E se as mulheres só pudessem dizer cem palavras diárias? Vox é um romance distópico feminista

Na era de Trump e do #MeToo, a linguista Christina Dalcher alerta para a possibilidade de se regressar a uma época em que as mulheres são subalternas.

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GETTY/ Jaap Arriens/NurPhoto

A história passa-se num futuro próximo, nos EUA, um país que faz da liberdade a sua bandeira, razão por que muitas mulheres, como a protagonista, a investigadora Jean McClellan, nunca acreditaram que algumas liberdades lhes fossem retiradas, como a de falar. Vox, romance da escritora Christina Dalcher, publicado pela editora 2020, é uma distopia feminista sobre uma sociedade norte-americana conservadora e fundamentalista, que impõe limites às mulheres e promove a supremacia dos homens.

Surgido em plena era Trump e #MeToo, o romance não teve intenção política, mas obriga a questionar “e se...”. Vox começou por ser um conto para um jornal local, que procurava histórias feministas, escritas por mulheres, com uma personagem feminina, mas teve tanto sucesso, que lhe foi proposto transformá-lo em romance, conta a autora à Lusa.

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No livro, os americanos foram às urnas e escolheram um presidente demagogo, conservador e fundamentalista, que impôs um regime de domesticidade feminina, em que só os homens trabalham fora de casa, numa sociedade vigiada por câmaras e em que as mulheres estão proibidas de dizer mais do que cem palavras por dia, sob pena de levarem choques eléctricos de uma bracelete que têm presa ao pulso.

Quando se lê Vox é impossível não associar a história ao presidente norte-americano Donald Trump e até ao brasileiro Bolsonaro, cuja ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos já defendeu que na “'nova era', menino veste azul e menina veste rosa”, reconhece Christina Dalcher.

É mesmo esta a ideia que preside a Vox, que mesmo sem ter sido escrito com qualquer intenção de passar uma mensagem política, garante a autora, coloca várias questões, entre as quais, “e se houver algumas pessoas que queiram que voltemos a essa cultura doméstica, com separação de papéis e responsabilidades por género?”.

Apesar de ser classificado pelos críticos como uma distopia feminista, a verdade é que, ao lê-lo, “vê-se que há mulheres que querem essa regressão”, como acontece com algumas das personagens. “É muito complexo ver o que homens podem fazer a mulheres, mas também o que mulheres podem fazer a mulheres”, alerta Christina Dalcher.

“Não acho que vamos acabar com as mulheres com contadores de palavras, é metafórico, mas acho plausível [o retrocesso], porque há movimentos e porque a história é cíclica: durante a era vitoriana havia uma cultura muito forte da cultura doméstica, que regressou nos anos 1950, após a guerra, como uma espécie de utopia. Depois desapareceu nos anos 1960, com a revolução sexual e feminina, e nunca mais voltou, mas a minha questão é: Por que não? E se acontecer?”, pergunta a autora.

Actualmente, nos EUA, existe uma organização chamada Movimento Mulheres Verdadeiras, dirigida por mulheres, que tem um manifesto muito próximo das descrições bíblicas, exemplifica. “Dizem coisas do género: 'Deus é a cabeça dos homens e o homem é a cabeça das mulheres, o papel das mulheres é trabalhar em casa e obedecer ao marido'. Elas dizem isto, e 33 mil mulheres assinaram este manifesto, hoje em dia, em 2019.”

A autora refere ainda que ninguém esperava que Trump fosse eleito e as pessoas ficaram surpreendidas com a quantidade de mulheres que votaram nele, tal como aconteceu com o Presidente brasileiro, e em Espanha o partido Vox, descrito como populista e de extrema-direita, tem aumentado a militância e pode vir a ganhar assento parlamentar, enumera.

Esta é uma história que remete também para o nazismo e a ideia da raça ariana, que no livro é o “movimento puro”, e para a juventude hitleriana, de que o filho mais velho da protagonista, Steven, poderia ser um representante. “Steven é como os jovens da juventude hitleriana que denunciavam a família, como o Rolfe de Música no Coração. Mas no fim, é má pessoa? Não sei. É jovem. Se queres começar uma revolução e mudar o mundo, começas com as crianças, porque são vulneráveis e susceptíveis a lavagens cerebrais”, conta.

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A autora alerta para os fundamentalismos D.R.

Contudo, apesar de a crítica ter comparado este romance com Handmaid's Tale – o que por um lado “honra” a autora, mas por outro a assusta, por considerar que não está minimamente à altura de Margaret Atwood –, Vox tem mais de Farenheit 451, de Ray Bradbury, na sua génese.

“Ray Bradbury disse uma coisa muito interessante sobre o Farenheit 451: ele disse que pegou numa coisa que adorava, livros, e numa coisa que odiava, livros queimados e fazê-los desaparecer, e juntou tudo. E eu achei fantástico. De alguma forma, sendo eu linguista, peguei em algo que adoro, a língua, e algo que odeio, a supressão ou limitação do discurso livre, e pus no mesmo livro, e é muito interessante, porque só depois de ter escrito o livro é que li esta citação de Bradbury, e achei fantástico”, recorda.

Mas a maior inspiração da autora foi The Stepford Wives, de Ira Levin, um thriller, duas vezes adaptado ao cinema, que aborda a domesticidade e o papel da mulher feminina, piedosa e submissa.

Sobre a origem de Vox, Christina Dalcher conta que foram várias ideias que tinha guardadas na cabeça: a questão da linguagem tomada como garantida, uma história sobre o fim do mundo em que toda a humanidade sofria de uma afasia, que permitia falar com fluência mas sem sentido, e um conto lido na infância sobre uma pequena comunidade que se auto impunha um limite de dez palavras diárias, e para cada uma, dava um nó numa corda. “As ideias vêm de muitos lados e de repente, como que magicamente convergem. Citando Stephen King, é 'quando encontramos o buraco na página' e de repente somos sugados para esse buraco.”

“Quando estava a escrever, não tinha um objectivo específico. Sabia que queria os temas da liberdade de expressão, das coisas terríveis que acontecem quando misturamos governos com religião, quando temos facções extremistas, mas sabia que queria falar sobre voz e vozes, a voz literal e a metafórica, aquela que usamos para conversar uns com os outros e aquela que usamos para projectar as nossas opiniões e mudar o mundo”, conta.

No fim, relata, “toda a gente pensa que escrevi este livro por causa da eleição de Trump e se calhar algumas pessoas desiludiram-se porque queriam uma mensagem política, mas não, foi uma combinação interessante de eventos, como o foi o facto de o livro ter sido publicado duas semanas a seguir ao movimento #MeToo”.