Blackface e #MeToo são pesadelos na Virgínia e tiram o sono ao Partido Democrata

Em menos de uma semana, o governador e os seus dois possíveis sucessores, todos do Partido Democrata, foram envolvidos em escândalos de racismo e agressão sexual. E o quarto, do Partido Republicano, está no seu cargo por causa de um sorteio.

Os três alvos das polémicas: Justin Fairfax (à esq.), Ralph Northam (centro) e Mark Herring (à dir.)
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Os três alvos das polémicas: Justin Fairfax (à esq.), Ralph Northam (centro) e Mark Herring (à dir.) Reuters/Aaron Bernstein
Manifestantes pedem a demissão do governador, Ralph Northam
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Manifestantes pedem a demissão do governador, Ralph Northam Reuters/JAY PAUL

Até há pouco mais de uma semana, o estado norte-americano da Virgínia era visto como um exemplo de como as transformações sociais e culturais das últimas décadas podem mudar o poder político no Sul do país, onde o passado de racismo e escravatura nunca chegou a ser enterrado.

Mas tudo isso foi posto em causa nos últimos dias, com uma história que arrastou algumas das principais figuras do Partido Democrata da Virgínia para a lama do racismo e das agressões sexuais – numa era em que a denúncia do nacionalismo branco e os efeitos do movimento #MeToo são bandeiras essenciais em qualquer campanha eleitoral do partido, e a meses de importantes eleições para o Congresso do estado.

O Partido Democrata tem muito em jogo: nos últimos 20 anos, o eleitorado do Partido Republicano no estado encolheu tanto, que a Virgínia saltou da lista dos estados muito conservadores para a dos estados liberais. É onde os democratas têm ido buscar inspiração para convencerem o resto do país de que as suas causas estão a impor-se a longo prazo, apesar de vitórias como a de Donald Trump nas eleições de 2016.

O pesadelo do Partido Democrata na Virgínia começou a 1 de Fevereiro, quando um site da extrema-direita, criado por antigos funcionários do Breitbart, revelou uma fotografia do actual governador, Ralph Northam, tirada nos seus tempos de estudante de Medicina, em 1984. Northam surge com a cara pintada de preto, ao lado de um amigo vestido com a roupa do Ku Klux Klan.

Northam, um democrata de 59 anos eleito governador da Virgínia em Novembro de 2017, reagiu de imediato à publicação com um pedido de desculpas sem rodeios.

"Estou profundamente arrependido da decisão que tomei ao aparecer daquela forma na foto e lamento a dor que essa decisão provocou, tanto naquela época como agora", disse o governador​. "Aquele comportamento não condiz com a pessoa que eu sou hoje, nem com os valores pelos quais lutei ao longo da minha carreira no Exército, na medicina e no serviço público", acrescentou, reconhecendo que o caso iria "abalar a fé dos virginianos nesse compromisso".

"Desumanização"

A condenação do hábito de se pintar a cara de preto – para imitar artistas ou para diversão no Carnaval, por exemplo – é vista por uma parte da população como um capricho de uma suposta linguagem "politicamente correcta". Mas entre a população afro-americana, nos Estados Unidos, é uma questão antiga e dolorosa: conhecida como blackface, essa maquilhagem tem raízes nos espectáculos de variedades do século XIX e servia para desumanizar os negros num período de racismo institucionalizado e de escravatura.

"O blackface faz parte de uma história de desumanização, de negação da cidadania e dos esforços para desculpar e justificar a violência estatal", escreveu David J. Leonard, da Universidade Estadual de Washington, num artigo publicado no site Huffington Post em 2012.

"Nunca é uma forma neutra de entretenimento; é um espaço de produção de estereótipos prejudiciais, os mesmos que sustentam a violência individual e estatal, o racismo americano e séculos de injustiça", disse o professor e especialista em questões de género e estudo do racismo.

E é fácil perceber porque é que o blackface é uma questão particularmente sensível na Virgínia – a sua capital, Richmond, foi também a capital dos estados da Confederação durante a Guerra Civil norte-americana, entre 1861 e 1865, quando o Sul se recusou a pôr fim à escravatura.

Assim que o governador Ralph Northam pediu desculpas, muitos esperavam que pedisse também a demissão, incluindo no Partido Democrata. Nos últimos dias, figuras do partido como o antigo governador da Virgínia Lawrence Douglas Wilder (o primeiro negro a ser eleito governador em todo o país) e o actual senador Tim Kaine (parceiro de Hillary Clinton na corrida às eleições de 2016), disseram que a posição de Northam é insustentável.

O governador ainda não deu sinais de que pode vir a abandonar o cargo, e no sábado até fez uma correcção ao seu pedido de desculpas inicial: diz agora que não é ele quem está na foto com a cara pintada de preto, mas admite que se pintou numa outra ocasião para imitar o cantor Michael Jackson.

Mais escândalos

Na quarta-feira, quando muitos já olhavam para a linha de sucessão do governador, antecipando a sua demissão, o pesadelo do Partido Democrata ficou ainda mais assustador.

Nesse dia, e num intervalo de apenas duas horas, o vice-governador e o procurador-geral, ambos do Partido Democrata e os dois principais candidatos à sucessão de Ralph Northam, foram também engolidos pelos seus próprios escândalos.

Primeiro foi a vez do procurador-geral, Mark Herring. Apesar de ter pedido a demissão do governador, na semana passada, por causa da fotografia com a cara pintada de preto, Herring convocou uma conferência de imprensa, na quarta-feira, para admitir que também ele tem um passado de blackface – em 1980, numa festa nos seus tempos de universidade, pintou a cara de preto para imitar o rapper Kurtis Blow.

Agressão sexual

Pouco depois, o vice-governador, Justin Fairfax – um afro-americano de 39 anos, segundo na linha de sucessão e visto como o substituto perfeito de Ralph Northam –, foi acusado de agressão sexual por uma professora de Ciência Política na prestigiada Universidade Scripps, na Califórnia.

Vanessa Tyson conta que foi forçada por Justin Fairfax a praticar sexo oral em 2004, num quarto de hotel, durante a Convenção Nacional do Partido Democrata em Boston (Massachusetts)​.

Tyson denunciou o caso ao Washington Post em Setembro de 2017, quando Fairfax concorreu a vice-governador, mas o jornal não conseguiu confirmar a acusação, por não haver outras testemunhas, e não chegou a publicar a notícia. Agora, quando se começou a falar da possível promoção de Fairfax a governador da Virgínia, Vanessa Tyson tornou o caso público.

"Durante o fim-de-semana, não tinha a certeza se devia falar em público. Sabia que se o fizesse, enfrentaria imediatamente acusações sobre os meus motivos e seria acusada de ser mentirosa, como é habitual acontecer quando as mulheres denunciam casos de abusos sexuais cometidos por homens poderosos", conta Tyson num depoimento escrito.

Tal como no caso do governador, o vice-governador não deu indicações de que admite pedir a demissão. Num primeiro momento, Justin Fairfax chamou mentirosa a Vanessa Tyson, mas depois emitiu um comunicado num tom mais brando, a dizer que tudo o que aconteceu entre os dois foi consensual.

E quando alguns políticos do Partido Democrata na Virgínia vieram em defesa de Fairfax com o argumento de que é preciso esperar para ter certezas, os seus adversários do Partido Republicano foram rápidos a lembrar uma posição repetida muitas vezes durante o processo de nomeação do juiz Brett Kavanaugh para o Supremo Tribunal, no ano passado: "Nós acreditamos nas vítimas."

Os três casos estão abalar o Partido Democrata num ano de importantes eleições para as duas câmaras da Assembleia Geral da Virgínia (o Congresso do estado), que se realizam em Novembro.

Apesar de os dois senadores federais (os que vão para Washington D.C.) e o governador da Virgínia serem do Partido Democrata, o partido precisa ainda de roubar as maiorias do Partido Republicano na Câmara dos Delegados e no Senado do estado para cimentar a sua ascensão.

Sucessão baralhada

Mas a confusão na política da Virgínia não se fica pelas acusações de racismo e de abuso sexual no Partido Democrata, nem os problemas na linha de sucessão se limitam ao governador, ao vice-governador e ao procurador-geral.

Se todos se demitirem, o quarto na linha de sucessão é o speaker (presidente) da Câmara dos Delegados, Kirk Cox, do Partido Republicano.

Não há sinais de que Cox tenha pintado a cara de preto, nem foi acusado de agressão sexual, mas o seu currículo eleitoral não contribui para acalmar os protestos da comunidade afro-americana da Virgínia – Cox foi eleito para a Câmara dos Delegados por um distrito que terá de ser redesenhado até às eleições de Novembro, depois de três juízes federais terem decidido que a actual configuração é prejudicial para os eleitores negros.

E, em Janeiro 2018, assumiu o cargo de speaker de uma forma peculiar, na sequência de um empate entre democratas e republicanos nas eleições para a Câmara dos Delegados em Novembro de 2017. Para se saber que partido iria ficar em maioria, foi preciso escrever os nomes dos candidatos na corrida eleitoral que estava a emperrar todo o processo – no final, a sorte caiu para o lado do Partido Republicano.

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