Luca Argel: “O samba tem muito um lado cronista, de crítica e piada”

O cantor e compositor brasileiro Luca Argel tem em Conversa de Fila um disco de crítica urbana, com ironia e humor. E apresenta-o esta quarta-feira no Porto, na Casa da Música. Dia 15 actuará em Coimbra e dia 24 em Lisboa.

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Luca Argel em casa DR

Nasceu no Rio de Janeiro, em 1988, mas reside actualmente em Portugal, no Porto. Entre as duas cidades, Luca Argel foi desenvolvendo projectos musicais, ao mesmo tempo que cuidava da sua formação académica. Formado em música pela UNIRIO e com mestrado em Literatura pela Universidade do Porto, é vocalista e compositor dos grupos Samba Sem Fronteiras, Orquestra Bamba Social e Ruído Vário, este último em parceria com a cantora portuguesa Ana Deus. A par disso, tem livros de poesia publicados no Brasil, Espanha e Portugal e assina a rubrica semanal Samba de Guerrilha, na Rádio Universitária do Minho.

O que o traz agora à ribalta é um novo disco, Conversa de Fila, chegado às lojas no primeiro dia de Março, e que ele agora está a apresentar ao vivo. Primeiro no Porto, na Casa da Música, já esta quarta-feira (na sala 2, às 21h30), depois em Coimbra (dia 15, no Salão Brazil, às 22h) e finalmente em Lisboa, no Espaço Espelho D’Água (dia 24, às 18h), onde ele já apresentara em Janeiro passado, junto com Ana Deus, o projecto de ambos, Ruído Vário.

PÚBLICO -
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Capa de Conversa de Fila DR

Antes de Conversa de Fila, Luca Argel já tinha lançado dois discos nas plataformas digitais: tipos que tendem para o silêncio (de 2016, mais experimental) e Bandeira (em 2017). Este novo disco tem uma capa em banda desenhada, em azul e amarelo (Luís Henriques é o seu autor) que, desdobrada, compõe mesmo uma fila onde se misturam figuras medievais, um astronauta e um ninja, Freddie Mercury e o Pai Natal, o McCartney do Yellow Submarine e o Super Mario, ou as personagens da Guerra das Estrelas Chewbacca e R2-D2. O título, esse, é inspirado nessa trivial “instituição” da vida urbana que é a fila e nas conversas trocadas que ela proporciona. “Vem muito do dia-a-dia, é onde eu vou buscar essas pérolas”, diz Luca Argel ao PÚBLICO. “São coisas que ouço, tomo nota e depois transformo em canções. Este Conversa de Fila, de todos os trabalhos que já fiz, é o mais voltado para o humor.”

“Raiz do humor é o efeito surpresa”

E isso é patente nas letras, sobretudo as do novo disco “Nos dois últimos anos, quando estive a escrever as músicas, vivi uma fase da minha actividade de escrita em que estava mais interessado em explorar esse lado, até porque algumas músicas do Bandeira, que é o disco anterior, chamaram muito a atenção das pessoas por esse lado. Foi uma coisa meio sem querer.” Mas foi por aí. “Acho que a raiz do humor, para mim, é o efeito surpresa. As pessoas acabam por achar graça por não esperarem que a música vá para determinado lado.”

Um exemplo disso é a canção Natal, Natal, que gerou um vídeo adequado, lançado em Dezembro no YouTube. Começa assim: “Dezembro na minha terra/ é um mês bem quente como uma sauna.” Mas tem na mesma o Natal, com “pinheiros de plástico, calção de banho/ e neve de esferovite”. Ele explica: “É um dos absurdos do dia-a-dia que a gente já acha normal. A simbologia toda do Natal, a neve, o Pai Natal com aquele casacão vermelho, os pinheiros, não há nada disso no Brasil. Mas as pessoas vêem isso como algo natural. Eu passei a achar isso estranho só depois de vir para Portugal, porque no Brasil também achava natural.”

Noutra canção, Anos doze, Luca Argel criou uma réplica da canção Doze anos, que Chico Buarque partilha com Moreira da Silva na Ópera do Malandro, mas aqui adequada aos 12 anos de quem, como ele, os viveu no final dos anos 1990. “É claro que na música eu exagerei muito, eu não fazia só aquilo (jogar Nintendo, Mortal Kombat, beber Red Bull com Coca Cola para permanecer acordado). Mas para fazer o vídeo fui até buscar fotografia minhas, antigas. Porque eu, o meu irmão e o meu primo passávamos todas as festas de família, desde a infância até à adolescência, a jogar videogame a noite toda, só parávamos para jantar.”

Surrealismo nascido da realidade

Num caso, o humor chega ao surrealismo. Em Samba invertido, Luca escreveu: “Me trouxe um gole d’água/ com o copo dentro (mais uma pedra de gelo)/ depois cortou-me as cabeças do cabelo/ e os narizes do pêlo./ Passando a agulha no camelo./ Eu afinal me conformei. Virei pra ela e falei:/ ‘Se é assim, que assim seja”/ Fui ao boteco do Garcia/ E passei o resto do dia sendo sorvido por cerveja./ E que o perigo nos proteja.” A motivação, contudo, veio de um acontecimento bem real. “Acho que é a música mais surreal que eu já escrevi, mas ela teve uma inspiração muito concreta, que foi a votação em 2016 do impeachment da Dilma, no Brasil. Na sessão da câmara dos deputados, onde a gente via deputados com processos de corrupção até ao último fio do cabelo votando a favor do impeachment. Tudo ao contrário, foi surreal assistir àquela cena. No Facebook um historiador fez exactamente esse comentário, que ali estava tudo invertido, que era banana comendo macaco ou o poste mijando no cachorro. E eu peguei essas imagens, arranjei várias outras e criei esse tema da inversão.”

O disco fecha com uma canção inspirada num caso da realidade urbana portuguesa, em particular a do Porto, com a invasão turística. Chama-se Gentrificasamba, vem como tema bónus, e começa assim: “Fechou o livreiro. Fechou a quitanda. Fechou o florista./ A cidade vai virar só hotel para turista.” Luca diz: “Essa música é totalmente voltada para Portugal, ela foi escrita por causa do fechamento de um quiosque no Porto, de uns amigos que faziam (e ainda fazem) uns passeios turísticos, na verdade anti-turísticos, chamados worst tours. Era um quiosque que estava completamente abandonado há muitos anos pela Câmara Municipal, eles conseguiram uma licença para utilizar aquilo, mas no início de 2018 eles receberam uma ordem de despejo a dizer que o quiosque ir ser demolido porque havia um projecto urbanístico para ali. Foi quando eu vi que um quiosque que denunciava a gentrificação ia ser vítima da gentrificação que resolvi escrever essa música. O quiosque ainda lá está, fechado.”

Do rock à imersão no samba

Antes de compor com base no samba, Luca Argel tocou outras músicas. “Tive uma banda de rock no colégio e na altura em que comecei a escrever escrevia para essa banda. As minhas bandas preferidas eram as bandas de rock dos anos 60, 70. Gostava muito de Led Zeppelin, e ainda gosto. Além deles, Beatles, Pink Floyd, eram as coisas que a gente gostava de ouvir. Só depois me comecei a apropriar um pouco do universo na música brasileira, foi um pouco tardio. Comecei a descobrir tudo do Chico Buarque, do Caetano Veloso, do Gilberto Gil, e chegando a Portugal é que mergulhei no samba, especificamente.” Envolveu-se no Samba Sem Fronteiras (“que no começo era uma coisa informal e depois acabou por ser uma banda mesmo”) e na Orquestra Bamba Social. “Quando esse trabalho começou a ficar mais sério, o meu interesse por conhecer mais profundamente o samba cresceu, não só o repertório, mas toda a história, tudo aquilo que ele significa cultural e politicamente na história do Brasil.”

O afastamento do Brasil, na altura em que imergiu no universo do samba, deu-lhe uma visão “talvez mais fria, mais objectiva” do samba, mas, diz ele, talvez lhe tenha dado “uma lucidez maior acerca da importância do samba, de como ele é um fenómeno único.” E isso acaba por ligar-se também à temática do novo disco. “O samba tem muito um lado cronista, ele desenvolveu-se como testemunho do próprio tempo, fazendo crítica, muitas vezes de forma humorística, com galhofa, piada, com as coisas da cidade, do meio em que ele nasceu.”

Nos espectáculos do Porto, Coimbra e Lisboa, Luca Argel (voz e violão) não estará só em palco. “Eu vou estar em todos os concertos com o Carlos César Mota, que é um percussionista que me acompanha no disco e toca instrumentos pouco convencionais para a generalidade das músicas, mas que para o samba até são bem convencionais, como caixinha de fósforos, a faca no pires, latas, garrafas, objectos domésticos que são tradicionais do samba.”