Opinião

António Sérgio, memória presente...

Passados 50 anos sobre a sua morte, reencontramos a atualidade do seu pensamento e da sua ação.

Passam 50 anos sobre a morte de António Sérgio (1883-1969). O seu exemplo e a sua obra merecem uma lembrança atenta, já que ao longo da vida procurou deixar-nos um apelo sério e persistente a uma verdadeira reforma da política, da sociedade e da economia, lembrando a necessidade premente de uma educação para uma cidadania ativa, enquanto marca do desenvolvimento e da civilização. Portugal precisaria de romper com uma desatenção sistemática à formação dos portugueses, do mesmo modo que deveria apostar numa mudança séria e profunda das instituições e do modo de criar e de multiplicar a riqueza.

Por isso, o historiador contrapôs a fixação ao transporte, falando das duas políticas nacionais – e da exigência de uma aposta determinada na fixação, isto é, no melhor aproveitamento dos recursos próprios, fosse na agricultura, na indústria ou na inovação das tecnologias. Infelizmente, prevaleceram ora os fumos da Índia, ora o ouro do Brasil, ora a emigração, ora a dívida pública, em lugar do investimento e de um planeamento estratégico de longo prazo.

No seu magistério intelectual (não esqueçamos a sombra tutelar e sereníssima de sua mulher, D. Luísa Sérgio), persistiu sempre na preocupação pedagógica – consistente na defesa duma Escola de Cidadãos, na Educação Cívica, mas também na defesa da causa do cooperativismo, enquanto reorganização da economia a partir da solidariedade voluntária. Joel Serrão disse, por isso, perante a acusação de que o pensador se teria desgastado demais em confrontos verbais, que o "polemismo sergiano foi um prolongamento natural do amor pedagógico". E António Alçada Baptista, no número da revista O Tempo e o Modo (n.ºs 69-70, Março-Abril de 1969) que coincidiu com o falecimento do ensaísta, lembrou o combate de Sérgio contra a "textura vitoriana da vida e da sociedade portuguesa", invocando o seu caminho de "trabalho, esforço, investigação e reflexão, que as pessoas por aqui nem sempre estão dispostas a ter".

Foi Sérgio, antes de tudo, um educador. O seu reformismo tornou-se, deste modo, indispensável, como método plural e gradualista, e como via orientada para uma sociedade aberta e cosmopolita centrada na iniciativa livre e responsável dos cidadãos. Assim, indicou o caminho do rigor e da clareza – com desprezo altivo pelo "reino da estupidez". Passados 50 anos, reencontramos a atualidade do seu pensamento e da sua ação. O tempo foi dando razão a António Sérgio – em nome do equilíbrio entre a liberdade e a coesão social, entre a responsabilidade e o desenvolvimento humano.

No entanto, morreu profundamente amargurado por sentir grande distância entre a influência alcançada e as consequências práticas do seu programa. Lembremos, porém, que, em 1923, como ministro da Instrução Pública, deixou duas marcas indeléveis que ainda hoje merecem referência: a criação da Junta de Orientação dos Estudos e o Instituto do Cancro.

A Junta foi criada no sentido da abertura dos nossos investigadores e estudantes ao contacto internacional, através de bolsas de estudo e de formações avançadas, e o Instituto Português de Oncologia, a que o Professor Francisco Gentil deu grande prestígio, foi exemplo premonitório da necessidade de ligação estreita entre a ciência e a saúde. E não esqueçamos que José de Azeredo Perdigão na Fundação Gulbenkian seguiu na abertura de horizontes e no culto da liberdade os passos de seu mestre António Sérgio. Poucos governantes têm a seu favor uma tão importante marca simbólica de valor perene.

Também foi o pensador que se bateu, contra ventos e marés, pela candidatura de Humberto Delgado em 1958. Havia, afinal, que romper as barreiras com que o regime de Salazar se protegia. Foi, contudo, mais poderosa a máquina do regime e isso deixou António Sérgio profundamente abalado, não recuperando mais a determinação e o entusiasmo de pensar e agir.

Eduardo Lourenço falou de um herdeiro de Herculano e de Antero de Quental, talvez excessivamente ocupado na tarefa de espadachim e de polemista, caindo num certo moralismo. Mas Jorge de Sena terá sido quem melhor definiu o ensaísta: "a pessoa e a obra deram-me sempre a impressão fascinante de uma coisa rara, mitológica e quase impensável em Portugal: serem uma criação consciente de um aristocrata nato, que era também um gentleman".

Era isso que se sentia nas fantásticas tertúlias da Travessa de Moinho de Vento. Mas "quantos anos levará o País a inventariar criticamente o espantoso trabalho deste homem de exceção?" – perguntava José Cardoso Pires. E Vasco Pulido Valente, num estudo importante sobre "uma revolução interior", afirmava que, para Sérgio, se a escola fosse "uma comunidade produtora e democrática em constante aperfeiçoamento", faria inevitavelmente a "educação moral da criança, sem precisar de recorrer a qualquer instrução ou a qualquer técnica específica".

Quando relemos hoje o fecundo ensaísta, encontramos preocupações atuais. Precisamos, de facto, de um espírito reformador, capaz de ligar a liberdade e a igualdade, a inclusão social e a justiça, o conhecimento e um desenvolvimento sustentável. E tenho de dizer que me é cada vez mais simpático e necessário o seu magistério. Contra a ilusão conformista dos poderes instalados é o entusiasmo da mudança e da aprendizagem, é o combate contra a indiferença e a mediocridade que devem prevalecer. António Sérgio no-lo ensinou. A esse dever não podemos renunciar. Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico