adriano miranda

Sara Barros Leitão: a “pequena marxista” que se tornou criadora cheia de urgência

Entrou em mais de uma dezena de novelas, serviu às mesas, limpou sanitas, fez teatro e fez cinema – e tudo isso a trouxe até à sua primeira criação, Teoria das Três Idades, em cena de sexta a domingo no D. Maria II. Entre o Teatro Nacional São João e o Teatro Viriato, entre o CCB e o Rivoli, este ano será difícil não nos cruzarmos com ela.

O primeiro espectáculo encenado e escrito por Sara Barros Leitão, a convite do Teatro Experimental do Porto (TEP), tinha tudo para correr mal. Estava em ensaios sem saber se ia estrear – o TEP tinha acabado de ser excluído dos apoios da DGArtes, o que colocava em risco todos os planos da companhia. Sem dinheiro garantido, Sara teve de repensar a peça, abdicar de algumas ideias, tomar decisões – como ficar sozinha em palco – e respirar fundo muitas vezes para não entrar em colapso. “Estava num limbo. Foi um processo altamente doloroso”, recorda. “O que estava a acontecer ao TEP alimentava o espectáculo, dava-me material, mas era tudo um sofrimento enorme.”

Teoria das Três Idades estreou-se a 18 de Junho de 2018 no Teatro Municipal Rivoli, no dia do 65º aniversário do TEP (que entretanto recebeu financiamento da Câmara do Porto), integrado na programação do FITEI. Tinha tudo para correr mal, mas acabou tudo bem – tão bem que vimos nascer ali uma encenadora, com muito para dar. Construída a partir do arquivo do TEP e da relação intensa – perdão, obsessiva – que a autora desenvolveu com todas as cartas, actas, tabelas de ensaio e documentos desse espólio bastante representativo de uma parte crucial da história do teatro português, é uma primeira encenação coesa e fervilhante, sagaz e politicamente lúcida nos detalhes, madura nas fragilidades. Sozinha em cena e a provar, mais uma vez, que é uma actriz todo-o-terreno – como se já não a tivéssemos visto a domar o palco do Teatro Nacional São João nos monólogos de Os Últimos Dias da Humanidade –, Sara Barros Leitão fez, entre outras coisas, um manifesto de resistência, to be continued, sobre o que é trabalhar em teatro em contextos de precariedade laboral e num país em que os orçamentos para a Cultura são sempre insuficientes.

PÚBLICO -
Foto
Teoria das Três Idades, eleito pelo Ípsilon como um dos melhores espectáculos de teatro de 2018, chega esta sexta ao Teatro D. Maria II, em Lisboa, onde fica até domingo José Caldeira

“Depois de ter terminado esta peça pensava mesmo que era um espectáculo falhado”, confessa a actriz e criadora de 28 anos. “Queria ter feito tanta coisa, e não deu. Agora estou mais bem resolvida, mas continuo a questioná-lo todos os dias, e acho que isso também é bom.” Apesar das dúvidas e inseguranças, a verdade é que Teoria das Três Idades, eleito pelo Ípsilon como um dos melhores espectáculos de teatro de 2018, não se ficou pelas apresentações no Rivoli. Na semana passada foi a Viseu, e esta sexta chega ao Teatro D. Maria II, em Lisboa, onde fica até domingo, em mais um capítulo do Ciclo Recém-Nascidos, dedicado a projectos de jovens criadores e companhias portugueses.

Esta é a primeira encenação de Sara Barros Leitão, mas aconteceu muita coisa até chegar aqui. Entrou na série juvenil da TVI Morangos com Açúcar, participou em dobragens para filmes e desenhos animados, fez cinema e fez teatro, limpou sanitas, serviu às mesas, distribuiu panfletos, recebeu prémios, trabalhou como babysitter, entrou em mais de uma dezena de telenovelas. Nos últimos anos, integrou o elenco de vários espectáculos do Teatro Nacional São João (TNSJ) e iniciou-se na assistência de encenação ao lado de Gonçalo Amorim, director artístico do TEP, no espectáculo Maioria Absoluta, e de Nuno Carinhas, ex-director artístico do TNSJ, em Otelo. É difícil dizer exactamente onde começa esta história toda, mas um dos momentos-chave talvez tenha sido aquele espectáculo sobre o Número Pi que Sara Barros Leitão escreveu e criou no quinto ano, a única vez em que tirou um cinco a matemática. “Eu era uma aluna medíocre, só tirava boas notas quando fazia apresentações para a turma.”

PÚBLICO -
Foto
adriano miranda

Fora da escola, ocupava todo o tempo livre em grupos de teatro amador, fins-de-semana incluídos. Quando chegou ao final do nono ano, pensou em seguir Humanidades ou Desporto, mas nunca aquilo que estava mesmo à sua frente: teatro. “Nunca pensei que pudesse ser uma opção profissional. Fazer teatro, para mim, era como respirar, como tomar banho: era mais uma coisa do meu dia que eu tinha de fazer e de que gostava.” Foi preciso os pais mostrarem-lhe que podia ir para uma escola de teatro a tempo inteiro, mais concretamente a Academia Contemporânea do Espectáculo, no Porto. A partir daí “abriu-se um mundo”.

A pequena marxista

O primeiro trabalho profissional e remunerado de Sara Barros Leitão foi Morangos com Açúcar, em 2007. Convidaram-na, depois de a verem num exercício da escola. A primeira reacção foi desatar a chorar. Tinha 16 anos e “demasiados preconceitos”. “Eu não queria nada daquilo, queria era ir para Londres estudar e fazer teatro. Mas depois percebi que ninguém é bom demais seja para o que for.” Foi, viveu dez anos em Lisboa e trabalhou em várias novelas. A certa altura, teve uma crise existencial. “Estava numa espiral sem sentido: estava sempre a fazer mais para conseguir ter dinheiro para pagar uma casa em Lisboa, para poder trabalhar.” Ao mesmo tempo, ia ver teatro todas as noites. E aquilo era o que realmente queria fazer. Há três e meio largou a televisão, voltou para o Porto e entrou no espectáculo Neva, encenado por João Reis e co-produzido pelo TNSJ.

“Decidi mudar-me para o Porto porque senti que em Lisboa não ia ter espaço nem credibilidade para o que queria fazer.” Entre as novelas, também fez teatro – colaborou com o Teatro Meridional e com a encenadora Joana Craveiro, do Teatro do Vestido, além de ter criado uma companhia com amigos, a Carruagem –, mas sentia que ainda era vista como “a miúda que fez os Morangos com Açúcar”. O rótulo pesava-lhe. Contudo, nunca se arrependeu de nada do que fez. “Esse projecto, e todos os outros, trouxeram-me onde eu estou agora, que é um sítio muito tranquilo e de grande aprendizagem.” Tirou “muito” desse período. Enquanto estava sentada no estúdio à espera das filmagens, aproveitou para ler quase toda a obra de Dostoiévski, boa parte da de Tolstoi, sem esquecer a Ilíada ou a Odisseia, e foi lá que estudou para a licenciatura em Estudos Clássicos.

PÚBLICO -
Foto
José Caldeira

Nas quase 12 horas que passava no estúdio, muitas vezes seis dias por semana, andava sempre com um caderno de apontamentos. “Sinto que me tornei uma actriz rápida para responder às propostas dos encenadores porque me dedicava muito – posso dizer que li todos os guiões das novelas, do início ao fim, e isso também me deu muito músculo para dramaturgia.” Fazer novelas era “como ir ao ginásio”. E também foi lá que começou a ganhar uma consciência mais politizada das questões laborais. “Eu via uma multinacional a ter lucros brutais e nós a trabalhar cada vez menos meses numa novela e mais horas extra, sem serem pagas”, assinala a actriz, que hoje faz parte da direcção da Plateia – Associação de Profissionais das Artes Cénicas. “Fiquei cada vez mais frustrada, sindicalizei-me – os meus colegas das novelas chamavam-me a pequena marxista – e comecei a criar muitos conflitos com algumas produções para ter condições mínimas de trabalho.”

Foi percebendo com que lutas se identificava – e muito daquilo que quer dizer está na sua primeira encenação. "Não só a questão da profissionalização do teatro, mas também a luta feminista”, refere Sara, para quem o teatro é um “reflexo da sociedade” e, por isso mesmo, também ele se rege por “uma lógica e um cânone patriarcais”. “À medida que queres começar a dirigir e a escrever, sentes esse estigma.” A propósito do Teoria das Três Idades, perguntaram-lhe se tinha sido mesmo ela a escrever a peça – aos seus colegas homens, da mesma idade, “não fazem essa pergunta”. “É preciso começar a mudar toda a esta lógica. Com o meu percurso, espero contribuir para essa transformação.”

PÚBLICO -
adriano miranda

E depois de um 2018 hiperactivo, o percurso de Sara Barros Leitão tem tudo para se fortalecer este ano. A 2 e 3 de Fevereiro vai ao Teatro Joaquim Benite, em Almada, com o espectáculo Uma Noite no Futuro, de Nuno Carinhas, um “verdadeiro senhor” a quem “deve muito”. Entre 27 de Março e 14 de Abril volta ao palco do São João com O Resto Já Devem Conhecer do Cinema, uma encenação de Nuno Carinhas e Fernando Mora Ramos para uma peça de Martin Crimp. Entretanto, vai encenar uma peça-concerto para o Centro Cultural de Belém, no festival Dias da Música, a partir de Rei Lear, de Shakespeare. Segue-se uma leitura encenada, no Teatro Viriato, de As Suplicantes, de Ésquilo – “é o primeiro texto feminista que conheço, do século V antes de Cristo” –; um monólogo para o programa Cultura em Expansão, no Porto, sobre a toponímia da cidade; um projecto no Rivoli ligado à ocupação do teatro; e a co-criação de um espectáculo com a companhia Visões Úteis.

No meio de tantos trabalhos e de tantos convites, Sara Barros Leitão ainda entra “um bocadinho em pânico”. “Eu tenho pouca confiança naquilo que faço. Parece foleiro dizer isto, mas é verdade – só que eu tenho uma urgência tão grande em fazer coisas, algo que lateja tão forte, que me lanço para elas.” E que seja sempre assim.