Entrevista

"Não existe uma forma de ser velho"

Maria José Núncio é especialista em mediação familiar e diz que cada pessoa vive o envelhecimento de forma diferente. Os meus pais estão a envelhecer é o livro que acaba de lançar.

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A professora universitária escreveu livro com testemunhos e conselhos práticos Rui Gaudêncio

Existe uma idade limite para uma pessoa se tornar idosa? Maria José Núncio acredita que não. Doutorada em Sociologia e especializada em Mediação Familiar, dá aulas no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), em Lisboa, desde 1997. Acaba de lançar um guia que junta testemunhos reais e conselhos práticos para os filhos saberem lidar com a nova fase da vida dos progenitores: a velhice. ​

Os meus pais estão a envelhecer foi escrito em conjunto com a enfermeira Carla Rocha e chama à atenção para as questões do envelhecimento, solidão e isolamento, como explica Maria José Núncio em entrevista por escrito ao PÚBLICO. Nos últimos dez anos, o número de idosos não parou de aumentar, resultado de um saldo natural negativo. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, em 2016 representavam 20,7% da população portuguesa. ​

Quais foram os motivos que a levaram a escrever este livro?
O facto de termos uma população cada vez mais envelhecida; de não haver, em Portugal, respostas e apoios suficientes, quer para os mais velhos, quer para as famílias; a sobrecarga dos cuidadores e, sobretudo, o facto de, por combinação de dois fenómenos demográficos, que são o envelhecimento da população e a idade cada vez mais tardia em que temos filhos, estarmos a viver uma realidade de “geração-sanduíche”, em que a população adulta tem, simultaneamente, de prestar cuidados aos pais, que perdem autonomia e ficam dependentes, e aos filhos, ainda crianças ou adolescentes e, por isso, com necessidades de acompanhamento e cuidado.

Afinal, o que significa ser velho nos dias de hoje?
Não existe uma forma de ser velho. Existem vivências e experiências distintas no envelhecimento, como em qualquer outra etapa da nossa vida. Não se devem manter imagens estereotipadas acerca do envelhecimento, até porque tendem a trazer alguma conotação negativa. Claro que, em termos gerais, vamos ter uma população mais velha cada vez mais exigente, informada e qualificada, mas isso é simplesmente o resultado da própria evolução social. Nesse sentido o ser velho deve ser percebido como uma etapa “normal”, com características próprias e que deve ser vivida e aproveitada da forma mais positiva e enriquecedora possível.

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Capa do livro "Os meus pais estão a envelhecer" DR

Ser velho é sinónimo de ser solitário?
Isso tem a ver com essas tais visões estereotipadas. Ser velho pode levar, isso sim a alguma alteração de rotinas, mas não tem de se traduzir em isolamento ou em incapacidade de acompanhar a evolução dos tempos. Repare-se, por exemplo, na cada vez mais comum utilização da Internet e das redes sociais por pessoas mais velhas. Muitas vezes, esta pode ser uma fase em que se realizam alguns sonhos que, antes, não puderam ser cumpridos, como viajar ou aprender coisas novas. Na própria relação com a família, nomeadamente com os netos, há todo um capital de saber e experiência que torna esta relação fundamental, até em termos de identidade e coesão familiar.

Quando é que somos considerados velhos, quando chegamos à idade da reforma?
Não existem verdadeiramente acontecimentos, porque o envelhecimento é um processo e, nesse sentido, o que se vai dando é uma alteração a diferentes níveis – físico, psicológico, de motricidade, mental. O que sucede é que alguns acontecimentos da vida podem precipitar algumas destas alterações como a reforma, a viuvez ou o chamado síndrome de ninho vazio (quando os filhos saem de casa). De qualquer forma, e embora muitas vezes se associe a reforma à velhice, a verdade é que isso não tem razão de ser, podendo ser uma fase de realização de sonhos e objectivos de vida que antes não se puderam concretizar. Claro que isto depende das condições específicas de cada pessoa, mas em geral, é fundamental que a reforma não se converta numa fase de isolamento social, de inactividade ou de percepção de “inutilidade” social.

Quais são os sinais que mostram que os pais estão a envelhecer?
Em termos físicos e motores: desequilíbrio e quedas frequentes, perda de visão ou audição ou diminuição da mobilidade. Em termos psicológicos: alterações de humor frequentes, descuido com a imagem pessoal, esquecimento de compromissos. E termos sociais: isolamento ou grande alteração súbita de rotinas.

A velhice pode ser combatida? É possível prolongar a autonomia?
O envelhecimento não pode ser combatido, no sentido em que é um processo natural, que na verdade se inicia no momento em que nascemos. É, aliás, um erro querer combatê-lo, pois isso implica conferir-lhe uma conotação negativa que não faz sentido. O que pode ser combatida é alguma degradação de determinadas capacidades e isso tem de ser feito ao longo da vida, adoptando hábitos de vida saudáveis, não apenas na fase do envelhecimento, mas em todas as idades, de forma a “investirmos” numa melhor vivência do envelhecimento. Comprovadamente, se desenvolvermos estes hábitos saudáveis – ao nível da alimentação, da prática de exercício, de práticas de relaxamento e de autoconhecimento –, iremos continuar a adoptar esses hábitos à medida que os anos passam.

De que forma se pode estimular as capacidades físicas, psicológicas e cognitivas de quem enfrenta a velhice?
Seguir a velha máxima de “mente sã em corpo são”, ou seja, promovendo o exercício físico, adequado às condições de saúde da pessoa e às suas capacidades e preferências, exercícios que podem ir de pequenos movimentos feitos quando sentados ou deitados (para quem já perdeu a mobilidade) a caminhadas, hidroginástica ou ginástica de manutenção (para quem ainda tem e quer conservar essa mobilidade). Promover, também, o exercício da mente, incentivando a leitura, promovendo conversas sobre temas da actualidade e recorrendo a passatempos como palavras cruzadas ou sudoku, ou jogos de tabuleiro.

Como motivar os idosos a não pararem no tempo?
Conversando com eles, adoptando atitudes que não os infantilizem, valorizando-os, não fazendo escolhas por eles, ajudando a encontrar respostas que sejam adequadas às suas apetências, hábitos de vida anteriores e aos seus valores e receios. Não impor soluções, mas ajudar a encontrá-las.

Todavia, se suspeitarmos de que a resistência a realizar as actividades tem a ver com um quadro depressivo ou de total desinteresse, devemos procurar ajuda médica especializada. O que não podemos fazer, enquanto filhos ou família, é querer forçar os nossos pais a realizarem actividades, apenas porque alguém diz que essa actividade é boa, ou porque é aquela que é feita pela mãe da nossa melhor amiga.

Por exemplo, não podemos forçar a nossa mãe a ir para a ginástica de manutenção, se ela nunca quis entrar num ginásio. Se calhar, em alternativa, poderemos estimulá-la a caminhar todos os dias, durante uns 30 minutos, por locais que conhece, e já será uma solução que, além de benéfica para a saúde, estará em conformidade com os seus valores e gostos.

Por que é que frequentemente os filhos se esquecem que os pais não são crianças?
Isso deve-se à nossa vontade de proteger ao mesmo tempo que nos sentimos como que “perdidos” acerca da melhor forma de agir. Por nos apercebermos que os nossos pais estão mais frágeis, vulneráveis ou dependentes, a reacção acaba por ser de os infantilizar, mas isso é algo que é muito comum na nossa sociedade.

Quais são as consequências dessa atitude?
Esta acaba por ter os efeitos contrários àqueles que pretendemos, fazendo com que os mais velhos, em vez de se sentirem protegidos e acarinhados, se sintam desrespeitados, com perda de dignidade e de poder de decisão, o que gera revolta e reduz a vontade e capacidade de colaboração.

Qual é a melhor forma para os filhos se mentalizarem de que eventualmente os pais irão envelhecer e morrer?
Essa é, geralmente, a grande dificuldade, dado que os pais são os nossos grandes referenciais de segurança e protecção e são, sobretudo, a nossa ligação com a infância. Reconhecer o envelhecimento e a perda é como que reconhecer que se vai perder uma parte do que somos, que nos estamos a tornar “outros”, que nós próprios estamos a envelhecer e, necessariamente, que nos confrontamos com a nossa própria finitude e mortalidade. Além disso, tememos o sofrimento e a dor da doença que, muitas vezes, acompanha os últimos anos de vida e dói-nos ver esse sofrimento e essa dor naqueles que nos são mais queridos.

O que acontece quando não reconhecemos que os pais estão a envelhecer?
A negação do envelhecimento dos nossos pais manifestada na recusa em ver os sinais desse envelhecimento ou na sua desvalorização, leva-nos a não pensar em soluções para determinadas ocorrências como a doença ou a perda de autonomia. Leva-nos, sobretudo, a não abordar estes assuntos com os pais, a não ouvi-los sobre as soluções que eles prefeririam ou que recusariam. O que acontece é que quando ocorre alguma destas eventualidades estamos totalmente impreparados, quer em termos psicológicos, quer em termos logísticos e materiais.

Devemos fazer sentir aos nossos pais que estão a envelhecer?
Devemos reconhecer o envelhecimento e lidar com ele de forma perfeitamente natural, adaptando os nossos comportamentos às novas necessidades que vão surgindo. O que não podemos é infantilizá-los, desvalorizando as suas opiniões, queixas e as percepções que têm acerca do seu envelhecimento e das consequências que ele acarreta.

Nas alturas em que é necessário dizer a mesma coisa várias vezes, há algum truque para manter uma postura calma e tranquila?
Acho que o principal truque é pensarmos em como gostaríamos (e gostaremos) de ser tratados no futuro, quando estivermos nas mesmas situações. Nem sempre é fácil e, por isso, os cuidadores têm de encontrar tempo e estratégias para compensarem o desgaste e a impaciência. Ter tempo para si, recorrer a ajudas e colaboração de outras pessoas. Acima de tudo, temos de adaptar as conversas e escolher os momentos e as formas mais adequadas para abordar as questões mais difíceis ou em que existem mais divergências.

É dever dos filhos cuidar dos pais na velhice?
Claramente, é um dever social, moral e legal. Todavia, sucede que há diferentes formas de cuidar e essa é uma questão que é tratada neste livro. Por exemplo, se existe uma relação tensa ou de conflito há vários anos na relação entre pais e filhos, talvez a prestação de cuidados directa e continuada, não seja a melhor alternativa. Seguramente, não será a solução ideal levarmos um pai com quem estamos em conflito há mais de 30 anos para viver em nossa casa. Aí, o dever de cuidar pode traduzir-se em procurar e assegurar soluções alternativas que garantam o bem-estar de todos.

Nesse caso, qual é a solução?
Os filhos devem procurar soluções de cuidado e/ou acompanhamento que não impliquem um contacto permanente ou continuado com os pais. Estas soluções podem ser formais – lares ou apoio domiciliário –, ou informais, por recurso a outros familiares ou mesmo amigos de confiança que estejam disponíveis, ainda que mediante algum tipo de compensação, para acompanhar ou cuidar.

Os lares não serão uma forma de descartar os idosos?
As soluções têm de ser ponderadas caso a caso. Um lar, desde que com a garantia de qualidade e segurança, pode ser a solução ideal nalgumas situações. E, muitas vezes, os próprios pais, por não quererem ser uma sobrecarga na vida dos filhos ou por quererem manter alguma independência, consideram que esta é a melhor solução, quando deixam de poder viver sozinhos, ou quando o seu grau de autonomia nas actividades da vida diária se torna muito reduzido. A ideia dos lares como “depósito de velhos” tem de ser combatida. O que é fundamental é que se verifiquem previamente as condições desse lar, se recolham referências e, é claro, se continue a acompanhar os pais, mesmo quando eles estão numa unidade residencial desse tipo.

Que efeito tem no idoso a ida para um lar?
Depende das circunstâncias específicas, mas sublinha-se que nunca é uma adaptação fácil, na medida em que significa que se deixou para trás toda uma vida, perderam-se faculdades e o fim está assumidamente mais perto. Todavia, se a escolha do lar foi adequada, se foi feita de acordo com a vontade dos próprios pais e se mantivermos o hábito de os visitar e acompanhar, o processo é mais fácil.

Também é importante que, dentro daquilo que são as limitações e regras institucionais se procure preservar a vontade, identidade e referências do utente, nas propostas de actividades, nos horários e na própria utilização do espaço que lhes pertence. Personalizar o tratamento é fundamental. É algo que as instituições devem promover e que nós, enquanto familiares, devemos zelar para que aconteça.

Porque é que algumas pessoas com 70 anos parecem envelhecer mais depressa do que outras já com 90? 
Depende do modo como as pessoas se prepararam para o envelhecimento ao longo da vida, dos preconceitos que têm em relação à passagem do tempo e dos recursos afectivos, emocionais e sociais de que dispõem. Se uma pessoa está muito isolada tem dificuldade em manter uma rede de interacções sociais ou não consegue encontrar formas alternativas de ocupar o seu tempo. Aí, pode suceder que o envelhecimento se torne mais evidente.

Texto editado por Bárbara Wong