Como se motivam os alunos? Dos concursos às aulas de apoio mais personalizadas

Na Escola Básica de Alfornelos, Amadora, uma das que mais sobe no ranking do ensino básico, todos os alunos de Português “têm de fazer um livro e podem escrever o que lhes apetecer, até palavrões”.

Foto
O Colégio Nossa Senhora do Rosário, no Porto (na foto), a Academia de Música de Santa Cecília, em Lisboa, e o Colégio D. Diogo de Sousa, de Braga, encabeçam os três primeiros lugares do ranking do básico Paulo Pimenta

O que faz uma escola subir ou descer na lista ordenada segundo os resultados dos exames? Os factores são muitos, mas há um ponto em comum ao discurso dos directores de escola: o perfil dos alunos. No ranking do PÚBLICO – das 1204 escolas com 3.º ciclo são 1046 as que integram o ranking porque nelas se realizam mais de 50 provas de Português e Matemática –, metade desce e outra metade sobe quando se comparam os resultados nas provas nacionais em 2018 com os do ano anterior. Apenas em quatro a posição se manteve.

O Colégio Nossa Senhora do Rosário (Porto), a Academia de Música de Santa Cecília (Lisboa) e o Colégio D. Diogo de Sousa (Braga) encabeçam os três primeiros lugares com médias de 4,52 valores, 4,46 e 4,38. Já no ano passado estavam bem colocados (eram 9.º, 19.º e 5.º, respectivamente).

No outro extremo, a Escola Básica Integrada de Rabo de Peixe, Ribeira Grande, Açores, é a 1046.ª com uma média de apenas 1,88, também sem alterações de monta face ao que se passava em 2017.

Entre as danças na lista, há subidas e descidas mais pronunciadas. A Escola Básica São Vicente de Telheiras, em Lisboa, passou do lugar 1020 para o 161 da lista. Em 2017 os seus alunos tinham tido uma média de 2,27 (numa escala de 1 a 5) que em 2018 passou para 3,34. Nem o coordenador da escola nem a direcção do agrupamento se mostraram disponíveis para falar com o PÚBLICO. “Muito satisfeito” ficou o director da Escola Básica e Secundária de Vilela, Paredes, Albino Pereira. A sua escola é a segunda que mais sobe, 786 posições, de 2,38 para 3,26 (de 989.º para 203.º no ranking). Este salto é um sinal de que as medidas que têm sido adoptadas estão a funcionar, diz. São elas: uma vez por semana, os alunos saem das suas turmas “tradicionais” e vão para salas onde trabalham conforme o nível em que se encontram; no final do ano, há aulas facultativas. “Além de trabalharem para o exame também têm momentos de descontracção, com actividades desportivas”, acrescenta. 

Na Escola Básica de Alfornelos, Amadora, Sintra, que subiu 681 posições (estava em 943.º com 2,48 em 2017 e ascendeu a 262 com uma média de 3,18), Português e Matemática aprendem-se de forma mais criativa, explica o director Duarte Nuno Alão. A Português, todos os alunos desde o 5.º ano “têm de fazer um livro e podem escrever o que lhes apetecer, até palavrões”. Há prémios para os melhores.

Já a Matemática os incentivos passam por frequentar aulas extras, duas a três vezes por semana. De cada vez que vão à aula extra recebem um bónus de 1% a 3%, conforme o trabalho que fizerem. Somando tudo até ao dia do teste, os alunos podem acumular 24% que é acrescentado ao resultado do teste. Por exemplo, se o aluno tiver 28% no teste e trouxer 12% da frequência das oficinas, o aluno pode ter 40%. É uma forma de os estimular. “No ano passado, tivemos um aluno que começou com 1 e terminou com 4 [numa escala de 1 a 5, sendo que os testes são cotados em percentagem]. Estamos a inflacionar a nota? Sim, mas não podemos inflacionar as dos exames e [esta medida] teve repercussão”, responde o director.

Alunos traumatizados, escolhas alternativas

Do lado oposto, está a Básica D. Manuel I, Pernes, Santarém, uma escola que recebe alunos institucionalizados e desfavorecidos. “No ano passado, das duas turmas do 9.º, uma tinha maioritariamente esses alunos. Nós já sabíamos [que íamos ter maus resultados]”, responde Maria Helena Vieira, a directora. A escola caiu de 173.ª posição para 909.ª (de 3,27 para 2,58). “Tivemos no ano passado 34 procedimentos disciplinares. São alunos muito traumatizados, agressivos, violentos, pouco empenhados, empurrados de escola em escola porque ninguém os quer”, acrescenta. 

Maria João Leote de Carvalho, investigadora da Universidade Nova de Lisboa, confirma que estes alunos “são muito complicados”, mas que cabe às escolas e às casas de acolhimento “estabelecer pontes”. “Mesmo com a própria família, quando é possível." A professora não defende que se conheça a história pormenorizada de cada criança – ou as razões pelas quais foi retirada à família –, mas que haja “sensibilidade para perceber o seu percurso de vida”.

​O que faz a escola? Procura cativá-los com o pequeno-almoço e o lanche, mas também já teve propostas de formação alternativas, responde Maria Helena Vieira. A lei só permite criar ofertas profissionalizantes para turmas com um mínimo de 22 alunos e a directora precisava que a tutela a autorizasse a ter essa proposta para menos jovens. Já o fez, em tempos, e correu muito bem. “Houve um aluno institucionalizado que, entretanto, foi entregue à família e que fazia 30 quilómetros de motorizada, à chuva, teve um acidente, e nunca faltou. Trabalha na área da formação que fez”, orgulha-se a professora. “O sucesso passa por não catalogar negativamente os alunos”, acredita, justificando por que não quer que a sua escola seja classificada como Território Educativo de Intervenção Prioritária: isso iria “rotular os alunos”.

Leote de Carvalho lamenta que exista alguma falta de estabilidade nas medidas alternativas que se adoptam – um aluno pode estar abrigo de uma medida num ano e no seguinte ela desapareceu –, e critica que não estejam mais coadunadas com as necessidades dos jovens. “Há responsabilidade do Estado em relação a estas crianças, para as quais necessitamos de respostas efectivas”, defende.

No caso da Básica e Secundária Dr. Ramiro Salgado, Torre de Moncorvo, Bragança, que caiu 657 lugares (de 268 para 925, de uma média de 3,13 para 2,55), o problema também é o desinteresse dos alunos. A média interna é de 3,07. Portanto, não se esforçam no exame, explica Luís Rei. “Vão a exame, preenchem o cabeçalho e fazem o mínimo dos mínimos”, a maioria não tem ambições de seguir para os cursos gerais, vão para os profissionais e entram no mundo do trabalho, outros emigram. Ainda assim, no período antes dos exames, os professores de Português e de Matemática lá estão, na escola, para os preparar. Uns aparecem, outros nem por isso.