Papa Francisco aprova a reabilitação de sandinista Ernesto Cardenal

O padre humilhado publicamente por João Paulo II por ter apoiado a revolução da guerrilha de esquerda na Nigarágua poderá voltar a administrar sacramentos. Mas o perdão chegou aos 94 anos e quando está doente.

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Uma viagem que gerou polémica: em 1983, João Paulo II aponta o indicador a Ernesto Cardenal, padre e membro do Governo sandinista de esquerda reuters
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Ernesto Cardenal poderá voltar a dar uma missa pela primeira vez em 35 anos reuters

O Papa Francisco aprovou a reabilitação do sacerdote e poeta Ernesto Cardenal, que apoiou a revolução sandinista na Nicarágua, e que o Papa João Paulo II humilhou em 1983, repreendendo-o, de dedo em riste, no alcatrão da pista do aeroporto de Manágua, quando Cardenal estava de joelhos.

A notícia ainda não foi tornada pública — foi avançada pelo jornal espanhol El País, citando uma carta enviada pelo Sumo Pontífice. Hoje com 94 anos, hospitalizado com uma infecção renal grave, Ernesto Cardenal recebeu a visita do núncio do Vaticano em Manágua, que se ofereceu para celebrar com ele a sua primeira missa em 35 anos — pois a pena a que João Paulo II o condenou impedia-o de o fazer.

Cardenal era seguidor da corrente cristã nascida na América Latina denominada teologia da libertação, que dá revelo ao apoio aos mais pobres e à libertação dos povos oprimidos. Para o Papa polaco João Paulo II, que viveu as durezas do comunismo, este tipo de ideias e as revoluções e guerrilhas de esquerda na América Latina eram difíceis de aceitar. 

Ao sair do avião, o Papa foi recebido com um grande cartaz, que dizia "bem-vindo à Nicarágua livre graças a Deus e à revolução", e pelo Presidente Daniel Ortega, líder da Frente Sandinista de Libertação Nacional desde 1962, que lhe deu um discurso de meia-hora, debaixo de um Sol escaldante, a exaltar a revolução, recorda para o El País, o jornalista veterano Juan Arias, que acompanhou a viagem papal.

"Sempre que o Papa tentava deixar clara a sua rejeição à chamada Igreja Popular, a multidão interrompia-o com gritos de 'entre cristianismo e revolução não há contradição'", recorda Arias. O Papa não conseguia terminar a sua homília.

A certa altura, Ernesto Cardenal aproximou-se do Papa, ajoelhou-se e tentou beijar-lhe a mão. João Paulo II tirou a mão. Quando Cardenal lhe pediu a bênção, esticou o dedo severo e disse-lhe: "Antes tens de te reconciliar com a Igreja", recorda Juan Arias.

O Papa João Paulo II, que morreu a 2 de Abril de 2005, aplicou posteriormente a suspensão ad divinis a Cardenal por acumular de forma considerada "incompatível" com o sacerdócio o cargo de ministro da Cultura da Nicarágua. Ficou proibido de administrar sacramentos.

Ernesto Cardenal é considerado um dos mais importantes poetas da América Latina ainda em vida. Com formação superior em Teologia, nos Estados Unidos, recebeu vários prémios literários pela Europa, tendo sido candidato a Nobel da Literatura em 2005, atribuído ao britânico Harold Pinter.