Crítica

Condenados, dançamos com os Deerhunter de sorriso nos lábios

Os Deerhunter a capturar este tóxico zeitgeist. Estamos condenados, dizem. E, no entanto, dançamos.

Foto
O espírito deste álbum dorido, álbum que caminha sempre em procura de uma luz, qualquer luz

“Estou basicamente a tentar apanhar o ‘zeitgeist’”, dizia Bradford Cox. “Há algo de singularmente tóxico no contexto actual, um novo odor químico que nunca senti antes”, continuava o líder dos Deerhunter. Numa entrevista publicada recentemente no britânico Guardian, Bradford Cox foi acompanhado entre passeios com o cão, Faulkner, nome mais que adequado ao misantropo que só encontra verdadeiro conforto no prazer estético, e uma passagem rápida pela festa de aniversário de Michael Stipe. A entrevista surge no contexto do novo álbum da banda que já foi gravilha sonora confrontante, shoegaze irado, digamos, e que tem sido esteta pop justapondo eras e autores para criar uma estranha e aliciante ideia de classicismo — Halcyon Digest (2010) nunca será esquecido neste percurso. Mas há algo de peculiar neste Why Hasn’t Everything Already Disappeared?. O odor tóxico fez o seu caminho e entranhou-se na química das canções de Cox, mas os Deerhunter, apesar de contaminados, não se deixaram sufocar. Pelo contrário.

O presente é negro, o futuro é o que sabemos, a esperança é o ópio dos iludidos: “Your friends have died, and their lives, they just fade away / Some worked on the hills, some worked in factories, worked their life away / And in time you’ll see your own life fade away”. Eis o oitavo álbum dos Deerhunter a apresentar-se perante nós. Death in midsummer, a dos versos transcritos, a primeira: “Walk around and you’ll see what’s fading”, canta Bradford Cox, voz evanescente a esfumar-se entre o tudo que se esvai. Só que não: porque sobram estas canções, 10 canções de um álbum que se faz vitória sobre o desânimo, o desconforto, o prenúncio de fim — Why Hasn’t Everything Already Disappeared, recordemos, é o seu título.

Co-produzido por Cate Le Bon, a música galesa que se tem dedicado a distorcer admiravelmente a linguagem rock em álbuns como Me, Oh my ou Crab Day, Why Hasn’t Everything Already Disappeared move-se a harpsichord estelar e balanço empolgante (a magnífica Death in midsummer, efeito Technicolor sob fundo lo-fi), avança progressivamente de formas pop, canções de corpo inteiro, a interlúdios sci-fi de narração distorcida e sintetizadores cenográficos — Hello to salt water and good times, and there is not much left to go —, daí a minimalismo celestial, e tudo reunido na Nocturne da despedida, quando a voz já não se ouve claramente, quando o discurso surge obliterado de algumas palavras — I was abducted by border guards in the back country roads, isso ainda ouvimos, enquanto a música sugere ascensão, luz, redenção.

 Álbum de sombras, este. As sombras que parecem envolver todo o som, as que rodeiam o movimento circular, minimal, das marimbas e o sopro melancólico do saxfone e clarinete de Tarnung. Aquelas que se pressentem, vindas de longe no tempo, em canções como No one’s sleeping (reacção ao assassinato da deputada britânica Jo Cox às mãos de um supremacista branco), Element (ou o apocalipse ambiental em harpsichord e orquestração majestosa) e What happens to people (“What happens to people? / They fade out of view”), como que sussurradas por um Ray Davies a lamentar mundos perdidos na Village Green de outrora.

O espírito deste álbum dorido, álbum que caminha sempre em procura de uma luz, qualquer luz, talvez esteja concentrado num momento específico. A canção chama-se Plains e surge quase no final. Tem o ritmo robótico de um hit desconhecido dos anos 1980 e um refrão, elevado por sintetizadores ambientais, em que quase se vislumbra Jarvis Cocker, de sorriso triste, de sorriso sardónico, qualquer coisa entre um e outro, a dizer-nos que, enfim, estamos todos condenados, mas isso já sabíamos, sobra portanto o resto. “My friend was missing / And I was a ghost / I was flame / I was bright / I was listening to trains / I was up all night”, assim canta Cox — e, apesar de tudo, condenados, dançamos de sorriso nos lábios.