Jeff Bezos revela ter sido alvo de "extorsão e chantagem" por tablóide pró-Trump

National Enquirer, publicação próxima de Donald Trump, ameaçou divulgar fotografias íntimas de Bezos, dono do Washington Post.

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Reuters/Joshua Roberts

Jeff Bezos, CEO da Amazon e o homem mais rico do mundo, revelou na noite de quinta-feira que foi alvo de “extorsão e chantagem” por parte da empresa detentora do National Enquirer, um jornal sensacionalista norte-americano conhecido por publicitar escândalos e boatos. Bezos, que é também proprietário do Washington Post, escolheu fazer a revelação num texto publicado no site Medium, onde explica que lhe foi dito que seriam divulgadas fotografias íntimas suas caso não pusesse termo a uma investigação que tinha como alvo o National Enquirer.

"Algo invulgar aconteceu-me ontem. Na verdade, não foi apenas invulgar — para mim foi a primeira vez. Fizeram-me uma oferta que não podia recusar. Ou pelo menos foi isso que a liderança do National Enquirer pensou. Ainda bem que pensaram assim, porque os levou a fazê-lo por escrito", afirma Bezos, antes de contextualizar a tentativa de extorsão.

Em Janeiro, o tablóide publicou uma peça sobre uma relação extraconjugal que estará na origem do recentemente anunciado divórcio entre Jeff e MacKenzie Bezos. Nesse artigo são referidas mensagens privadas trocadas entre o multimilionário e Lauren Sanchez, uma antiga apresentadora de televisão e amiga do casal. Após a sua divulgação no National Enquirer, o CEO da Amazon instruiu um especialista em segurança para investigar como as suas mensagens privadas acabaram nas páginas daquele jornal, iniciando um conflito público entre o homem mais rico do mundo e uma das publicações mais lidas nos Estados Unidos. Em paralelo, decorrerá uma investigação jornalística do Washington Post às práticas do National Enquirer, às suas possíveis motivações políticas e a eventuais ligações ao regime saudita.

O tablóide amigo de Trump

Washington Post de Bezos é um dos jornais que tem escrutinado mais intensamente o Presidente norte-americano Donald Trump. Por seu turno, o National Enquirer e o seu publisher, David Pecker, têm um longo historial de proximidade com Trump, que tem recorrido àquela publicação para lavar a sua imagem e para atingir a reputação dos seus adversários.

Foi o National Enquirer que pagou à estrela pornográfica Stormy Daniels pelo exclusivo da história da sua relação íntima com Trump. A história acabou por nunca ser publicada, em benefício da imagem do agora Presidente dos EUA. O dinheiro desse pagamento veio daquele que era então o advogado pessoal de Trump, Michael Cohen, que admitiu à justiça norte-americana ter sido instruído pelo então candidato presidencial republicano.

Cohen acabou por ser condenado a três anos de prisão por vários crimes, incluindo esta operação, considerada pela justiça como uma violação das leis de financiamento de campanhas eleitorais. No âmbito desse caso, Pecker terá celebrado um acordo de imunidade com a justiça norte-americana, o que na altura foi visto como um afastamento do publisher em relação a Trump.

"Selfie abaixo da cintura"

Agora, revela Bezos, a American Media Inc. (AMI), detentora do National Enquirer, terá abordado o patrão da Amazon no sentido de este suspender a investigação em curso e de declarar publicamente que a cobertura do tablóide não é “motivada ou influenciada por forças políticas”. Caso contrário, a empresa ameaçava publicar várias imagens que são descritas em detalhe nos e-mails tornados públicos por Bezos. 

“Em vez de capitular à extorsão e à chantagem, decidi publicar exactamente o que me enviaram, apesar do preço pessoal e do embaraço que isso comporta”, escreve Bezos antes de divulgar o conteúdo das mensagens enviadas por executivos da AMI, onde se refere, por exemplo, “uma selfie abaixo da cintura – também conhecida coloquialmente como dick pic”.

“É claro que não quero que fotos pessoais sejam publicadas”, escreve Bezos no Medium. “Mas também não quero participar nas suas bem conhecidas práticas de chantagem, favorecimento político, ataque político e corrupção. Prefiro erguer-me, dar um pontapé neste tronco e ver o que sai lá de baixo”.

No texto, Bezos reafirma ainda o seu compromisso para com o Washington Post, alvo frequente das críticas e ataques de Donald Trump.

“Apesar de o Washington Post complicar a minha vida, não me arrependo de modo algum do meu investimento. O Post é uma instituição fulcral com uma missão fulcral. A minha liderança no Post e o meu apoio à sua missão, que vai permanecer inabalável, é algo de que me vou orgulhar quando tiver 90 anos”, escreve Bezos, que lembra ainda as ligações entre Pecker, patrão da AMI, e o regime saudita, recordando ainda que a “cobertura essencial e implacável do Post ao assassínio do seu colunista Jamal Khashoggi é sem dúvida impopular em certos meios”.