Esqueça o frasco de sal: a salicórnia em pó chegou para o substituir

Empresa Horta da Ria aposta em vários produtos feitos a partir da planta carnuda que cresce de forma natural nas marinhas de sal de Aveiro.

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São já sobejamente conhecidas as qualidades da salicórnia - e o seu potencial a nível alimentar e farmacêutico -, mas nem sempre se consegue ter à mão um punhado desta planta com sabor salgado. O que nem todos saberão é que existe salicórnia em pó, pronta para servir de tempero a praticamente todos os ingredientes. E se dependesse da Horta da Ria, empresa que se dedica ao cultivo de salicórnia em antigas marinhas de Aveiro, esse condimento, conhecido também como “sal-verde”, passava a tomar o lugar dos frascos de sal nas nossas cozinhas. “A salicórnia em pó dá o sabor salgado aos alimentos, sem ter toda aquela quantidade de cloreto de sódio”, assegura Júlio Coelho, um dos gerentes da Horta da Ria.

A ideia de começar a apostar em produtos transformados surgiu da necessidade de aproveitar a quantidade de salicórnia fresca que não era vendida. “Depois de apanhada, ela só pode estar 15 a 20 dias no frio”, explica. Assim nasceram “os pickles de salicórnia (ou salicórnia em conserva) e o pó de salicórnia”, acrescenta o responsável pela empresa que está incubada no CIEMar (Centro de Investigação e Empreendedorismo do Mar) de Ílhavo e cujo objectivo inicial passava apenas por cultivar e comercializar salicórnia fresca.

A “horta” está situada na ilha dos Puxadoiros, uma das marinhas de sal mais conhecidas da ria, e, em breve, irá tomar conta, também, de uma das salinas da Universidade de Aveiro. “O nosso processo de produção é 100% natural: a planta germina, normalmente, em Março; em Agosto começa a florir e, Setembro ou Outubro, seca e deixa cair a semente que irá, então, germinar em Março”, revela Júlio Coelho. Quer isto dizer que, ao contrário do que acontece com outros produtores nacionais que têm estufas, a apanha e comercialização da salicórnia fresca da Horta da Ria é refém da sazonalidade. Factor que deu ainda mais força à aposta nos produtos transformados, em especial na salicórnia em pó, produto no qual depositam grande esperança.

Testemunho disso têm sido as experiências que a Horta da Ria tem desenvolvido, em conjunto com outras empresas, com o objectivo de colocar a salicórnia em pó nos alimentos do nosso dia-a-dia. Uma das experiências que já deu frutos foi a criação, em parceria com uma empresa de moagem de Vale de Ílhavo, de uma farinha com salicórnia. “E, entretanto, também começámos, com um estudante, a testar a capacidade da salicórnia em pó para temperar hambúrgueres e fumados”, anuncia Júlio Coelho.

Ao lado da sua mulher Júlia Cavaz, e simultaneamente parceira de negócio, Júlio Coelho está agora focado no objectivo de tornar este “sal-verde” produto de eleição das cozinhas dos portugueses. Para isso, urge baixar os custos da sua produção, tornando-o mais acessível ao consumidor final – um pequeno frasco da ilha dos Puxadoiros, com 15 gramas de salicórnia em pó, é vendido a cinco euros. “Para produzir 100 gramas de pó, precisamos de um quilo de salicórnia fresca, que custa 25 a 30 euros. A isto somam-se, depois, os custos de produção: electricidade para a desidratar, sendo depois moída e embalada”, justifica.

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“O grande desafio é conseguir baixar esses custos e passarmos a vender frascos maiores”, reforça o empresário, que é também professor de Educação Física, no ensino especial. Foi num dos anos em que não conseguiu ficar colocado que esbarrou com o mundo da produção de salicórnia. Aconteceu em 2015 e, desde então, o projecto não parou de crescer, contabilizando, inclusive, uma pequena incursão na área da cosmética. “A nossa salicórnia passou a ser usada também nuns sabonetes, feitos por umas artesãs de Ílhavo”, recorda.

A espécie de salicórnia que vai brotando nas salinas de Aveiro – e também noutros pontos do país - é a ramosissima, a quem é atribuída a fama de ser “uma fonte de compostos antioxidantes, Ómega 3”, sendo também de destacar “o seu teor em sódio, potássio, cálcio, fósforo e ferro”. Bem longe vão esses tempos em que os marnotos lhe chamavam “a planta do diabo”. “A salicórnia começava a germinar na altura em que eles preparavam os tabuleiros para produzir o sal. Arrancavam-na e davam-na aos porcos”, evoca Júlio Coelho.

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