“Políticas de identidade”, uma regressão civilizacional

Inventando racismos, racializando o que nada tem a ver com a cor de pele, este activismo dito anti-racista tem por objectivo promover o conflito inter-racial.

Uma das responsabilidades fundadoras do Estado liberal é a preocupação com as minorias, a sua integração, valorização, representatividade. O caso do bairro Jamaica, armadilha ou não às forças de segurança da República, anuncia o que virá se entregarmos esse espaço de imperativa intervenção social, cívica e humana à iniciativa de movimentos racistas e à sua instrumentalização por forças políticas iliberais. Inventando racismos, racializando o que nada tem a ver com a cor de pele, esse activismo dito anti-racista, de negros e brancos, semeia a animosidade da população branca menos informada contra a minoria negra pobre, não hesitando em sacrificar aos seus desígnios as pessoas fragilizadas que dizem querer defender. O objectivo é promover o conflito inter-racial. 

Como bem sublinhou João Miguel Tavares (PÚBLICO, 25/1/19), o racismo – isso sim, racismo – contra o qual combateram Martin Luther King e inúmeros norte-americanos, não é o “racismo” “contra o qual luta o Senhor Mamadou Ba. Luther King colocava o problema ao nível dos indivíduos – a cor não deveria ser critério na relação entre pessoas. MB coloca-o ao nível dos grupos: a cor da pele, que antes se desejava abolir como critério, precisa agora de regressar, porque é ela que diferencia os grupos”, que o activismo anti-racista racista deseja em conflito. Primeira consequência: a tentativa de regresso que já se manifesta da besta nazi.

Aprofundemos o fenómeno. O que começa a chegar a Portugal é a emergência de um novo paradigma de acção política, a substituição das causas sociais pela chamada “política de identidades”. Novidade que especialmente a esquerda totalitária trotskista tem cavalgado, alimenta e tenta comandar. “Política de identidades” para a qual também a esquerda liberal tem começado a deslizar. Foi esse deslizamento que determinou a derrota de Hillary Clinton e está a levar o PS francês à insignificância. Na sondagem mais recente do IFOP relativamente às próximas eleições europeias, o PSF surgia com 6% das intenções de voto.

A subestimação das causas sociais, o esquecimento das necessidades e expectativas da população que, negra ou branca, hetero ou trans ou homossexual, etc., etc., quer ser PESSOA, o imperativo de uma mais justa distribuição da riqueza, de uma generalizada igualdade de oportunidades, o abandono do universalismo e do humanismo (preparado pela devastação na escola, de novo em força), enfim, estão na origem da actual fragilidade da democracia, criando terreno para a ameaça iliberal em curso. 

Catalisada pelas ideologias irracionalistas constituintes da chamada pós-modernidade, as “políticas de identidade”, traduzidas frequentemente em manifestações que ao senso comum parecem hilariantes, resulta no entanto de uma dificuldade inerente ao próprio projecto liberal, para a qual os grandes pensadores liberais não deixaram resposta. É um desafio grave que se coloca hoje ao desenvolvimento das sociedades liberais e ao aprofundamento do liberalismo.

Trata-se, segundo Fukuyama [1] “de uma escolha que o Estado liberal tem de fazer, se o tipo de liberalismo pluralista que é responsável por proteger é um liberalismo dos indivíduos ou se é dos grupos, e se for este último que tipo de restrições dos direitos individuais pelos grupos está disposto a aceitar.”

A maior parte das sociedades liberais tem agido em conformidade com a evidência que o reconhecimento do grupo pode minar o princípio liberal básico da tolerância e dos direitos dos indivíduos. É por isso que “o liberalismo não pode ser completamente equitativo em relação às diferentes culturas, já que ele próprio reflecte certos valores culturais e tem portanto de rejeitar grupos culturais alternativos que são eles próprios profundamente não liberais”. Exemplo, o radicalismo islâmico. 

De entre as inúmeras caricaturas do fenómeno em expansão, refiro a título de exemplo duas:

Em Setembro de 2018 foi publicado em França um livro de feministas negras que proclamava como inimigas o Estado francês, o racismo de estado e o... feminismo branco! Em Junho de 2018, um reputado encenador canadiano viu-se no centro de uma polémica violenta por causa da peça Slav em que o recurso aos cânticos de escravos negros não foi acompanhado por uma distribuição racial em conformidade – o intérprete principal e alguns dos músicos eram... brancos. Um dos slogans da manifestação à porta do teatro: “Os cânticos dos escravos não foram escritos para que deles aproveitassem os brancos.” A direcção do Festival de Jazz suspendeu a representação. 

Também entre nós a encenação dos autos de Gil Vicente, por exemplo, poderá ter de recorrer em breve a actores que na realidade se confundam com os personagens. Os judeus da Farsa de Inês Pereira terão de ser interpretados por verdadeiros judeus (e como provar isso, talvez desenterrando Mengel ou Himmler!). E Dinato, a quem entregar o papel?

Nesse universo extremo atomizado de identidades que se anuncia deixa de haver lugar para o diálogo, a criação, as artes. Nessas sociedades pulverizadas (inviáveis) o negro, o branco, o gay, a lésbica, o hetero, etc., passam a ser importantes por serem tal, e não por serem... pessoas. Pessoas que somos muito mais que a soma das nossas identidades. Como o humanismo e o universalíssimo consagram, como os direitos humanos reconhecem.

Estaremos, portanto, perante inumeráveis inumanos “racismos”, multiplicação de apartheids, regresso a um hiper-tribalismo, um mundo hobbesiano de todos contra todos, endogâmico, por isso degenerescente, mad max... efémero, seguramente, mas apocalíptico, porque anti-natura, anti-humano. Tudo isto ainda mais estranho por estarmos todos hoje, com todas as nossas diferenças, mais ligados do que nunca. 

[1] Fukuyama, O Fim da História, posfácio à edição de 2019, Lisboa, Gradiva. Tentarei tratar este aspecto num próximo artigo.