Sofia Silva, David Amorim e Bárbara Pereira
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Sofia Silva, David Amorim e Bárbara Pereira Inês Fernandes
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A greve climática chegou a Portugal: “Lembrámo-nos de que tínhamos voz, já que a Greta gritou tão alto”

Quando se reúnem para discutir os preparativos da greve que se avizinha, falam de “justiça climática” e “inacção governamental”. A 15 de Março, estudantes de todo o mundo vão faltar às aulas em defesa do clima — e Portugal não falta à convocatória. “Isto é só o início”, avisam. Afinal, estarão os jovens mais atentos do que se pensa?

Eles não “estão só à procura de um motivo para faltar às aulas”, como às vezes lhes dizem. E não se preocupam só com as redes sociais, como muitas vezes são acusados. Querem justiça climática, responsabilização e respostas do Governo — e mobilizar colegas a faltar as aulas a 15 de Março, desde que percebam e se identifiquem com a causa. A Greve Climática Estudantil está aí à porta e, na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, há um grupo de jovens que se reúne para tratar dos preparativos.

Quem os vê sentados à volta de uma mesa não adivinha do que lá se fala. São uma dúzia — alguns universitários, a maioria frequenta o ensino básico e secundário. O encontro é aquilo que a greve pretende ser: “De estudantes, para estudantes.” E é isso que Bárbara Pereira, aluna no Colégio Internato dos Carvalhos, em Vila Nova de Gaia, começa por sublinhar. “Algumas pessoas pensam que as nossas redes sociais estão a ser geridas pelo Bloco de Esquerda. É importante mostrar quem somos e fazê-las perceber que somos apartidários”, refere.

Com 17 anos, Bárbara Pereira é, juntamente com David Amorim e Sofia Silva, uma das responsáveis pelo movimento #SchoolStrike4Climate — iniciado por Greta Thunberg — no Porto. São eles que respondem aos alunos da região Norte que querem aderir à greve, fazem divulgação no Facebook e Instagram, tentam mobilizar estudantes, distribuir panfletos e espalhar cartazes — com contenção e sem desperdício —, além de entrarem em contacto com associações que os possam ajudar na causa. São também eles que moderam a reunião.

“Precisamos de ideias de medidas que possam ser implementadas a nível local e nas nossas escolas”, lança Bárbara Pereira. E a conversa é desviada para questões políticas: Diogo Araújo, 19 anos, fala em “interesses das grandes empresas” que impedem o Governo de tomar medidas “drásticas” e atingir as metas propostas pelo Acordo de Paris. Acabam por concluir: “Não somos nós que temos que arranjar as soluções, não é esse o nosso papel.”

Nas escolas, querem começar acções de sensibilização porque, mais do que alertar os colegas para a “inacção governamental”, pretendem apresentar-lhes “soluções sustentáveis para o dia-a-dia”. Sugerem criar clubes, procurar apoio de associações de estudantes e promover palestras. Para esta última, contam com a Climáximo, grupo de activistas que se disponibilizou a visitar escolas interessadas em ouvir falar sobre as alterações climáticas — uma colaboração que se deverá manter mesmo depois da greve.

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Ainda não fizeram cartazes com palavras de ordem. Estão a planear pintá-los em conjunto numa oficina, agendada para 9 de Março, no Porto. Discutem a possibilidade de utilizar roupas que já não usam para escrever as palavras de ordem, em vez de cartão. Porque não é só protestar — há que pôr em prática o que exigem e isso vai desde escrever nos panfletos “Passa ao próximo! Não desperdices este folheto!” até à partilha de hábitos ecológicos. Isabel Fonseca, 17 anos, conta que carrega sempre consigo um saco de pano, caso tenha de ir comprar pão ou qualquer outra coisa que exija uma embalagem. “Não custa nada.”

A maior parte destes estudantes está a conhecer-se pela primeira vez, já que é através de grupos no WhatsApp que comunicam: além do grupo nuclear, o centro das operações com 34 membros, há grupos regionais. Lisboa, Coimbra, Braga, Faro, Santarém e Funchal são algumas das cidades que vão participar na greve global. Mas o número tem vindo a aumentar e, até agora, são 16 os locais confirmados onde os estudantes vão sair à rua para gritar pelo clima. Todas as manifestações têm início às 10h30, excepto as dos Açores, que começam às 9h30 (hora local).

A culpada: Greta Thunberg, a activista sueca de 16 anos que decidiu fazer greve à escola todas as sextas-feiras, em protesto contra a letargia do Governo em relação às alterações climáticas. Após o seu discurso na Cimeira do Clima das Nações Unidas, desencadeou uma série de protestos por todo o mundo — e, no dia 15, a convocatória é global. Por cá, estes jovens pensaram: “Se tu consegues, nós conseguimos.” Ou, nas palavras de Bárbara Pereira: “Lembrámo-nos de que tínhamos voz, já que a Greta gritou tão alto.”

“Isto é apenas o começo”

Na zona da grande Lisboa, é Matilde Alvim, aluna da Escola Secundária de Palmela, quem comanda as tropas. Foi ela, aliás, quem trouxe o movimento para Portugal. Ao telefone com o P3, conta que sempre teve “o bichinho da consciência ecológica”, até porque cresceu na serra e teve a “natureza muito perto”. “Quando a Greta começou a fazer greve, gostei da ideia e pensei que devíamos fazer o mesmo aqui”, conta. E achou que Bárbara Pereira era a pessoa indicada para a ajudar a disseminar o movimento.

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Matilde Alvim, da Escola Secundária de Palmela, trouxe o movimento para Portugal DR

Ainda que distantes geograficamente, as jovens unem-se “por este tipo de causas”, explica Bárbara, que tinha 14 anos quando decidiu tornar-se vegetariana. Apesar da tenra idade, tinha “noção do dano” que a indústria da carne provocava e sabia que podia fazer a sua parte para mudar o cenário. Agora, com 17, não hesitou em aceitar o desafio e puxou Sofia Silva e David Amorim — o “típico rapaz que opina sobre tudo” e quis deixar de ser “activista de sofá” — para a organização do movimento.

Ainda que, no início, confessa Bárbara, parecesse “muito improvável” que “um grupo de miúdos” fosse capaz de trazer a causa para Portugal, acabaram por perceber que todos juntos acrescentavam algo e que a ideia “tinha pernas para andar”. Agora, a pouco mais de uma semana do dia D, aquilo que para David Amorim parecia “uma utopia” está cada vez mais perto de acontecer. Os jovens estão confiantes. Têm visto os colegas a interessar-se pelo tema, os pais a aceitar o “acto de rebeldia” e os professores a apoiar a iniciativa. E a professora de História de Matilde Alvim já os tranquilizou: “Mesmo quando uma revolução é falhada, fica sempre lá a semente.”

Mas eles esperam conseguir “respostas das pessoas responsáveis”. “Ainda que não seja instantânea, há solução e medidas que podem ser tomadas. E o Governo tem de assumir essa responsabilidade”, atira Bárbara Pereira. E se essas respostas não chegarem? Voltam à carga: “Isto é apenas o começo”, afirmam. Na reunião antevêem já a greve que se poderá vir a realizar a 15 de Março de 2020 e Bárbara fala em procurar apoios para dar continuidade ao movimento em Portugal. Não é uma moda. Agora que se lembraram que têm voz, estão determinados. “Não nos vamos calar”, garante Sofia Silva.