NELSON GARRIDO
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NELSON GARRIDO

Megafone

“Posso repetir a comida?”

Nem a comida que sobra nem a que as pessoas põem de lado — e falo das situações com que me fui deparando dentro dos refeitórios escolares — é, na maioria dos casos, aproveitada.

Por causa do meu trabalho não são raras as vezes em que almoço em cantinas escolares. Ponho-me na fila dos alunos, sento-me à mesa dos alunos e como o mesmo que os alunos. E onde quer que vá o cenário parece repetir-se, numa espécie de jogo de imitações: as bandejas regressam ao postigo do refeitório de pratos cheios e os restos vão-se atulhando num balde — que por acaso é o balde do lixo.

No outro dia, ao almoço, não pude despegar os olhos de um tabuleiro que um aluno carregava: no prato empilhava-se esparguete com carne, ainda a fumegar, e à maçã tinha sido roubada uma trinca de um dente. Depois de este tabuleiro ter sido arrumado no carrinho dos desperdícios, os meus colegas e eu — que ainda principiávamos a refeição —, começámos o mesmo debate de sempre.

Porque discutir o problema lembra um pouco a história do velho, do burro e da criança, e não há respostas contundentes. “Se todos os portugueses comessem arroz ao jantar e não rapassem o prato, mais de uma tonelada de arroz iria para o lixo”: são números que se ensinam aos alunos, mas nem é preciso invocá-los — ou então é de todo urgente que o façamos. Nem a comida que sobra nem a que as pessoas põem de lado — e falo das situações com que me fui deparando dentro dos refeitórios escolares — é, na maioria dos casos, aproveitada. As funcionárias da cantina garantem-nos. Sim, temos recintos escolares onde a comida ainda é confeccionada in loco e onde a gestão alimentar é mais empática, mas temos muitas cantinas abastecidas por empresas externas. E essas empresas disputam concessões entre si; a que apresentar orçamentos mais baixos vence a corrida ao refeitório.

A preços reduzidos, claro está, a qualidade do conduto não pode ultrapassar certos limites. E há leis a cumprir, doses a servir, e não vale a pena propor que se arranjem meios pratos para quem come menos. Mas depois os alunos queixam-se de que a comida é desenxabida e os pais desses alunos queixam-se de que os alunos se queixam, e à noite esses pais e esses alunos tomam um jantar que nutricionalmente ainda consegue ser mais pobre do que o almoço da cantina. E, entretanto, a comida que sobejou foi posta num saco no contentor... Dantes havia quem se certificasse de que os meninos não deixavam grãos de arroz no prato, hoje atiram-se pacotes inteiros para o lixo.

Quando terminámos a refeição, fomos ao bar da escola tomar café: qual não foi o nosso espanto ao verificar que o aluno de há pouco — beneficiário dos Serviços de Acção Social Escolar — pedia agora uma tosta mista. Provavelmente daí a nada iria dar um pulinho à loja de gomas e comprar um saquinho de “tijolos”.

De pouco adianta estigmatizar ainda mais a criança (porventura não tem culpa, porventura já eu a terei sido por distracção), mas é um facto que a nossa mentalidade tem obrigatoriamente de ganhar outros apetites. Porque não podemos cruzar os talheres e fingir não reparar. Porque é de comida, de alimento — da vida que em nós se transforma em vida — que falamos. Porque nada havia de incomestível no esparguete com carne. E porque – perdoem-me agora o desiderato – olhar para tabuleiros cheios de comida desaproveitada quase nos deixa com náuseas, metaforicamente falando.