Ricardo Araújo Pereira quer ser julgado por Neto de Moura e cria jogo escatológico

O humorista está na "lista negra" do juiz Neto de Moura, que ameaça processar 20 pessoas e entidades por alegadas ofensas à honra pessoal e profissional.

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enriv vives-rubio/arquivo

O polémico juiz Neto de Moura, autor de acórdãos que desvalorizam a violência doméstica e que tenciona, como confirmou o seu advogado Ricardo Serrano Vieira ao PÚBLICO, processar, por ofensas à honra pessoal e profissional, quem fez comentários nos jornais, televisões e redes sociais às suas recentes decisões, voltou a estar na berlinda do humor de Ricardo Araújo Pereira.

No programa deste domingo de Gente que não sabe estar, da TVI, o humorista não se poupou nas piadas. E não poupou o juiz desembargador: "Gostava de ser julgado pelo próprio Neto de Moura. Porque ele sentiu-se agredido por mim e ele costuma estar do lado dos agressores". Ou: "Mesmo que eu vá preso não é grave. Não vou encontrar na prisão nenhum desses crápulas que batem nas mulheres porque o juiz Neto de Moura deixou todos cá fora".

Ricardo Araújo Pereira caracterizou Neto de Moura como “um juiz que apela ao poder de encaixe das mulheres no que toca a socos, mas que tem dificuldade em encaixar paródia.” E deixou um conselho: “Para as próximas mulheres a serem julgadas pelo juiz, basta dizerem ‘Meritíssimo, ele realmente deu-me várias tareias, nada a dizer, mas contou-me três anedotas que me amesquinharam tanto… Fiquei mesmo macerada’."

Mas um dos momentos que fizeram soltar mais gargalhadas na plateia foi a apresentação do jogo online "Salva o Neto", disponível em www.salvaoneto.pt e cujo objectivo, explicou o humorista, é ajudar o juiz a "escapar à censura social e a chegar a casa limpinho para escrever mais acórdãos infames​". “A opinião pública manda imundas calúnias, aqui representadas por cocós. Se o Neto de Moura se abrigar debaixo do Conselho Superior da Magistratura, não leva com cocó, porque eles protegem-no. Se carregares na barra de espaço [do teclado de computador], ele atira uma moca com pregos e destrói os rabos”, explicou Ricardo Araújo Pereira a uma criança que estava na plateia. 

Já no sábado, Ricardo Araújo Pereira tinha comentado ao PÚBLICO que iria continuar a falar sobre o juiz. "É o meu trabalho”, disse. O humorista é um dos nomes que constam da "lista negra" de Neto de Moura, como também Mariana Mortágua, Joana Amaral Dias, Fernanda Câncio, Bruno Nogueira, João Quadros e Diogo Batáguas.

Neto de Moura é autor de múltiplos acórdãos controversos tendo sido punido com uma advertência registada pelo Conselho Superior da Magistratura (CSM), o órgão de supervisão dos juízes, a 5 de Fevereiro, por ter desvalorizado uma agressão grave praticada pelo marido contra a “mulher adúltera”, censurando a vítima de violência doméstica por ter sido infiel, num acórdão de Outubro de 2017. 

Há seis dias, Neto de Moura viu-se envolvido em nova polémica depois de ter retirado a pulseira electrónica a um homem que havia sido condenado a uma pena suspensa por ter rebentado um tímpano à mulher ao soco.

No acordão de Outubro de 2017 (que pode ler na íntegra aqui), também assinado por Maria Luísa Arantes, o juiz escreveu: “O adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou e condena fortemente (e são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras) e por isso vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher.” Escreveu ainda: “Uma mulher adúltera é uma pessoa dissimulada, falsa, hipócrita, desleal, que mente, engana, finge. Enfim, carece de probidade moral”, caracteriza o relator. “Não surpreende que recorra ao embuste, à farsa, à mentira para esconder a sua deslealdade e isso pode passar pela imputação ao marido ou ao companheiro de maus tratos.”