a música espanhola e a música feita em espanhol pode fazer muitas coisas, não só o típico reggaetón. Está na altura de chegar ao próximo nível e criar algo mais rico com a nossa língua, não ser só uma tendência, mas algo mais artístico”. Popular e bom, tipo Tolstói.