Opinião

A greve de enfermeiros mete medo – saiba porquê

A greve cirúrgica dos enfermeiros está a torrar a paciência ao governo mas está a fazer uma outra coisa, bem mais original – está a ultrapassar, por via das redes, os meios habituais de protesto e a pôr em xeque a hegemonia dos sindicatos tradicionais.

António Costa não foi manso nas palavras: a greve dos enfermeiros é “selvagem” e “absolutamente ilegal”. A esquerda radical foi extremamente mansa nas reacções: Catarina Martins aconselhou “bom senso” a “ambas as partes” (a sério), e deixou até críticas aos enfermeiros, afirmando que “não devem ter um caderno reivindicativo que vai aumentando a cada dia”; e o PCP, até ao momento em que escrevo, disse coisa nenhuma – nem uma palavrinha de apoio aos enfermeiros, nem uma crítica a António Costa.

Como é isto possível? Um primeiro-ministro ataca directa e violentamente uma greve, classifica como selvagem uma parte do proletariado, e a esquerda, sempre tão amiga dos trabalhadores, fica entre a absoluta mudez e o convite à moderação? Que raio se está a passar?

Eu explico o que se está a passar: chama-se crowdfunding. Os enfermeiros juntaram-se em torno de plataformas electrónicas e, só para esta segunda fase da greve, já reuniram 420 mil euros em doações. Estes donativos estão a subsidiar os enfermeiros dos blocos operatórios, que assim podem ficar parados até às calendas sem sofrerem perdas de rendimento: o que lhes é cortado no salário é recuperado através do bolo de meio milhão.

Sim, a greve cirúrgica dos enfermeiros está a torrar a paciência ao governo e a prejudicar dezenas de milhares de doentes, mas está a fazer uma outra coisa, bem mais original, ainda que extremamente perigosa para a esquerda sindicalista – está a ultrapassar, por via das redes, os meios habituais de protesto e a pôr em xeque a hegemonia dos sindicatos tradicionais.

O sindicato que tem dado a cara pelo protesto – Sindepor, Sindicato Democrático dos Enfermeiros de Portugal – nasceu em Évora há pouco mais de ano e meio e está filiado na UGT. Mas, quando se trata de explicar a questão do crowdfunding, o Sindepor é muito rápido a chutar para canto: declara-se alheio a tal iniciativa, que garante ser da inteira responsabilidade de “um grupo de colegas do Movimento Greve Cirúrgica”, funcionando apenas “como uma doação aos colegas de bloco” que estão paralisados.

Só que este “apenas” é tudo, porque sem tal mecanismo a eficácia da greve seria nula. O brutal êxito do crowdfunding tem consequências: a partir de agora, qualquer grupo de funcionários descontentes devidamente empenhado e informatizado pode juntar-se à margem dos sindicatos e avançar para as suas próprias formas de luta, sem estar à espera das ordens indirectas do Comité Central do PCP.

Quem é que já percebeu isto e não está a achar graça nenhuma? O PCP, claro. Aliás, já o escreveu. Texto de 15 de Dezembro de 2018, subscrito por Francisco Lopes: “O PCP não pode deixar de manifestar a sua preocupação com uma acção em curso que invocando o direito à greve incide sobre as cirurgias em alguns hospitais de forma bastante prolongada, afectando brutalmente os utentes. Alguns enfermeiros estão a ser usados e pagos, com centenas de milhares de euros, cuja origem não se conhece, registando-se observações já feitas sobre a possibilidade de serem os grupos privados da saúde a financiarem essa acção para beneficiarem da transferência das operações cirúrgicas e pôr em causa o SNS.”

O argumento é engenhoso: o PCP não está do lado destes enfermeiros dada a possibilidade de serem serventuários do grande capital, patrocinados por grupos privados para lixar o SNS. Será mesmo verdade? O PCP não sabe, claro. Mas disto não tem a menor dúvida: estão a lixar a CGTP. E é isso que dói. Muito.