Crítica

Nos domínios da subtileza com Vadym Kholodenko

Embora extraordinária, a prestação do pianista não foi uma surpresa. Surpreendente foi a falta de respeito com que o público da Casa da Música o recebeu.

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Vadym Kholodenko na Sala Suggia Alexandre Delmar/ Casa da Música

O programa que o pianista ucraniano Vadym Kholodenko apresentou no passado domingo na Sala Suggia da Casa da Música não era propriamente uma proposta leve e demasiado acessível, mas não terá sido esse o motivo da torrente de tosse com que foi saudado logo a partir da primeira obra, pois a Sonata op. 27 nº 2, de Beethoven, conhecida como Sonata “ao luar", é até das mais divulgadas e apreciadas pelo público em geral.

No domínio do pianíssimo, da máxima subtileza, Kholodenko tentou fazer soar o primeiro andamento da sonata, oferecendo uma cápsula de recato e intimidade que o nervoso público não soube apreciar. O ouvinte que quisesse saborear qualquer nuance dinâmica terá sofrido a frustração dum quarteto de cordas não amplificado numa feira popular. O pianista, esse, parecia tocar para uma dimensão superior, em plena concentração, discreto por detrás da música que impunha apenas pela reverência com que se lhe dedicava. 

À sublime sonata de Beethoven, sucedeu um delicioso período de Rachmaninov – com o Prelúdio op 3, nº 2, em dó sustenido menor, e os Sete prelúdios op. 23 –, programa que bastaria para preencher as necessidades espirituais de um dedicado melómano. Porém, após um intervalo, seguiu-se um longo percurso pelo complexo mundo de Scriabin. Foram as sonatas para piano nº 6 e nº 5, distando uma da outra à razão dos Seis prelúdios op. 13, Cinco prelúdios op. 16, Poema Satânico op. 36, Poema Trágico op. 34 e Vers la Flamme op. 72, que vieram atormentar aquele misterioso público que, apesar de não gostar verdadeiramente de ouvir música, gosta de se sentar na plateia. Alguns assentos foram sendo libertados a cada pausa entre obras – outro sinal de pouco respeito e de desconhecimento perante a particularidade do trabalho de Kholodenko. Ainda assim, muito do público presente aplaudiu entusiasticamente o pianista, de pé, sendo generosamente brindado com um extra do período barroco.

À saída, lembra-se a profundidade maravilhosamente contida da Sonata de Beethoven e o mundo de conturbadas emoções de Scriabin, como pretextos para a mais elevada manifestação de um músico absolutamente singular.

Uma bem-intencionada sugestão para a Casa da Música seria a de reservar a última página dos programas de sala para divulgar os contactos dos melhores alergologistas da cidade do Porto. Os menos surdos e mais empenhados ouvintes irão, certamente, agradecer.