Teatro de Portalegre está à venda no OLX por 350 mil euros

Foi nele que José Régio levou à cena a sua primeira peça de teatro. Entretanto, degradou-se e há muito que deixou de ser sala de espectáculos.

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Imagem retirada do anúncio do OLX DR

Quem hoje passa junto ao Teatro Portalegrense, erguido na cidade alentejana em 1854, encontra uma estrutura degradada e a precisar de obras profundas. Agora, este edifício, um dos mais antigos de Portugal construído de raiz para a actividade teatral e que sempre esteve em mãos de privados, está à venda no site OLX por 350 mil euros.

Com uma velha história, sempre em mãos de privados, o edifício chegou ao século XXI já com diferentes usos - chegou a ser templo da Igreja Universal do Reino de Deus e sede do Grupo Desportivo Portalegrense. Em 2013 foi posto à venda, sem que tenha aparecido comprador. O PÚBLICO não conseguiu entrar em contacto com a proprietária mas, ao contrário do que diz o anúncio na plataforma de vendas online, a Câmara de Portalegre afirma que não tem programado nenhum projecto de remodelação ou recuperação das instalações do Teatro de Portalegre, “nem existem condições para a autarquia assumir o ónus de reabilitar o imóvel”. A presidente da autarquia, Adelaide Teixeira, salienta que o “desejável será encontrar-se uma solução economicamente viável e que preserve a essência do edifício”.​

O projecto para a sua construção foi da autoria do arquitecto José de Sousa Larcher e é um dos poucos exemplares que ainda restam dessa geração de teatros que foram construídos no interior do país. 

A fonte inspiradora para a sua construção reside no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, inaugurado no ano de 1846. A partir de então surge em Portugal um novo modelo de teatros, que “inspirará outras construções, como é o caso do Teatro Portalegrense”, sublinha o Sistema de Informação para o Património Arquitectónico (SIPA).

É o primeiro edifício a ser erguido para teatro na cidade de Portalegre e o sexto teatro mais antigo do país entre os que ainda se encontram de pé, como é o caso do Teatro Nacional de São Carlos e o Teatro Nacional Dona Maria II. Seguia o espírito da época muito influenciado pela política de Almeida Garrett que pretendia dotar todas as cidades importantes do país com uma sala de espectáculos condigna. 

António Sousa Bastos no seu Diccionario do Theatro Portuguez, editado em 1908, faz referência à proximidade de Sousa Larcher ao projecto do D. Maria e ao mesmo tempo a Portalegre, de onde era natural, o que ajudará a compreender como “terá convergido na execução do modelo da capital na cidade de província”.

Luís Soares Carneiro, na sua obra Teatros Portugueses de Raiz Italiana, explica como “vários familiares” de Sousa Larcher “terão realizado empréstimos para as obras do teatro”.

O projecto arranca em 1850, após a constituição de uma sociedade por acções com o objectivo de construir e gerir o que seria o primeiro teatro em Portalegre. A obra arranca em Junho de 1854. E será exactamente com o drama histórico, escrito pelo impulsionador do teatro em Portugal, O Alfageme de Santarém, que a sala de Portalegre é inaugurada a 20 de Junho de 1858.

Elementos retirados de uma descrição da sala após as obras, que foi inserida num artigo do jornal O Districto e que vem transcrita na obra do historiador José Martins Santos Conde, faz referência aos “fauteils que eram de nogueira polida segundo um modelo copiado de um teatro de Lisboa. Camarotes retocados e forrados a papel, de lindíssimo efeito, e a varanda que guarnecia a 1.ª ordem, estofada a veludinho carmesim. Nas portas foram colocados reposteiros de ramagem, com a competente galeria. A pintura do tecto apresentava uma linda estampa em forma de crochet, contendo ornatos e flores em branco, sobre fundo cinzento, que produziam à vista um efeito surpreendente".

O entusiasmo revelado pela comunidade para erguer o seu teatro foi esmorecendo e, decorridos 35 anos da sua inauguração, o teatro já “apresenta sinais de decadência, quer na manutenção do edifício, quer na qualidade dos espectáculos”, descreve o historiador José Martins dos Santos Conde. Com a chegada do novo século, o Teatro Portalegrense experimenta a introdução do cinematógrafo mas, duas décadas depois, assiste-se a uma “decadência progressiva do teatro, que parece ter ficado à margem da dinamização cultural e recreativa que se foi desenvolvendo em Portalegre”, prossegue o historiador.

Na década de 40 "é dado como absolutamente incapaz para local de espectáculos" e a Inspecção-geral dos Espectáculos autoriza o seu funcionamento condicionado, descreve Santos Conde, acentuando a decadência e degradação da estrutura. Ainda foi tentada a sua aquisição pela Federação Nacional para a Alegria no Trabalho, para aí instalar a sua sede local e promover a actividade do seu grupo cénico, mas este projecto ficou pelo caminho. 

Uma notícia, publicada no jornal Distrito de Portalegre em 1989, destaca a “falta de asseio, carência quase absoluta de cenário [...] inteira falta de mobília decorativa, excessivo preço do aluguer e pessoal porteiro pouco escrupuloso na entrada de espectadores”.

Um estudo de Luís Soares Carneiro, sobre a construção de Teatros Portugueses de Raiz Italiana, publicado em 2002, descreve como “as asnas do palco e do tecto da plateia ameaçavam ruína (...), as extremidades de todas as madeiras redondas do telhado que olha para o lado oriental, estavam profundamente atacadas pela humidade (...), o telhado propriamente dito achava-se em péssimo estado e no palco chovia constantemente”.

Duarte Ivo Cruz realça o registo de uma tradição teatral alargada, que “envolve necessariamente, e desde logo, a referência a José Régio e a Amélia Rey Colaço”.

José Régio, que foi durante décadas professor do Liceu de Portalegre, levou à cena no Teatro Portalegrense a sua primeira peça conhecida, Sonho de uma Véspera de Exame, escrita e representada em 1935 por alunos finalistas. Entre esses finalistas, estava o actor Artur Semedo, já falecido, que ali se terá “iniciado uma notável carreira”, refere Ivo Cruz.