Como são uns Óscares sem anfitrião? São os Queen dos anos 80 e as mulheres do século XXI

Um mini-medley e uma versão curta do monólogo de abertura deram a amostra do que serão, depois de anos de #OscarsSoWhite, uns Óscares tão rápidos. “Roma está no Netflix? O que é que se segue, o meu microondas faz um filme?”, brincou Tina Fey, que com Maya Rudolph e Amy Poehler deu as boas-vindas aos espectadores.

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Brian May e Adam Lambert MIKE BLAKE/Reuters
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Helen Mirren e Jason Momoa MIKE BLAKE/Reuters
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Maya Rudolph, Tina Fey e Amy Poehler MIKE BLAKE/Reuters
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Uma das poucas certezas quanto aos Óscares da madrugada desta segunda-feira era a presença dos Queen, com Adam Lambert na voz, na cerimónia. Sem anfitrião depois de um processo de escolha falhado, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood gastou logo à partida esse trunfo, com um mini-medley que pôs a plateia de pé - e depois fez entrar três candidatas naturais ao papel de anfitriãs para uma versão resumida do comentário social que o monólogo dos Óscares costuma ter.

Os primeiros minutos dos Óscares eram tão aguardados quanto os minutos finais, em que se revela o Melhor Filme. E nestes 91.ºs Óscares, os primeiros três minutos foram um piscar de olho a Bohemian Rhapsody com Adam Lambert e os Queen logo em palco para os primeiros acordes de We Will Rock You. Uma oportunidade para pôr a plateia de pé e ver estrelas a ensaiar a sua versão de headbanging, ou de simplesmente ver estrelas muito felizes em modo concerto como Javier Bardem. Nesses três minutos couberam ainda estrofes de We Are the Champions, para a plateia já sentada se pôr de braços no ar ou assistir a segundos de batalhas de lip-sync por profissionais como Lady Gaga ou Jennifer Lopez.

Rapidamente, depois de uma breve pausa, Tina Fey, Maya Rudolph e Amy Poehler entram em cena para anunciar, como fez a estrela de Rockefeller 30, “não somos as vossas anfitriãs”. Foi uma frase repetida um par de vezes mais, como que para apagar à partida uma das maiores polémicas antecipadas da noite, cujo impacto poderia ser fazer desaparecer a dimensão de representação social e política dos Óscares. Era a deixa de Maya Rudolph: “só um update rápido: não há anfitrião esta noite, não haverá a categoria de Filme Popular e o México não vai pagar pelo muro”, disse sobre outra polémica em torno destes Óscares, a ideia de criar uma categoria para blockbusters, basicamente, mas também sobre a promessa eleitoral de Donald Trump que esteve no centro do recente shutdown do governo americano.

Num par de minutos, e antes de entrarem em cena Jason Momoa e Helen Mirren, um super-herói e uma rainha que postulou que “um deus havaiano e uma mulher inglesa muito madura podem usar a mesma cor” sobre os tons rosa que envergavam antes de anunciar a Melhor Actriz Secundária, mais ideias rápidas das comediantes. Alguns exemplos do que faria se fossem apresentadoras, com muitas imitações e tiradas à queima-roupa, e Tina Fey: “Roma está no Netflix? O que é que se segue, o meu microondas faz um filme?”.

O trio de actrizes, argumentistas e produtoras simboliza uma força de respeito na comédia norte-americana e Amy Poehler, aproveitando a coincidência de termos em inglês para a categoria de Melhor Actriz Secundária — “best supporting actress” — e a palavra “apoio”, proclamou que “as mulheres apoiam naturalmente outras mulheres”. No segundo ano de movimento #MeToo, outro tema incontornável para o anfitrião de 2018, Jimmy Kimmel, foi economicamente resumido em prol da missão. A missão da Academia e dos produtores Donna Gigliotti e Glenn Weiss, que parece estar a cumprir-se: aos 20 minutos de cerimónia já estavam dois prémios entregues - Actriz Secundária para Regina King e Melhor Documentário para Free Solo - e um intervalo já em curso a fazer tilintar a caixa registadora.

Uma cerimónia de Óscares sem apresentador, como foi a mais recente em 1989, dá mais preponderância aos apresentadores convidados e quer fazer esquecer a ausência de Kevin Hart, escolhido pela Academia e depois dispensado por não pedir desculpa por comentários e humor homofóbico do passado. É assim uma noite televisiva com nomes como os de Serena Williams, que apresenta o candidato a Melhor Filme Assim Nasce uma Estrela, ou do guitarrista Tom Morello (Rage Against the Machine, Audioslave, Prophets of Rage), que subiu ao palco para falar de Vice, de Adam McKay e sobre o ex-vice-presidente dos EUA Dick Cheney.

Depois de anos de #OscarsSoWhite, estes querem ser os Óscares tão rápidos numa altura em que “a televisão continua a ser a história de sucesso artístico do segundo milénio e os Óscares nunca foram mais relevantes socialmente”, como escrevia na semana passada Mary McNamara no Los Angeles Times. Apesar das críticas e da vontade de eliminar categorias da transmissão televisiva, estes “tornaram-se a pedra-de-toque nacional inesperada para ter conversas cada vez mais enérgicas sobre racismo, sexismo, imigração, populismo e o nosso lugar na comunidade internacional”.