O senhor da “linha vermelha”

A excelente biografia de Conlin, assente numa investigação exemplar, revela as potencialidades do género biográfico, ajudando-nos a compreender tantos as “vidas” de Calouste Gulbenkian como os mundos onde elas se tornaram possíveis. É apresentada esta quinta-feira, 24, na Fundação.

Foto
Jonathan Conlin, o biógrafo: uma bela viagem pelas “muitas vidas” de Calouste Gulbenkian

Das críticas da “ilusão biográfica” e da “falácia da intencionalidade” à promoção de exercícios hagiográficos (ou diabolizantes) sobre “grandes” personalidades, conforme a conveniência e o financiamento disponível, os debates sobre o que significa escrever uma biografia, sobre o seu potencial ou limitações ou sobre a capacidade para iluminar não apenas um trajecto de vida mas também o tempo histórico em que este se desenrolou, são antigos e numerosos. Alguns, muito interessantes e proveitosos, outros somente com o mérito de nos enredar em simplismos ideológicos, em detrimento da seriedade e rigor desejáveis.

Exemplos reveladores de alguns dos problemas fundamentais associados a estes debates podem ser identificados em duas biografias de uma mesma figura, Calouste Sarkis Gulbenkian, uma editada dois anos depois da sua morte, O Senhor Cinco por Cento, e outra cujo lançamento em Portugal aconteceu esta quinta-feira, O Homem Mais Rico do Mundo - As Muitas Vidas de Calouste Gulbenkian, o objecto desta recensão.

De origem arménia mas com nacionalidade britânica, nascido em 1869 e falecido em 1955, com 86 anos, Gulbenkian é conhecido em Portugal essencialmente devido ao impacto duradouro e insubstituível que a Fundação privada homónima teve, e tem, no país. A descrição da sua vida em Portugal tem-se resumido, amiúde, à tentativa de explicar a sua relação com o regime de Salazar, desde a sua instalação no Hotel Aviz, num “país de abundância” proporcionada pela neutralidade num contexto de violento conflito mundial e associadas privações.

A famosa moradia no 51 da Avenue d’Iéna, um “mausoléu” em Paris, não podia competir com o clima e a hospitalidade portugueses (em vários sentidos). Mas o empresário multimilionário, em muito devido à famosa “linha vermelha”, por si desenhada em 1928, que criou um monopólio de exploração petrolífera no ex-Império Otomano, teve um percurso muito mais importante que isso. Existem duas biografias que procuram explicar porquê.

Impressa em Portugal pela Texto, em 2009, 52 anos depois da sua publicação, e tendo já várias edições, a biografia assinada por Ralph Hewins, O Senhor Cinco por Cento, centra-se sobretudo no “retrato” do indivíduo, na singularização dos traços pessoais e na psicologização das suas intenções e escolhas. Calouste era “desconfiado”, “conquistador de corações femininos”, hipocondríaco, esmerado na sua condição física e aparência. Era também reservado, levando a “discrição ao extremo”: a acumulação de dinheiro seria, assim, principalmente um bilhete para uma almejada privacidade. E por aí em diante.

O estabelecimento de causalidades simples, aparentemente óbvias, entre contextos e processo históricos, que não deixam de ser abordados ainda que de modo superficial, e opções individuais repete-se na escrita de Hewins. Gulbenkian seria desconfiado porque a história do seu povo assim o exigia, não tivesse sido pautada por massacres vários (estando à cabeça o genocídio arménio de 1915-1917). Foi um homem de indiscutível sucesso na sua vida financeira porque era parcimonioso e discreto.

Tal como na biografia de Jean Paul Getty, o famoso industrial do petróleo anglo-americano, datada de 1961, escrita quatro anos depois da que assinou sobre Gulbenkian, os factos e os pormenores são abundantes, as explicações, essas, são mais parcas, genéricas e debilmente demonstradas. Os saltos interpretativos sem sustentação ocorrem com frequência. A centralidade das “memórias” – do biografado e da família (sobretudo do filho Nubor Sarkis Gulbenkian) e de outros protagonistas – talvez explique porque assim é.

Como sucede frequentemente, até o esforço de questionamento das “memórias” daqueles directamente envolvidos não deixa de prolongar o problema do seu uso enquanto material central no ofício da biografia: são elas (e o que elas invocam, afirmam ou negam) que continuam a dominar a investigação. Condicionam, de um modo ou de outro, a compreensão dos acontecimentos e dos processos, das iniciativas e das reacções, das escolhas e das inevitabilidades.

Assente num outro tipo de investigação, revelando um louvável investimento em compreender, com rigor e ponderação, tempos históricos diferentes, geografias distintas, actores e processos díspares – das dinâmicas do mundo do coleccionismo às complexas minudências e especificidades do universo petrolífero, dos universos financeiro e político-diplomático (este marcado por complexas configurações imperiais em desagregação e reconstituição), sem esquecer as opacas relações entre eles –, a biografia de Jonathan Conlin, O Homem Mais Rico do Mundo - As Muitas Vidas de Calouste Gulbenkian, atinge outros patamares explicativos. De excelência, diga-se. (Pena que a riqueza de mundo que esta biografia oferece não seja de mais fácil consulta, uma vez que a edição portuguesa, ao contrário da inglesa, não disponibiliza um índice. Por sintético que fosse, ajudaria sobejamente o leitor).

O acervo das fontes tratadas é admirável e diversificado. O périplo por arquivos públicos, do Irão e Turquia à Rússia, Estados Unidos e Portugal, é impressionante. O seu uso criterioso é notório. O mesmo sucede com a utilização dos arquivos privados, dos empresariais (bancos e petroleiras) aos universitários, passando pelos de familiares (da família Essayan à Gulbenkian). A literatura secundária é rica, cobrindo áreas tão diversas como a (geo)política do petróleo, não só no Médio-Oriente mas também na América Latina; a história do Império Otomano, da Europa, da Rússia e da Turquia; a evolução histórica da filantropia e dos episódios e instâncias de genocídio ou ainda das múltiplas e complexas formas de “imperialismo económico”.

O resultado é claro: a cada página, Conlin revela, com parcimónia mas com oportunidade, um conhecimento seguro sobre o seu objecto e sobre os seus múltiplos contextos. Só assim foi capaz de revelar o modo como ele dobrou as fronteiras de impérios e Estados enrubescidos por nacionalismos de vária estirpe, ignorou amiúde as suas leis e privilégios (a começar pelos regimes de taxação), e navegou habilmente entre os corredores da diplomacia e os do capital, com ou sem pátria, ou os do coleccionismo artístico. Só assim foi capaz de iluminar como Gulbenkian explorou interstícios, nem sempre óbvios, e zonas de contacto, nem sempre claras, entre vários universos sociais e forjou ententes a vários níveis, com vários intuitos, quase sempre com benefício próprio.

Todo este investimento em fontes, primárias e secundárias, permite fugir à armadilha da simplificação analítica e histórica. Facilita a reconstrução de “muitas vidas” nos seus tempos e contextos históricos e sociais específicos, incluindo as suas motivações e testemunhos, a partir de múltiplos olhares e relações, pessoais e institucionais. Resiste a linhas explicativas falsamente condutoras, imaculadamente coerentes e lógicas. A contextualização é, de facto, um instrumento de análise, não um mero pano de fundo de coincidências históricas. A problematização é fina, documentada e judiciosa.

Face à escassez de informação, por exemplo, até 1897, quando Calouste já contava 28 anos, evita leituras especulativas, mesmo que o período seja bastante importante para um exercício biográfico: é o momento de “arranque” da fortuna e o da deterioração das relações com os irmãos, em parte marcada pela morte do pai, em 1894 (Gulbenkian deixa a empresa da família, a Sarkis Gulbenkian Fils, ir à falência em 1907). Os rumores relativos às causas da ruptura familiar, sobretudo associados a desastradas especulações financeiras por parte de Calouste, nunca passam disso mesmo no trabalho de Conlin: hipóteses a merecer uma continuada investigação.

As vignettes também despontam, mas não são promovidas a factos explicativos. As ramificações psicológicas são exploradas, mas não adquirem nunca o protagonismo na compreensão e explicação dos acontecimentos. A “humildade” de Gulbenkian terá sido decisiva para a sua afirmação no mundo do coleccionismo artístico. Este nunca descurou a sua formação e a aprendizagem junto dos especialistas, em parte através da consulta regular de livros que ajudaram a dar corpo à sua (nossa) biblioteca Gulbenkian. Mas as competências adquiridas nos ofícios da família, tanto na apreciação do valor (material e simbólico) dos bens como na iniciação aos meandros da negociação, foram igualmente importantes.

Os Rembrandts ausentes do Hermitage, museu que “perdeu” 2880 quadros para “consórcios mundiais” até 1935, ou a estátua de Diana (comprada a Estaline) não se explicam, por certo, pela sua “humildade” e pela sua perseverança na aprendizagem dos rigores da estética. A conivência, interessada ou desesperada, de relações especiais um pouco por todo o mundo e a magra taxação de que a sua crescente fortuna quase sempre beneficiou talvez ajudem a explicar muitos aspectos da sua trajectória. A começar pela sua colecção de arte. O mesmo para o singelo facto de, à data da morte, ser um dos homens mais ricos do mundo. Ou para a sua escolha de Portugal, onde viveu os anos decisivos da sua fortuna (1951-1955, em razão da construção do oleoduto de Kirkuk, Iraque) e onde deixou a sua colossal riqueza, num processo com inúmeras causas e uma questão vital: o desejo de não pagar impostos.

Rico, informado, bem escrito e sagaz nas suas análises, este livro cumpre, em larga medida, a promessa do seu título. É uma bela viagem pelas “muitas vidas” de Calouste Gulbenkian.