Os “três malucos” que estão a fazer dos vinhos dos Açores um caso mesmo sério

Construção da nova adega da Azores Wine Company consolida o projecto que fez renascer os vinhos da região. Em quatro anos, a área de vinha multiplicou-se por dez e os vinhos são vendidos em 30 países a preços cinco vezes superiores à média nacional.

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Miguel Manso

Se os vinhos cativam pela extraordinária frescura, mineralidade e salinidade, não admira que já no século XVIII fossem exportados em larga escala para os EUA, com prestígio e fama que antecedeu os de Bordéus, Champanhe ou Borgonha. A questão é que os vinhos dos Açores quase desapareceram na segunda metade do século passado.

Sobravam as famosas curraletas, as quadrículas de pedra pacientemente edificadas pelo homem para proteger as videiras do rocío do mar. Teimosamente plantada em solo de pedra vulcânica ao longo de séculos, a vinha tinha dado lugar ao denso matagal de faia e incenso que hoje constitui as grandes manchas florestais que cobrem esses currais um pouco por todas as ilhas.

É certo que subsistiram sempre alguns teimosos produtores, uma espécie de irredutíveis gauleses - sobretudo na ilha do Pico – a fazer com que o mundo se continuasse a maravilhar com o mistério da natureza dos vinhos únicos do arquipélago. E os vinhos da adega Buraca ou os extraordinários Czar aí estão para o certificar. 

Foi com o objectivo da classificação da paisagem da vinha, única e heróica, a património mundial, que o governo regional avançou com programas de apoio a recuperação da vinha e do vinho. A classificação da UNESCO chegou em 2004, e em 2010 os Serviços de Desenvolvimento Agrário atribuem ao enólogo António Maçanita o encargo de vinificar a casta Terrantez do Pico, única no mundo e quase em extinção. Umas quantas garrafas criteriosamente distribuídas pelas melhores garrafeiras e restaurantes das mais diversas geografias logo deixaram perceber o óbvio: vinhos extraordinários, com identidade e aceitação global.

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Estávamos em 2013 e o enólogo avançou para uma parceria no Pico com um produtor local, Paulo Machado e a Insula Wines, numa experiência similar com outra casta autóctone, o Arinto dos Açores. Entretanto, Filipe Rocha, enquanto director da escola de Hotelaria e Turismo, empenha-se em promover e valorizar o património gastronómico.

Os caminhos cruzam-se e o entusiasmo une-os. Avançam para a criação da Azores Wine  Company, que em 2014 tem à volta de 30 hectares de vinha e produz 10 mil garrafas. Olhados então como “três malucos” que se propunham investir nas “vinhas das cabras” (as palavras são de Paulo Machado), em quatro anos mais do que quadruplicaram a área de vinha – serão em breve 125 hectares plantados – e os seus vinhos impõem-se nos mercados mais exigentes, com presença nos espaços mais exclusivos de 30 países diferentes e a preços cinco vezes superiores à média da exportação nacional.

Os três sócios avançam agora para a construção de uma adega própria, um investimento de 2,9 milhões de euros. Um projecto de enoturismo associado à vinha em currais pela área Património Mundial, que inclui seis apartamentos e projecta replicar o contexto das tradicionais adegas do Pico. Ou seja, o lugar onde se faziam os vinhos, mas também para confraternizar e receber amigos. A cerimónia de lançamento da primeira pedra, há cerca de um mês, foi até apresentada com ares de acto governamental, com o líder do governo regional, Vasco Cordeiro, a depositar nas mãos da empresa a responsabilidade de “guardiões do património vitícola da região”.

Foi neste contexto que Paulo Machado lembrou “os três malucos” e o arranque de um projecto “que nem nos melhores sonhos” seria capaz de antecipar tamanho sucesso. “O resgatar da história e património que nos últimos 150 anos tinham sido roubados ao Pico”, disse Filipe Rocha, enquanto António Maçanita expunha o trabalho feito desde 2010 e reafirmava o propósito de “fazer da região uma referência em vinhos brancos” e o objectivo de “posicionar os licorosos ao nível dos vinhos do Porto e Madeira”, contando com o Czar e os stocks da Adega do Pico.

Vinhos únicos, uvas valorizadas

Com o sucesso e valorização dos vinhos da Azores Wine Company tem também a beneficiado a generalidade dos produtores da região. Na última colheita a empresa comprou uvas a cerca de 90 produtores da região a preços que se multiplicaram por quatro nos últimos quatro anos e chegaram aos 4,50€ por quilo. Uma receita global que ultrapassou meio milhão de euros, da qual beneficiaram as tais 90 famílias de produtores. Num caso extremo, uma parcela de Terrantez do Pico muito apreciada atingiu os 5,95€/kg, num leilão de proposta única feito em carta fechada.

Com a cerimónia de lançamento da nova adega, a Azores Wine Company proporcionou aos jornalistas convidados também uma ampla prova de vinhos da região. Não só os da sua produção, mas também da Adega do Pico, Czar, Adega Buraca, Curral Atlântis, a comprovar a crescente evolução e qualidade.  Um salto evidente com a novidade dos varietais – Arinto, Verdelho e Terrantez – da Pico Wines (Adega Cooperativa), que estão agora a ser feitos por Bernardo Cabral (de grande nível o Terrantez/28,50€), e a confirmação para o Cacarita da Adega Buraca (15€) e o extraordinário Czar 2008.

Por parte da Azores Wine Company, momento único com a prova de todas as colheitas, incluindo espumantes e tintos. Também os testes que António Maçanita vai fazendo com os licorosos, coisa que vai requerer ainda algum tempo a afinar dada a falta de vinhos antigos que possam apontar caminhos. Nos tintos, a surpresa de um varietal de Saborinho, que será em breve lançado ao preço de 100€ a garrafa. A casta (que será a Tinta Negra, da Madeira, e a Molar, de Colares) tem história local e está a ser replantada numa vinha da costa Norte (Baía das Canas) com grande expectativa.

Da alargada prova dos brancos, destaque para a afirmação da identidade do lugar que sempre marca os vinhos para além da casta ou colheita. São vinhos com forte afirmação do local e, por isso, sempre únicos e inconfundíveis. O Terrantez 2013 e o Arinto Sur Lies 2015 mostraram-se de classe mundial.