A ARCOmadrid será melhor com menos artistas?

Se alguns galeristas portugueses prometem voltar para o ano com menos artistas, a maioria diz que o melhor é não impor uma regra.

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A Galeria Vera Cortês na ARCOmadrid onde os reis de Espanha estiveram a admirar uma das esculturas de José Pedro Croft Roberto Ruiz
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'Somebody's fragment' de Luis Camnitzer na ARCOmadrid LUSA/EMILIO NARANJO
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Os reis de Espanha durante a visita à ARCOmadrid LUSA/Juan Carlos Hidalgo
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Tal como prometido pela nova directora da feira, Maribel López, este ano são mais visíveis na ARCOmadrid os espaços que algumas galerias dedicam a um só artista, mostrando que a feira espanhola de arte contemporânea está a afinar o seu modelo.

Com as suas 203 galerias de 31 países, entre as quais 13 portuguesas e o Peru como país convidado, a feira que abriu esta semana em Madrid e termina no domingo está mais desafogada, porque o número de artistas já não é só menor nos stands dos programas que tradicionalmente têm curadoria, como também há novas formas de incentivo no programa geral onde estão a maioria das galerias, com preços mais baixos por metro quadrado para projectos especiais. 

“Há uma tentativa para que os stands tenham menos artistas, com algumas modalidades mais baratas que incentivam isso e que surgiram nos últimos anos”, explica a galerista portuguesa Vera Cortês, que faz parte do comité de selecção da feira. O custo dos stands varia entre os cerca de seis mil e os 50 mil euros dependendo da área que ocupam. 

No seu espaço de 90 metros quadrados, onde na inauguração os reis de Espanha pararam em frente a uma das esculturas de José Pedro Croft, Vera Cortês mostra oito artistas, explicando que a regra tem sido dedicar a cada artista dez metros quadrados.

Tanto Maribel López como Carlos Urroz, o director que esteve à frente da ARCOmadrid nos últimos nove anos e sai no fim desta edição, reiteraram na conversa que tiveram com os jornalistas estrangeiros esta semana aquilo que a nova directora já tinha defendido em Lisboa: a tendência é que os stands reduzam o número de artistas apresentados, sublinhando a importância dos projectos a solo e dos diálogos. O jornal El País falava mesmo de um novo modelo de feira, mais parecido com as bienais de arte, num mercado saturado de feiras, num artigo intitulado “Arco reduz a oferta de artistas para animar o mercado”.

Este ano, nos pavilhões 7 e 9 por onde se espalha a ARCOMadrid no recinto de feiras da cidade, estão bastante visíveis os 38 Projectos de Artistas em que a feira permite aos galeristas do programa principal arranjarem um espaço extra, a preços reduzidos, para apresentarem o trabalho a solo de um artista, explica Vera Cortês. Foi o que fizeram, mesmo ao seu lado, as galerias Mor Charpentier, com o trabalho da mexicana Teresa Margolles, ou Zak Branicka, com a polaca Marlena Kudlicka.

Nem sempre estes espaços estão disponíveis ao lado do stand principal ou têm uma localização ideal e não há nenhuma galeria portuguesa que tenha aproveitado esta possibilidade – embora a Galeria Filomena Soares, que tem dos maiores stands da feira numa situação privilegiada, inclua no seu espaço um projecto especial do artista Pedro Barateiro que ocupa 35 metros quadrados.

Mas há também, continua Vera Cortês, a modalidade que permite às galerias alugarem um stand mais pequeno, à volta de 50 metros quadrados, beneficiando igualmente de um desconto, desde que se fiquem pelos dois artistas. Se não encontrámos nenhuma galeria portuguesa que se tenha candidatado a esta modalidade com um limite de 15 galerias, foi a esta possibilidade que recorreu a suíça Annex 14, uma das galerias estrangeiras que apresenta trabalho de artistas portugueses, neste caso as esculturas em cerâmica do jovem artista Vasco Futscher, mostrado em diálogo com a pintura do polaco Paul Czerlitzki.

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"Sem Título" (2017) de Vasco Futscher na Annex 14 dr

“O preço é mais baixo se nos restringirmos a dois artistas e pensámos que era bom ter um diálogo”, explica ao PÚBLICO o galerista Andreas Furrer, que está pela quinta vez na feira de Madrid. “Vasco Futscher explora as diferentes qualidades da argila, nomeadamente a cor, enquanto Paul Czerlitzki trabalha a expressão da tela. Em ambos, é o material que dá o resultado final.”

Há três galerias portuguesas que foram escolhidas para integrar os dois programas da feira com curadoria especial, o dedicado às galerias mais jovens, Opening, e o que procura criar ligações intergeracionais, Diálogos. Em ambos, é norma apresentar um ou dois artistas por stand, em espaços que normalmente são mais pequenos.

Integrado nos Diálogos, com curadoria de Catalina Lozano e Augustín Pérez Rubio, o galerista Miguel Nabinho, de Lisboa, regressa depois de sete anos de ausência com uma conversa entre Ana Jotta e Pedro Cabrita Reis, em que os artistas mostram trabalhos novos, com a primeira a regressar aos panos de parede, ao têxtil, e o segundo a explorar com o bronze uma escultura de tradição mais clássica, menos cerebral. “Acho óptimo haver menos artistas por stand. Uma feira é uma feira, sempre uma grande confusão. Só conseguimos ter uma percepção muito primária dos artistas, a não ser que já se conheça o seu trabalho”, diz Miguel Nabinho, acrescentando que o seu stand, com 16 obras, é um bom exemplo de como é possível mostrar um corpo interessante do trabalho de cada artista.

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"Mademoiselle Rivière", de Ana Jotta dr

No programa Opening, dedicado aos espaços com menos de sete anos e com curadoria de Ilaria Gianni e Tiago de Abreu Pinto, estão as galerias portuguesas Lehmann Silva, do Porto, que se estreia na ARCOmadrid apresentando o trabalho do espanhol Lorenzo Sandoval e da portuguesa Diana Policarpo, e a Francisco Fino, de Lisboa, que traz a portuguesa Mariana Silva.

As obras dos três artistas foram, aliás, referidas na apresentação aos jornalistas feita pelos curadores. Numa reflexão sobre o mundo pós-Internet, Lorenzo Sandoval constrói tecidos que expõe sobre redes e estruturas de metal, apontou o curador brasileiro Tiago de Abreu Pinto ao PÚBLICO. Diana Policarpo faz penetrar sons em vasos de cerâmica com formas femininas, trabalhando a descontextualização sofrida pelos corpos das mulheres. “Podemos estabelecer uma relação com o trabalho de Mariana Silva, que reflecte numa instalação vídeo sobre a maneira como os objectos artísticos são seleccionados e apresentados ao longo da história”, explica o curador brasileiro.

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A obra de Lorenzo Sandoval dr

Mário Ferreira da Silva, que é então o estreante português na ARCOmadrid num espaço de 25 metros quadrados, lembra que menos artistas por stand representa um risco em termos de negócio muito maior. “Claro que em termos curatoriais, tendo em conta a estética, torna a feira menos confusa. Todo o nosso stand foi pensado para a ARCO e tentámos ligá-lo um bocadinho ao Peru, o tema deste ano”, explicando que Lorenzo Sandoval esteve numa residência artística no Peru no final do ano passado.

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A obra de Diana Policarpo dr

O galerista lisboeta Francisco Fino vendeu na primeira hora da feira a um coleccionador privado do Peru a obra de Mariana Silva, um trabalho que deu à artista o Prémio Novos Artistas Fundação EDP em 2015. Já para a Galeria Madragoa, sair da sessão Opening significou ter de dividir este ano o stand no programa principal com outra galeria, onde mostra, por exemplo, fotografias da polaca Joanna Piotrowska. “Foi o passo que fez sentido e assim ponho os meus artistas em contacto com outros”, diz Matteo Consonni, neste caso os artistas da galeria brasileira Cavalo.

Aposta ganha, mas nem todos os galeristas portugueses concordam que esta tendência de redução deva ser estabelecida em regra, embora nos primeiros dias a sensação geral era de que a feira estava a correr bem, sem grandes euforias.

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"Friends of Interpretable Objects" de Mariana Silva na Francisco Fino dr

Nos seus 50 metros quadrados, a 3+1, de Lisboa, apresenta cinco artistas, entre os quais pinturas novas da jovem Rita Ferreira: “Quando se quer entrar numa feira faz sentido fazer solos. No mercado de Madrid sempre houve muita variedade. Esta feira não é a Artissima, em Turim, feita a pensar nas visitas dos curadores e dos directores das instituições, onde os galeristas arriscam levar menos artistas sabendo que as possibilidades de venda são menores. Madrid sempre foi uma feira de vendas”, diz o galerista Jorge Viegas, acrescentando que nunca traria dez artistas.

Para a Galeria Madragoa (Lisboa), sair da secção das galerias jovens significou ter de dividir este ano o stand no programa principal com outra galeria, a brasileira Cavalo. “Foi o passo que fez sentido e assim ponho os meus artistas em contacto com outros”, diz o italiano Matteo Consonni, que mostra fotografias da polaca Joanna Piotrowska e esculturas da espanhola Belén Uriel ao lado de uma pintura do brasileiro Thiago Martins de Melo.

Paola Capata, outra italiana que abriu galeria em Lisboa, tem 50 metros quadrados, traz dois artistas, o português Sérgio Carronha e o italiano Nicola Samorì, mas desconhecia as modalidades com desconto. Voltou à ARCOmadrid no ano passado, depois de uma década de ausência, e acha que a feira está muito melhor, mais organizada. A redução do número de artistas por stand também foi introduzida este ano na feira de Bolonha, com algum receio dos galeristas, mas Paola Capata afirma que os números de vendas subiram.

Logo à entrada do Pavilhão 7, onde estão as galerias mais poderosas e a Galeria Filomena (Lisboa) é a única portuguesa, o galerista Manuel Santos mostra 21 artistas, num espaço com as paredes bem cheias onde se destacam as fotografias de Helena Almeida, na primeira ARCOmadrid depois da morte da artista. O galerista Manuel Santos explica-nos que consegue mostrar tantos artistas porque tem um stand de 160 metros quadrados: “Um stand mais pequeno, mais barato, significa menos reconhecimento dos artistas e obviamente menos negócio.”

No extremo oposto do espectro em relação ao número de artistas, no mesmo pavilhão 7, está o stand da galeria suíça Hauser & Wirth, uma das mais importantes da actualidade, que se concentra a mostrar o trabalho de um nome histórico da arte norte-americana.  “O nosso stand faz um statement sobre um único artista. É um bom momento para fazê-lo, porque a artista Jenny Holzer vai abrir uma retrospectiva no Guggenheim de Bilbao em Março”, diz o director Henry Allsopp, num stand que mostra algumas das obras famosas da artista, com os LED verticais e três bancos com inscrições, mas também 24 desenhos novos, aguarelas pintadas sobre reproduções feitas a lápis de documentos da administração Trump. No ano passado, a galeria, que tem espaços espalhados pelo mundo inteiro, tinha-se apresentado com vários artistas.

A lisboeta Bruno Múrias fez exactamente o inverso: no ano passado apresentou-se apenas com dois artistas e este ano chega com oito. “Não pode haver regras”, defende o galerista Bruno Múrias, num espaço onde as obras do brasileiro Marcelo Cidade e Ricardo Jacinto parecem quase fazer parte da mesma instalação, trabalhos que são uma excepção de desconstrução e sujidade numa feira onde domina a pintura sobre paredes brancas: “Os diálogos fazem sentido às vezes, mas noutras são mesmo oito artistas. Para o ano posso vir com dois ou mesmo com um.”

No stand de Pedro Cera, encontramos uma parede de 14 metros com duas séries de trabalhos do artista norte-americano Adam Pendleton e outra de sete metros com uma escultura de Paloma Varga Weisz, num stand com oito artistas em 120 metros quadrados. “Tudo tem a ver com o tamanho do stand. Se comportarmos um número maior de artistas não vejo impedimento conceptual. A medida pretende acautelar stands pequenos com muitos artistas. O importante é que exista uma ideia em que as obras convivam bem umas com as outras.”

O artista Carlos Bunga, que encontramos na conceituada galeria Alexander and Bonin (Nova Iorque), onde tem expostas duas obras entre vários artistas, diz que a tendência das feiras é haver cada vez mais projectos individuais. “Os projectos solo ou duo interessam muito mais. Significa que os galeristas concentram mais as suas escolhas e é mais generoso para os artistas”, diz-nos, acrescentando que tinha gostado muito do que tinha visto no espaço dedicado ao Peru, outro dos programas com curadoria na feira onde a regra é um par de artistas por stand em que a sua galeria também está presente com a obra do peruano Fernando Bryce.

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"Paisagem #6" de Carlos Bunga dr

O galerista português mais entusiasmado com a ideia de reduzir o número de artistas por stand parece ser Manuel Ulisses, da Quadrado Azul. A galeria, que tem espaços no Porto e em Lisboa, ocupa em Madrid 70 metros quadrados onde expõe trabalhos de sete artistas, entre os quais esculturas de Zulmiro de Carvalho, Francisco Tropa e Ana Santos. “Estamos a pensar para o ano vir só com um ou dois artistas. Vamos revezando os artistas de ano para ano, mas tem que ser com projectos que se aguentem.”

Outro galerista do Porto, Nuno Centeno, também não vê nenhum problema em trazer menos artistas, acrescentando que muita oferta pode criar instabilidade nos próprios coleccionadores. “Menos artistas simplifica a minha vida, porque posso focar-me”, diz este galerista que abriu recentemente um espaço grande no Porto. Trouxe sete artistas num espaço de 50 metros quadrados, onde se destaca a instalação do português Silvestre Pestana e uma pintura do espanhol Secundino Hernández.

Com nove artistas num stand de tamanho médio, onde sobressai o verde da obra de Matt Mullican, a veterana Cristina Guerra não prevê grandes mudanças, porque, finalmente, os galeristas são livres de fazer o que quiserem: “Os stands ou são bons ou são maus. Se são maus não voltam. Não se faz um bom stand só porque se tem poucos artistas.”

O PÚBLICO viajou a convite do Turismo de Espanha