A gramática latina “desempoeirada” de Frederico Lourenço será para todos

Nova Gramática do Latim irá para as livrarias a 15 de Março numa edição da Quetzal. Agora o sonho do Prémio Pessoa 2016 é... fazer uma gramática do grego.

Frederico Lourenço
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Frederico Lourenço Miguel Manso

A gramática latina mais usada em Portugal teve a sua primeira edição há mais de 50 anos e reflectia ainda os programas e as metodologias do ensino do latim nos liceus antes do 25 de Abril. Mas a partir de 15 de Março estará nas livrarias portuguesas a Nova Gramática do Latim, um volume de 500 páginas preparado por Frederico Lourenço, Prémio Pessoa em 2016, docente de línguas clássicas desde que se licenciou, em 1988, tendo começado o seu percurso profissional como professor de Latim no ensino secundário. A novidade foi apresentada esta segunda-feira de manhã pelo director editorial da Quetzal, Francisco José Viegas, e pelo próprio Frederico Lourenço, num encontro com os jornalistas na Cinemateca, em Lisboa.

“Não sou o primeiro tradutor português da Bíblia a publicar em simultâneo uma gramática de latim porque no século XVIII António Pereira de Figueiredo, o primeiro tradutor da Bíblia completa para português, também foi autor de uma gramática de latim muito utilizada ainda no século XIX", contou Frederico Lourenço aos jornalistas.

Essa gramática "foi feita com aqueles parâmetros que eram habituais no século XVIII e XIX, em que o latim fazia parte da escolaridade", lembrou. "Hoje uma gramática como a de António Pereira de Figueiredo não seria útil para ninguém. Era necessário pensar numa gramática do latim feita noutros termos e foi isso justamente que eu quis fazer”, acrescentou Lourenço.

O novo volume será uma gramática moderna e actualizada destinada aos professores e alunos do ensino secundário, aos universitários e também a quem não sabe nada daquela língua mas gostaria de poder olhar para um excerto em latim e perceber o que lá está escrito.

“Muitas pessoas gostariam de saber latim – até pessoas que não estão ligadas às Letras. Outras – historiadores, arqueólogos, linguistas, teólogos, filósofos e lusitanistas – têm consciência de que deveriam saber (bastante mais) latim. E outras, ainda, estão de facto a aprendê-lo em Portugal, na escola ou na universidade, mas sem se darem conta de que, muito provavelmente, usam recursos para o estudo do latim que ainda reflectem, em pleno século XXI, os programas e as metodologias dos liceus no tempo da ditadura de Salazar. Este livro pretende oferecer a todas estas pessoas uma gramática nova, cujo objectivo é sistematizar de forma desempoeirada os tópicos essenciais para a leitura de textos latinos em prosa e em verso”, escreve, no Preambulum deste livro, o seu autor, que está a fazer a tradução mais completa da Bíblia para português e é também tradutor da Odisseia e da Ilíada (e das respectivas versões para jovens).

"Escreviam como falavam"

“Aquelas palavras vernáculas que aparecem nas inscrições latinas, porque os romanos também diziam palavrões, estão aqui. Os romanos escreviam-nas, faziam parte do dia-a-dia. Mas os exemplos também são tirados dos grandes autores clássicos, dos grandes autores cristãos", explicou Frederico Lourenço, que procurou nesta obra ir buscar exemplos de latim real, autêntico. Evitou por isso o latim forjado, as frases inventadas para se ensinar latim, que aparecem em muitas gramáticas. Achou "mais motivante" dar aos leitores frases de autores reais, desde os mais elevados até àqueles que escreviam com palavrões e com erros de ortografia.

Muitos dos grafitos que Frederico Lourenço utiliza servem para explicar que também os romanos escreviam de uma forma fonética. Hoje temos "esta grande controvérsia do acordo ortográfico", mas "os romanos já tinham resolvido isso", ao não pronunciarem na oralidade certas letras que apareciam na escrita culta. "Se iam escrever um grafito na parede a mandar alguém àquela parte, escreviam como falavam. É muito importante termos essa noção de que o latim não é uma língua em mármore, foi uma língua viva durante muitos séculos. E é uma língua que nos transmite toda a experiência humana, desde o sexo mais sórdido até à espiritualidade mais elevada. Está tudo presente na literatura latina".

Nesta nova gramática tentou uma abordagem histórica, que vai desde os exemplos mais antigos que conhecemos do latim escrito até a exemplos do latim cristão mais tardio. "Nisso estou a seguir uma metodologia completamente diferente das gramáticas tradicionais. Uma delas, do século XIX, dizia que era intolerável dar exemplos de latim posterior ao século II. Eu acho que é intolerável não dar. Logo à partida isso nos impediria de dar exemplos de Santo Agostinho, um dos maiores escritores que alguma vez escreveu em qualquer língua e um dos mais talentosos escritores da língua latina."

Nas gramáticas existentes encontram-se muitas frases atribuídas a Cícero, a Salústio, a Tácito... que eles nunca escreveram. Frederico Lourenço utilizou uma colectânea de toda a obra que existe em latim da Universidade de Harvard para poder fazer essa busca: "Podemos hoje verificar se uma frase supostamente de Cícero é dele ou não. Verifiquei cada citação de modo a que ela seja mesmo aquilo que os autores escreveram. Penso que isso é um aspecto importante desta gramática."

Quis também que esta gramática fosse um livro interessante sobre a língua latina e sobre a língua portuguesa. Por isso a obra tem vários capítulos de reflexão sobre a história da língua e sobre a literatura latina.

Agora o próximo sonho de Frederico Lourenço é fazer uma gramática do grego.