Shinzo Abe recomendou Trump para Nobel da Paz a pedido de Trump?

Primeiro-ministro japonês não desmente que tenha enviado uma carta de recomendação ao Comité Nobel. Jornal Asashi Shimbun diz que o pedido foi feito pelo próprio Presidente norte-americano.

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Abe com Trump, no Verão de 2018 LUSA/SHAWN THEW

O primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, está a ser acusado no seu país de “bajular” Donald Trump, depois de se ter recusado a desmentir que propôs o Presidente norte-americano para Prémio Nobel da Paz. Segundo o diário Asashi Shimbun, Abe enviou a proposta ao Comité Nobel a pedido do próprio Trump.

A polémica começou na sexta-feira, quando o Presidente norte-americano aproveitou o anúncio da sua declaração de emergência na fronteira com o México para fazer uma revelação surpreendente: “[Shinzo Abe] entregou-me uma linda cópia da carta que enviou às pessoas que dão uma coisa chamada Prémio Nobel.”

“Ele disse: ‘Nomeei-o, com todo o respeito, em nome do Japão. Pedi-lhes que lhe dêem o Prémio Nobel da Paz’”, disse Trump.

Esta semana, o primeiro-ministro japonês foi questionado pela oposição, no Parlamento, sobre se de facto enviou uma carta a pedir o Nobel da Paz para o Presidente norte-americano — que, a ser atribuído, serviria para o distinguir pelos esforços de aproximação à Coreia do Norte.

Num primeiro momento, Shinzo Abe disse que não ia fazer comentários sobre o assunto, “à luz da política do Comité Nobel de não revelar recomendações e nomeados nos últimos 50 anos”.

Pressionado pelo deputado Yuichiro Tamaki, do Partido Democrático Popular, na oposição, o primeiro-ministro japonês não negou: “Eu nunca disse que não o tinha feito”, disse Shinzo Abe.

“Flagrante bajulação”

Esta semana, o jornal diário Asashi Shimbun disse que a ideia de nomear Donald Trump para o Nobel da Paz partiu do próprio Presidente norte-americano, numa conversa telefónica em Agosto de 2018.

Durante a sessão no Parlamento, Shinzo Abe voltou a elogiar a política de Donald Trump em relação à península coreana, dizendo que o Presidente norte-americano “tem sido decisivo na resolução dos problemas com os mísseis e a capacidade nuclear da Coreia do Norte”, destacando a “histórica cimeira” do ano passado com o líder norte-coreano, Kim Jong-un.

Além da questão nuclear, Abe elogiou os apelos do Presidente Trump à libertação de prisioneiros japoneses na Coreia do Norte.

No entanto, a ideia de o primeiro-ministro japonês nomear Trump para o Nobel da Paz não caiu bem no seu país. Nesta terça-feira, o editorial do Asashi Shimbun chama “bajulador” a Shinzo Abe e desafia-o a dizer, de uma vez por todas, se enviou mesmo uma carta de recomendação ao Comité Nobel.

“A decisão de Abe de nomear Trump para o prestigioso prémio, a pedido do Governo norte-americano, vai muito além de uma cortesia diplomática. Devemos chamar-lhe uma flagrante bajulação”, escreve o jornal.

“É verdade que a Coreia do Norte não disparou mísseis nem fez testes nucleares desde o encontro entre Trump e Kim, o que acalmou a tensão na península coreana, mas o acordo entre os dois líderes é vago, e as perspectivas para a desnuclearização da Coreia do Norte permanecem obscuras, mais de seis meses depois da cimeira histórica”, salienta o Asashi Shimbun.

Na sexta-feira, quando disse que o primeiro-ministro japonês o tinha proposto para o Nobel da Paz, o Presidente norte-americano falou de uma mudança radical na sensação de segurança no Japão: “Ele [Kim Jong-un] tinha mísseis a voar por cima do Japão. E eles [os japoneses] tinham alarmes a disparar. Vocês sabem disso. Agora, de repente, sentem-se bem. Sentem-se seguros. E o responsável sou eu.”

Porém, o deputado Yuichiro Tamaki, da oposição, disse que a cimeira do ano passado ainda nada fez pela desnuclearização da Coreia do Norte, pelo que atribuir o Nobel da Paz numa situação tão frágil é “enviar uma mensagem errada à Coreia do Norte e à comunidade internacional”.

Tenha ou não a recomendação de Abe, Trump já sabe que é mesmo um dos nomes sugeridos para receber o Nobel da Paz.

Na segunda-feira, dois deputados do Partido do Progresso norueguês, populista e anti-imigração, disseram à agência Reuters que enviaram uma carta ao Comité Nobel a recomendar a atribuição do Nobel da Paz a Donald Trump. Um deles, Christian Tybring-Gjedde, disse que o prémio está dependente de “um acordo de desarmamento credível” na Coreia do Norte.

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