E viva o alho! O da Graciosa, que é diferente e único

Mais picante, saboroso, de paladar suave e prolongado, é muito apreciado pelos cozinheiros mas também difícil de encontrar fora da ilha. Às qualidades alimentares ímpares, o alho da Graciosa junta também características benéficas para a saúde e, por isso, os Açores têm em curso o processo de certificação como produto IGP.

Foto
DR

É provar e comprovar. O alho da ilha Graciosa, nos Açores, é reconhecidamente diferente e único no cultivo nacional. Não só pelas características benéficas para a saúde, que fazem com que seja ao mesmo tempo alimento, condimento e remédio, mas sobretudo pelas suas diferenciadoras qualidades alimentares. Especialmente quando submetido a uma fonte de calor, ou seja, cozinhado. 

É que, além do sabor mais macio e adocicado, também o seu aroma e paladar são muito mais suaves, em claro contraste com a ideia de aroma e sabor quase insuportáveis que retiramos da experiência comum. E não é, de todo, assim com os que são cultivados na Graciosa, os quais continuam, no entanto, a apresentar o problema aos consumidores: são muito difíceis, se não mesmo impossíveis, de encontrar fora da pequena ilha do arquipélago

Volta às ilhas

E mesmo sendo apreciado e procurado pelos mestres da cozinha, o alho da Graciosa mantém-se quase exclusivamente como um produto de consumo local. Quando muito é distribuído no conjunto das ilhas do Açores, e não mais que isso. 

Os Açores, no conjunto das suas ilhas e nas mais diversas vertentes, são, já se sabe, um caso de qualidade à parte quando se trata de produtos naturais. Um privilégio que, no entanto, permanece quase em segredo e do qual os consumidores pouco usufruem, a não ser quando viajam até às acolhedoras ilhas atlânticas. Tão-pouco os locais daí tiram o merecido benefício económico. 

Uma situação de contraste absoluto com um produto similar, o alho Morado, que é produzido em Espanha (ver texto em baixo) e conhecido e comercializado em todo o mundo com a mais alta cotação dos alhos no mercado internacional. Já se sabe, e não é só com estes alhos: aquilo que é único e de qualidade extraordinária, é para os portugueses uma espécie de segredo e privilégio raro, enquanto em Espanha se industrializa e converte em negócio à escala universal. 

Foto
DR

É claro que o alho da Graciosa nunca chegaria para distribuir pelo mundo, mas é precisamente com o propósito de lhe dar notoriedade, criar valor para os produtores e torná-lo acessível aos consumidores – em Portugal, pelo menos – que as autoridades e organizações locais têm em marcha o processo de certificação como produto de Indicação Geográfica Protegida (IGP), ao mesmo tempo que sensibilizam os agricultores da Graciosa para a sua produção e procuram organizar estruturas de armazenamento e distribuição em torno da Adega e Cooperativa Agrícola local. 

Qualidades alimentares e medicinais  

Foi para explicar, expor e dar a provar essas qualidades e características diferenciadoras que se juntaram na pequena ilha do grupo central açoriano técnicos, especialistas e produtores locais. No Festival do Alho da Graciosa, realizado no primeiro fim-de-semana de Fevereiro, ficou-se a saber que um estudo feito na Universidade dos Açores teve precisamente como termo de comparação o alho Morado. “Porque é considerado como o melhor do mundo”, esclareceu a orientadora do estudo, Graça Silveira. O estudo foi efectuado em 2008 e as conclusões mostram que são genericamente similares as qualidades e características entre ambos. “O alho da Graciosa é muito rico em alicina, um poderoso antioxidante com efeito no retardar de doenças degenerativas, como Alzheimer, e que reduz o colesterol mau. Foi também testado como protecção contra bactérias hospitalares multirresistentes e neste aspecto mostrou até uma eficácia superior ao Morado espanhol”, relatou Graça Silveira. “Por isso é que já na Idade Média, durante a peste negra, os coveiros bebiam vinho com alhos para se protegerem”, contou a especialista.

São também conhecidas há muito as qualidades do alho como retardador e antídoto contra doenças civilizacionais, como o envelhecimento, e também como vasodilatador. Já os egípcios usavam o alho como remédio natural, mas foi Pasteur a confirmar cientificamente essas características como medicina preventiva. Como a alicina é um óleo rico em enxofre, tem propriedades desinfectantes, anti-sépticas e anti-bacterianas.

Como alimento, o alho da Graciosa é mais picante, saboroso, de paladar suave e prolongado, o que faz com que seja muito apreciado pelos cozinheiros, que assim podem tirar partido das suas qualidades culinárias sem riscos de odor ou aroma excessivos. São também fonte de minerais e vitaminas e os especialistas apontam também para o seu consumo quando processados como uma espécie de snacks ou frutos secos de grande potencial para a saúde. 

As questões ligadas à produção e transformação do alho foram abordadas por José Castro, da empresa Agrialho, que confessou a surpresa quando provou o alho da Graciosa e logo o comparou com o Morado espanhol. Com estratégias e dimensões incomparáveis à diminuta realidade açoriana, também Bruno Moura, da Agromais, deu conta da necessidade de organização e planos de comercialização conjunta na abordagem ao mercado da distribuição. 

Já o americano Greg Bozzo trouxe até aos Açores o relato da grande festa que todos os anos acontece na cidade de Gilroy, na Califórnia. Já considerada como a capital do alho, a festa atrai milhares à localidade, motivados pelos muitos petiscos confeccionados à base de alho – de sabor e aromas intensos, ao contrário do da Graciosa – e a muita animação que lhe está associada. 

É também para criar valor, ganhar notoriedade e expandir a reputação que na Graciosa organizaram o Festival do Alho. Por enquanto com uma conferência e a associação de quatro restaurantes locais com menus focados no alho, mas com o objectivo de também um dia poderem festejar em grande e gritar: viva o alho!

A Fugas esteve na Graciosa a convite da Câmara de Comércio de Angra do Heroísmo