Torne-se perito Crítica

As duas faces dos Deerhunter

Em Fading Frontier, a banda de Atlanta faz um elogio da inteligência da pop.

Com os pés no presente, os Deerhunter sabem recuar a fim de escutarem outros passados, de Lennon a Prince
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Com os pés no presente, os Deerhunter sabem recuar a fim de escutarem outros passados, de Lennon a Prince

Se se entender o indie-rock americano como sonoridade ou género musical, então os últimos 15 anos permitiram testemunhar o seu amaciamento. Tornou-se agradável, cosmopolita, colorido. Para tal, concorrem, por um lado, um oportuno, e muitas vezes temporário, esquecimento do punk, por outro, a abertura dos músicos a outras sonoridades. Antes relativamente insular, a música americana “branca” deixou-se “miscigenar”. Muitos dos seus discos são síntese de sons e narrativas.

Fading Frontier, o novo disco dos Deerhunter, exemplifica muito bem tal tendência, pois enlaça, com a mesma liberdade, o indie-rock canónico, a pop inglesa, a electrónica e a ambient music. Uma mistura bem medida e “legitimada” com a presença de Tim Gane (ex-Stereolab) e James Cargill (ex-Broadcast). Resumindo, a banda de Atlanta parece levar mais o longe aquilo que os Pavement anunciaram nos últimos anos de carreira: um certo “sincretismo” musical.

Mas na primeira faixa, All the same, escuta-se outro gesto. A voz de Bradford Cox vai-se libertando da melancolia e repetirá, assertiva e trocista, o refrão, animada pelo som das guitarras e das castanholas. É um movimento que lembra a pop de Phil Spector e dos Everly Brothers, também ela diluída em Fading Frontier. Com os pés no presente, os Deerhunter sabem recuar a fim de escutarem outros passados. Nos temas seguintes, os ecos são outros. Introduzem-se os efeitos do teclado, as batidas aveludadas, os acordes delicodoces. Cox não esconde o apreço ecléctico pela pop-rock dos anos 80. É ela que, ligando os REM aos Tears For Fears, Prince (numa versão glam) aos Tom Tom Club, acende Living my life ou Breaker. Pode parecer arriscado revolver um legado tão heterodoxo para dar forma a um disco de reconciliação interior, mas Cox logra abandonar o caos de Monomania (2013), antes de avançar contra as (suas) tragédias pessoais e as dúvidas.

E nem as colaborações de Tim Gane e James Cargill o desviam desse caminho; estão no disco para desenhar detalhes (em Duplex planet) ou concluir pormenores (Snakeskin), não se sobrepõem ao talento dos Deerhunter para compor canções. Canções que se equilibram entre a excessiva ligeireza das melodias e um estado de alerta. Escutem-se Take care ou Ad Astra: quando à beira da irrelevância, escapam-se-lhe, estendem-se, estremecendo, a outros lugares. Leather and wood é o único momento dispensável, uma imitação fragilíssima dos Portished que assinala os limites da banda. Mas o álbum termina sem arranhões, voltando a encostar os ouvidos na história da música popular. Em Carrion, Cox canta e dança embalado por Lennon e Malkmus, sem se fundir nas memórias que estes deixaram.

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