Opinião

A greve que Portugal ainda não viu

Os adolescentes não estão a dormir. Pedem que se faça o que a ciência e as Nações Unidas dizem que é preciso fazer. Está a emergir uma nova “geração de Gretas”. São miúdos, mas devem ser levados a sério. Eles têm razão.

Porque hoje é sexta-feira, Greta Thunberg vai faltar às aulas e passar o dia à porta do parlamento de Estocolmo com um cartaz que diz “Skolstrejk för klimatet”. Tradução: greve à escola em defesa do clima. Pelo menos, foi assim que passou as últimas 27 sextas-feiras.

Em seis meses, o esforço solitário desta adolescente sueca fez nascer um movimento internacional, por ter síndrome de Asperger, Greta Thunberg, 16 anos, tem uma obsessão radical pelas alterações climáticas. Aos 11 anos ficou deprimida quando percebeu que os adultos não se preocupavam com o planeta. Sentiu que não ia conseguir fazer nada de útil, ficou em casa e só queria morrer. Os pais, um actor e uma cantora de ópera, abandonaram as carreiras e ficaram um ano em casa com ela. Dessa ida aos fundos, os pais saíram convertidos e a filha saiu activista. A mãe voltou a cantar mas só na Suécia — deixou de andar de avião. Todos abandonaram a carne e os lacticínios.

Há um radicalismo desconcertante em Greta Thunberg. Quando lhe perguntaram como é viver com esta perturbação neurológica da família do autismo, respondeu: “Vejo tudo a preto e branco.” A Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger identifica a interpretação literal da linguagem, os interesses especiais e o comportamento rotineiro como características comuns da doença. Muitos dos santos canonizados ao longo dos séculos teriam Asperger, sugeriu-me um amigo. Faz sentido.

A Asperger está a ajudar à causa ambiental, mas é apenas uma parte. Só quem não quer é que não vê que os jovens estão acordados. Na Roménia, há centenas de milhares de jovens que protestam na rua contra o actual governo (herdeiro do comunismo de Nicolai Ceausescu), que há dois anos altera a legislação de modo a proteger os políticos corruptos. Nos EUA, milhares de estudantes fizeram protestos a seguir ao massacre na escola secundária Marjory Stoneman Douglas, na Flórida, onde um antigo aluno matou a tiro 17 estudantes e funcionários. Foi nesses adolescentes que Greta Thunberg se inspirou. Ela viu que a seguir ao “national school walkout” — os alunos saíram da escola às dez da manhã e faltaram às aulas em Nova Iorque, Chicago, Atlanta, Santa Mónica e Denver, mas também em comunidades rurais como Potosi, no Wisconsin — o Governador da Flórida assinou uma nova lei que subiu de 18 para 21 anos a idade mínima para comprar uma arma e impôs três dias de espera até a arma ser entregue. Em Agosto de 2018, dias antes de Thunberg iniciar o seu protesto em Estocolmo, vários estados americanos, incluindo 14 com governadores republicanos, tinham aprovado 50 novas leis para restringir o acesso a armas.

A semana passada, a Economist fez capa sobre o “regresso do socialismo” e a emergência do “socialismo millennial”, pondo as coisas nestes termos: como a direita deixou de defender ideais e se fechou no chauvinismo e na nostalgia, e a esquerda se focou na igualdade e no ambiente, os jovens encontram no socialismo a forma de fazerem uma crítica incisiva sobre o que está mal.

Os jovens podem estar descontentes com a democracia, mas não estão a dormir. A razão está do seu lado: pedem que se faça o que a ciência e as Nações Unidas dizem que é preciso fazer.

Inspirados na perseverança de Greta Thunberg, nos últimos seis meses houve “greves à escola pelo clima” em 300 cidades. Perto de meio milhão de miúdos de 15 e 16 anos foram para a rua. Uns fazem greve sozinhos todas as sextas. Outros lideram protestos de milhares, como no Reino Unido, na Bélgica, na Alemanha e na Austrália. Chamam-lhe “school strike for climate”, “Fridays for Future”, “Youth for Climate”, “Klimastreik”, “grève du climat”. A velocidade e a projecção do novo movimento espantou veteranos do activismo ambiental.

E apanhou de surpresa Joke Schauvliege, ministra do Ambiente da Flandres. Incapaz de interpretar o novo fenómeno — jovens do secundário a tomarem uma posição política —, disse que os adolescentes estavam a ser manipulados e acabou por se demitir depois de ser desmentida pelos serviços secretos. O primeiro-ministro australiano reagiu com uma cegueira igual.

Os pais olham sempre para os filhos como crianças. Os políticos podem até fazer o mesmo. Mas vão ter de encontrar melhor estratégia para esta nova vaga de “Gretas verdes”: Alexandria Villasenor em Nova Iorque; Lilly Platt em Zeist, Holanda, Ellida Dilley em Corsham, Reino Unido; Isra Hirsi no Minneapolis; Haven Coleman em Denver; Holly Gillibrand em Fort William, Escócia. A boa notícia: o movimento chegou a Portugal. No dia 15, vamos saber quantas Gretas temos.