Vendedores de carros e combustíveis acusam ministro de condicionar mercado

Vendedores temem que vaticínio de Matos Fernandes, sobre a perda de valor dos carros diesel, influencie comportamento dos consumidores.

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A associação de concessionários da Renault representa 50 pontos de venda da marca que é lider de mercado em Portugal REUTERS/Darley Shen

O ministro do Ambiente levou o sector do automóvel a puxar do dicionário de sinónimos. Uma a uma, as estruturas representativas do sector recorreram a várias expressões depreciativas para qualificar a declaração de Matos Fernandes, segundo a qual "quem comprar carros diesel não terá valor de troca daqui a quatro anos". Para o presidente do ACP, que representa 252 mil associados, foi uma declaração "alarmista", um "disparate". Para o secretário-geral da associação dos concessionários da Renault e Dacia em Portugal, Adelino Lage, foi uma afirmação "desajustada", "extemporânea" e que "põe em causa o regular funcionamento do mercado" automóvel. Para o presidente da ANAREC, das empresas de revenda de combustíveis, foi um "ataque" com afirmações "infundamentadas" que revelam "impreparação" do ministro e "prejudicam a economia em geral".

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A quota de mercado dos diesel está no valor mais baixo desde 2003 em Portugal EPA/FRIEDEMANN VOGEL

A Associação de Concessionários da Renault (Anacor) engloba 18 dos 20 contratos existentes em Portugal, num total de meia centena de pontos de venda que cobrem todo o território nacional, incluindo ilhas. São empresas de venda de carros que representam a marca mais vendida no país, a Renault, e que tem o motor diesel 1.5 mais popular no mercado.

Por essa razão, foi "com preocupação" que Adelino Lage recebeu a mensagem do ministro do Ambiente que, 24 horas antes, tinha surgido na capa do Jornal de Negócios a afirmar que a compra de um carro diesel é um mau investimento no curto prazo. "É uma imagem desajustada. Há uma certa falta de bom senso na forma como esta mensagem é passada para a opinião pública", afirma Adelino Lage, da Anacor, frisando que se trata de uma posição pessoal, visto que o tema ainda não foi discutido pela direcção da Anacor.

Mesmo assim, é de esperar que qualquer posição oficial que venha a ser tomada esteja alinhada com a catadupa de argumentações ouvidas durante toda a terça-feira e que bem podem ter deixado Matos Fernandes com as orelhas a arder. Para os concessionários da Renault, não é para menos. Embora reconheça que as vendas do diesel estão em queda – tal como o mostra o valor mais baixo de quota de mercado desde 2003 –, Adelino Lage entende que a ideia subjacente à declaração do ministro "não traduz a realidade" e "cria, na mente de quem está menos informado, uma preocupação extemporânea". Para os vendedores, a afirmação do governante "põe em causa o regular funcionamento do mercado". "Quando o consumidor ouve uma frase destas vinda de alguém com importância, fica naturalmente preocupado, porque se transmite uma imagem que não é real", conclui.

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Call centers sem mãos a medir

call center do Automóvel Club de Portugal (ACP) foi um espelho desta confusão que se terá gerado na mente de automobilistas e potenciais compradores. Nas últimas 24 horas recebeu dezenas de chamadas com pedidos de informação e de ajuda.

"Não imagina o número de chamadas que estamos a receber por causa destas declarações enganadoras", diz o presidente do ACP, Carlos Barbosa, ao PÚBLICO. "São chamadas de pessoas que nos perguntam o que é que isto significa, pessoas que sinalizaram a compra de carros diesel e que ficaram preocupadas. É um disparate completo", argumenta Carlos Barbosa. Que acrescenta: "Não sei por que razão o ministro diz o que diz. Talvez seja pela proximidade ao período de eleições, em que precisa de marcar uma agenda para estar na disputa eleitoral. É uma afirmação leviana."

O ACP acusa o governante de ter causado alarme social. "Será ministro do Ambiente ou da Desinformação", questiona a associação, considerando que Matos Fernandes enganou os portugueses"As declarações do ministro do Ambiente e da Transição Energética sobre o futuro dos automóveis são alarmistas e, mais do que isso, altamente preocupantes. Revelam uma enorme ignorância sobre a matéria e um absoluto desrespeito pelos consumidores", diz aquela entidade, num comunicado enviado às redacções com o objectivo de "acalmar as pessoas", diz Carlos Barbosa.

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O presidente do ACP, Carlos Barbosa Público

"Demos instruções à equipa da nossa linha de apoio para explicar o que verdadeiramente está em causa e tentar sossegar as pessoas", acrescenta. "Os carros eléctricos são uma realidade e vieram para ficar. Mas os carros a combustão não vão acabar nem em quatro, nem em dez, nem em 15 anos", sustenta.

ANAREC fala de diesel mais "limpo"

A quebra de popularidade dos motores diesel é uma evidência por cá e no resto da Europa. Portugal é um dos países com um dos parques automóveis mais envelhecidos da Europa (idade média de 12,6 anos, acima dos 10,9 anos da média europeia), o que tem mantido a quota do diesel acima da dos maiores mercados europeus.

Porém, observa Carlos Barbosa, nada autorizava o ministro a declarar "por decreto", a morte dos diesel em quatro anos. Até porque, sustenta, os motores a combustão estão cada vez mais eficientes e limpos, nalguns casos com mais vantagens para o diesel face à gasolina. Barbosa recorre ao mesmo racional que ficou exposto no comunicado do ACP.

"Os motores com a norma de emissões Euro 6 em vigor e a futura Euro 7, obrigatória em 2023, já são mais limpos, garantem emissões drasticamente mais reduzidas tanto de CO2 como de NOx (monóxido e dióxido de azoto), o que significa que a combustão está para ficar, mais eficiente e ambientalmente sustentável", defende. "Na norma Euro 7, o diesel poderá vir a ser mais limpo do que a gasolina, pelo que se prevê que as cidades ainda vão precisar de muitos carros novos a gasóleo para respeitarem os limites de emissões que estão a ser impostos", prossegue. A pergunta, por isso, é "como é que se vai renovar o parque automóvel em Portugal, os cinco ou seis milhões de veículos que andam actualmente na estrada?".

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O ministro do Ambiente, Matos Fernandes Rui Gaudêncio

Na entrevista, o ministro não abriu a porta a um aumento dos apoios públicos à aquisição de veículos eléctricos, defendendo que os 2250 euros de subsídio por cada veículo novo são, em comparação com o que acontece nos outros países, uma ajuda substancial. Porém, o ministro deveria ter respondido a diversas questões em aberto sobre a electrificação do parque automóvel, diz o ACP, a começar pela exiguidade da rede de carregamento eléctrico. "Em Lisboa, os carregadores estão por conta dos carros da Uber e dos tuk tuk. Um particular que queira carregar na via pública tem de esperar pela madrugada", garante Barbosa.

Francisco Albuquerque, presidente da associação das empresas revendedoras de combustíveis (ANAREC), considera por seu lado que um sector com 3500 postos de combustível é igualmente prejudicado por aquelas declarações. Onde o ACP fala em "ligeireza" do ministro, a ANAREC vê um ministro com "alguma impreparação". Onde o ACP sublinha que "os automóveis eléctricos só são ambientalmente mais sustentáveis face aos modelos a combustão com as normas Euro 6 se a electricidade usada for 100% proveniente de energias renováveis", a ANAREC anota que os combustíveis fósseis "representam cerca de 10% da receita do Estado" e lembra que as empresas que representa são responsáveis por "milhares de trabalhadores que também poderão sofrer com estas declarações".

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"Sendo certo que cada vez há mais consciência ambiental, o facto é que as marcas partilham estas mesmas preocupações e os combustíveis estão cada vez menos poluentes, como é o caso das últimas formulações para motores diesel", argumenta Francisco Albuquerque. "Infelizmente não se pode afirmar o mesmo no que respeita à produção dos veículos eléctricos, uma vez que a fase de produção e abate destas viaturas polui mais do que a produção e abate de automóveis a gasolina ou diesel. Para além de que, a energia com que estes veículos são carregados provém ainda muito da queima de combustíveis fósseis, nomeadamente o carvão. Estes são factos que não chegam ao conhecimento dos portugueses, e que o sr. ministro não deveria olvidar", acrescenta.

A ACAP – Associação de Comércio Automóvel de Portugal (que representa os produtores) lamentou, no próprio dia da entrevista, as palavras de Matos Fernandes. Mais tarde, também a associação de empresas locadoras manifestou desagrado, contrariando o vaticínio do governante.

“Portugal está integrado na União Europeia e não existe qualquer regulamentação que aponte no sentido das declarações do sr. ministro”, disse então a ACAP, argumentando que a indústria automóvel “está, fortemente, empenhada na redução de emissões dos veículos". "A prova deste compromisso é que 40% dos novos modelos anunciados para 2021 já terão a opção da motorização eléctrica. Todavia, esta transição irá ser feita de forma gradual.”

Em Portugal, há 700 mil carros a circular com mais de 20 anos de idade. Apenas 1,8% dos carros vendidos são eléctricos, uma minúscula fatia que tem crescido a grande ritmo, mas que deixa Portugal muito longe de ser um mercado de alternativa aos carros com motores de combustão.