Numa feira dedicada ao Peru, um boneco de Felipe VI procura coleccionador

Tal como no ano passado, uma polémica com Santiago Sierra ofusca o trabalho dos outros artistas. O Peru chega à feira de arte contemporânea ARCOmadrid decidido a mostrar que não está preso no passado.

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Obras de L. Morales e de Sandra Gamarra na exposição dedicada à arte peruana na Real Academia de Bellas Artes de San Fernando LUSA/J.P.Gandul
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Felipe VI pelos artistas Santiago Sierra e Eugenio Merino LUSA/Sabela Llerena / Santiago Sierra art studio HANDOUT

Longe das câmaras de televisão, ocupadas com mais uma polémica de Santiago Sierra na ARCOmadrid, que este ano quis provocar com um Felipe VI em forma de boneco, a artista peruana Teresa Burga recebia a homenagem da coleccionadora Patricia Phelps de Cisneros sentada numa cadeira de rodas.

A coleccionadora venezuelana, uma das mais importantes da América Latina e que recentemente doou 150 obras ao Museum of Modern Art (MoMA), de Nova Iorque, pediu para lhe ser apresentada, mostrando assim o reconhecimento pelo trabalho desta artista que continua a trabalhar aos 83 anos, um nome histórico da arte conceptual do Peru, que este ano é o país convidado da ARCOmadrid, a feira de arte contemporânea que dura até domingo na capital espanhola.

Na apresentação desta quarta-feira aos jornalistas estrangeiros, com o argumento de que não podemos todos os anos falar dos mesmos artistas, Carlos Urroz, o director que termina dez anos de trabalho à frente da feira de arte, disse que só responderia a duas perguntas sobre a polémica deste ano. Afinal, tratava-se de uma espécie de remake do episódio do ano passado, pois o artista espanhol Santiago Sierra voltava a provocar polémica no dia de abertura da feira aos profissionais do mundo da arte contemporânea. Este ano, agora numa colaboração com o artista Eugenio Merino, também espanhol, Sierra apresentou um rei de Espanha com 4,5 metros da altura e hiper-realista, que está à venda por 200 mil euros, mas com a particularidade de o coleccionador que o comprar ter de assinar um contracto prometendo pegar fogo à escultura de Felipe no prazo de um ano.

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EPA/Sabela Llerena / Santiago Sierra art studio

Às duas perguntas do PÚBLICO, Urroz respondeu telegraficamente e negativamente. Que a escultura ainda estaria exposta na quinta-feira na galeria italiana Prometeo. Que o Ifema, que organiza a feira, não iria mandar retirá-la, à imagem do que aconteceu com outra obra de Sierra no ano passado. Nessa altura, foi pedido a uma galeria espanhola que retirasse da parede uma série de retratos sobre o processo catalão, intitulada Presos Políticos Espanhóis Contemporâneos, num gesto que não teve o aval de Urroz ou do comité de selecção de galerias da feira e que abalou os primeiros dias da ARCOmadrid. Houve acusações de censura, a direcção do Ifema acabou a pedir desculpas, mas a obra, que foi vendida, não voltaria ao stand.

Neste momento de transição, em que entra uma nova directora, Maribel López, a provocação de Sierra e de Merino, artisticamente pouco interessante, pode ser entendida como um teste à nova liderança. Espera-se que Maribel López, continue a afirmar a independência da feira e das galerias perante o Ifema, tal como fez Urroz durante os nove anos que esteve na direcção.

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Maribel López e Carlos Urroz

Continuidade, foi o que Maribel López, durante anos subdirectora da feira, prometeu na conversa com os jornalistas, acrescentando que no próximo ano não haverá país convidado, tal como na edição de 2018. O tema será conhecido no sábado. Nesta edição participam 203 galerias de 31 países.

23 artistas peruanos

Mas voltemos ao Peru e a Teresa Burga, a quem perguntamos se “Borges” (1974-2018), a sua poesia visual em forma de tapeçaria inspirada na obra do escritor argentino, era o primeiro trabalho que fazia em têxtil, numa exploração das tradições locais. Ela evocou os seus pergaminhos de artista conceptual e respondeu com humor: “Eu não faço nada. Mando fazer.”

Teresa Burga mostra a sua obra na Barbara Thumm, uma galeria alemã, que tal como outras sete galerias estrangeiras está integrada no Programa Peru, ao contrário do que é normal. Na verdade, na secção da feira dedicada ao Peru só há sete galerias peruanas, num total de 15 galerias.

Sharon Lerner, curadora do Programa Peru, que trabalha na área dedicada à arte contemporânea do Museu de Arte de Lima, explicou que essa era a única forma de incluir alguns dos 23 artistas que aqui se vêem, aqueles com uma carreira internacional mas que no Peru não são representados por nenhuma galeria nacional. “No Peru, só temos uma instituição que colecciona arte contemporânea, o museu onde eu trabalho. A arte contemporânea não tem sido o foco, até agora, do interesse cultural público. O patrimonial, o pré-colombiano, sempre juntou os esforços, os recursos e a energia das instituições e do Estado.”

A cena contemporânea ocupa num “bom lugar”, continuando a desenvolver-se, num acompanhando do crescimento económico que se faz sentir desde 2000, altura em que terminou o conflito armado entre o Sendero Luminoso e o Estado peruano. “A ARCO é um empurrão importante para as instituições no Peru realizarem a importância da cultura viva e da arte contemporânea.”

Na mesma galeria de Teresa Burga, o artista peruano Antonio Paucar, que vive em Berlim, apresenta um trabalho que cruza o têxtil com a performance e o vídeo. No seu caso, nascido numa família de artesãos andinos, sublinha que não observa de longe, mas investiga e aprende estas técnicas, como aquela capaz de formar ondas, com que constrói as suas esculturas de parede. “É uma técnica pré-inca, que está a desaparecer. No vídeo estou a tecer, mostrando como se faz, convertendo a obra num trabalho performativo.”

A curadora peruana lembra que o programa do Ministério da Cultura do Peru continua em várias instituições de Madrid, num país com o forte passado histórico, que tem a tradição inca de Machu Picchu, mas também uma das primeiras escolas de pintura da América colonial espanhola, num leque temporal de 3000 anos. O Museu do Prado, por exemplo, apresenta uma impressionante pintura anónima da escola de Cusco do século XVIII, enquanto no Museu Rainha Sofia estão as vanguardas peruanas dos anos 30 do século XX.

Fora ou dentro da ARCOmadrid, defende Sharon Lerner, uma das características que une os 120 artistas peruanos que chegaram a Madrid é uma reflexão sobre o local, sobre a história e as tradições. “O país está presente em todas as práticas, de uma forma crítica, mas os artistas também podem falar de coisas que nos afectam a todos, como o racismo e as políticas de identidade.”

 Neste último caso, podemos destacar o trabalho de Sandra Gamarra, na galeria Juana de Aizpuro, que se apropria das obras da história da pintura para nos interrogar sobre a visão estereotipada que construímos dos habitantes do Sul. Na também espanhola galeria Elba Benitez, Armando Andrade Tudela, a quem o Centro de Artes 2 de Mayo dedica uma exposição, apresenta trabalho em têxtil que investiga a cultura popular através de uma perspectiva digital. O têxtil também está presente nas obras de Ana Teresa Barboza, Miguel Aguirre, enquanto a artista peruana mais nova na ARCOmadrid, Ximena Garrido-Lecca, trabalha com cerâmica. Expõe na mesma galeria de Lima, a Livia Benavides, onde Rita Ponce de León mostra desenhos. Fernando Bryce, talvez um dos artistas peruanos mais reconhecidos a nível internacional, apresenta obra no stand do El País e na galeria Alexandre and Bonin, de Nova Iorque, onde retrabalha os elementos gráficos da vanguarda argentina do pós-guerra.

Elogio do Nobel Vargas Llosa

Foi exactamente pelas vanguardas peruanas, que estão no Rainha Sofia, que começou a palestra do escritor Mario Vargas Llosa, Prémio Nobel da Literatura 2010, convidado para abrir o fórum da feira. Depois da sugestão, reflectiu sobre a identidade peruana ser múltipla: “O Peru é as culturas pré-hispânicas, que são antiquíssimas. A essa cultura sobrepõe-se logo a cultura espanhola, a cultura ocidental. Através de Espanha, chega Roma, chega a Grécia, chega a religião católica. Chega também África, uma presença importantíssima na cultura peruana.” Já no século XIX, é preciso não esquecer que o Peru “é o primeiro país a abrir as suas fronteiras à China e ao Japão”, chegando ainda posteriormente a outras comunidades estrangeiras, como os alemães. “Creio que tudo isso é uma grande riqueza.”

Para António Pinto Ribeiro, que foi coordenador-geral da Lisboa 2017 – Capital Ibero-Americana de Cultura, o Programa Peru tem muita qualidade, destacando-se a fotografia peruana: “Será uma surpresa muito grande o sincretismo entre as artes indígenas e os contemporâneos, mas os artistas peruanos há muito que fazem isso. É uma curadoria que inclui um programa paralelo de contextualização da arte peruana do século XX e de artistas mais recentes dando-lhes uma visibilidade necessária para os circuitos que a ARCO alimenta.”

 Nesta feira que conta com 13 galerias portuguesas, está prevista para esta quinta-feira uma visita dos reis de Espanha. Será que Felipe VI tem humor suficiente para visitar a galeria italiana e cumprimentar o seu boneco?

O PÚBLICO viajou a convite do Turismo de Espanha​