Opinião

A vida humana é uma abstracção?

Face à gravidade extrema da situação venezuelana, há que fazer opções: ou condenar um número crescente de habitantes do país a morrerem de fome ou por falta de medicamentos; ou apoiar as iniciativas de ajuda humanitária, venham de onde vierem.

“A Venezuela não está a viver nenhuma crise humanitária”: a afirmação é de Nicolás Maduro e pretende ser uma resposta à iniciativa de ajuda humanitária americana que a ditadura venezuelana impediu de chegar ao seu destino.

Que Maduro negue as evidências mais gritantes, por meros motivos de sobrevivência política de um regime em estado de sítio, já não espanta. Mas que os seus apoiantes, nomeadamente em Portugal, insistam na negação por mera cegueira ideológica é que já parece insuportável. Não se trata apenas do PCP mas também de alguns opinion makers da esquerda “alter-mundialista” como Boaventura Sousa Santos ou Raquel Varela (sem esquecer a duplicidade hipócrita do Bloco de Esquerda que se recusa a tomar posição perante o agravamento da tragédia humanitária venezuelana). O fantasma do imperialismo americano e de Donald Trump revela-se mais incomodativo do que a constatação dessa tragédia – cuja existência, quando admitida, é aliás atribuída às inomináveis malfeitorias imperialistas visando o saque do petróleo venezuelano.

Se essas malfeitorias e o seu longo rasto histórico estão longe de constituir uma ficção, isso não pode servir de álibi para as responsabilidades específicas e indiscutíveis do regime de Maduro na catástrofe em que mergulhou a Venezuela (e que a torna também tão vulnerável aos apetites imperialistas). Ora, face à gravidade extrema da actual situação humanitária venezuelana, há que fazer opções: ou condenar um número crescente de habitantes do país a morrerem de fome ou pela falta de medicamentos, em nome da cumplicidade ideológica com Maduro e o seu regime; ou apoiar as iniciativas de ajuda humanitária, venham de onde vierem, que possam atenuar o terrível sofrimento de tantos venezuelanos. Face a este dilema não deveria haver dúvidas sobre a única escolha verdadeiramente humana, mas isso não parece incomodar aqueles para quem a dor dos outros não passa de uma abstracção ou de um percalço histórico explicável por motivos ideológicos (mesmo os mais abstrusos e repugnantes).

A vida humana é uma abstracção? Perante os inúmeros exemplos de barbaridade praticados desde a existência da nossa espécie, incluindo os genocídios, estaríamos quase inclinados a responder que sim. Mas também sabemos que aquilo que nos mantém vivos deveria ser, essencialmente, a esperança e a confiança na humanidade – não como abstracção mas como uma vivência concreta de solidariedade com o sofrimento dos nossos semelhantes (e não é preciso ser cristão para afirmá-lo). Parece piegas mas é mesmo assim.

Acontece que alguns acontecimentos recentes de origem e gravidade muito diversa nos têm interpelado em Portugal sobre essa questão. Um deles é a greve dos enfermeiros, com reflexos nas cirurgias. Outro, completamente diferente, é a sucessão de casos de violência doméstica e a estatística aterradora de assassinatos de mulheres e até de crianças (como foi o caso ocorrido há pouco no Seixal).

Se não está em causa a legitimidade do direito à greve por parte dos enfermeiros, não deixa de ser chocante a ligeireza com que esse direito é ostensivamente reivindicado mesmo quando possam estar em risco a saúde e as vidas dos doentes, como se estas fossem, de facto, uma abstracção.

Já os casos de violência doméstica e a banalização dos assassínios de mulheres são reveladores de um Portugal profundo e uma cultura suburbana onde os fenómenos de exclusão alimentam aquilo que há de pior nos seres humanos e os levam a encarar a vida dos semelhantes mais próximos – neste caso, as mulheres – como uma abstracção sangrenta. Este é um dos reflexos mais inquietantes – e mal assumidos – de um país duplamente doente e incapaz de enfrentar essa terrível doença, como se tem visto pela incapacidade de reacção das autoridades policiais e judiciais. Não, seja em que caso for, a vida humana não pode ser uma abstracção.