Os Óscares de sempre, mas agora com o Netflix a aplaudir da primeira fila

A corrida aos Óscares de 2019 reflecte todos os dilemas da Hollywood actual, entre o streaming que ganha terreno e as grandes produções que os estúdios quase já não fazem: Roma, o filme Netflix de Alfonso Cuarón, e A Favorita, de Yorgos Lanthimos, partem à frente, com dez nomeações cada.

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A Favorita e Roma: o grande combate dos Óscares 2019 DR

Com dez nomeações cada, A Favorita, filme de época realizado em Inglaterra pelo grego Yorgos Lanthimos, e Roma, a memória da infância de Alfonso Cuarón na Cidade do México convulsa da década de 1970, partem empatados à cabeça da corrida aos Óscares 2019. Uma corrida que, entre a previsibilidade e a surpresa, reflecte todos os dilemas de uma Hollywood contemporânea em equilíbrio precário. Entre o streaming que ganha terreno e as produções de prestígio que os estúdios (com raras excepções) já não produzem; entre a necessidade de representar melhor a enorme diversidade de histórias, rostos e raças do mundo e do cinema, e o instinto profundamente conservador de uma indústria que ainda pensa como há 20 anos.

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Com dez nomeações cada, A Favorita, filme de época realizado em Inglaterra pelo grego Yorgos Lanthimos, e Roma, a memória da infância de Alfonso Cuarón na Cidade do México convulsa da década de 1970, partem empatados à cabeça da corrida aos Óscares 2019. Uma corrida que, entre a previsibilidade e a surpresa, reflecte todos os dilemas de uma Hollywood contemporânea em equilíbrio precário. Entre o streaming que ganha terreno e as produções de prestígio que os estúdios (com raras excepções) já não produzem; entre a necessidade de representar melhor a enorme diversidade de histórias, rostos e raças do mundo e do cinema, e o instinto profundamente conservador de uma indústria que ainda pensa como há 20 anos.

São, portanto, os mesmos Óscares de sempre: esquizofrénicos como convém, mas também tacteando à procura do que uma cerimónia como esta, cheia de endogâmicas “palmadinhas nas costas” entre os pares da indústria, ainda pode representar nos dias #MeToo e #BlackLivesMatter. E previsíveis ao nível de certas nomeações inevitáveis: Roma, o grande “caso” de Veneza 2018, repete o efeito A Forma da Água, transitando directamente do Leão de Ouro do festival italiano ao favoritismo nos prémios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (foi aliás o mesmo Guillermo del Toro que os Óscares coroaram há um ano a dar o prémio máximo de Veneza ao seu compatriota Alfonso Cuarón).

 Ao todo, são dez nomeações para Roma, distribuídas pelas categorias de realizador, actriz (Yalitza Aparicio), actriz secundária (Marina de Tavira), argumento original, fotografia, cenografia, mistura de som e montagem de som. 

Mas a esta dezena de prémios é preciso juntar dois bónus que fazem de Roma um caso à parte. Primeiro, a nomeação simultânea para melhor filme e para melhor filme estrangeiro, “dobradinha” que aconteceu apenas meia dúzia de vezes nos 91 anos dos prémios da Academia de Hollywood (o último caso foi Amor, de Michael Haneke, em 2013, mas não transportava o “peso” de Roma). Segundo, a consumação de um feito inédito para o gigante do streaming Netflix, que assim concretiza finalmente a sua ambição de chegar à primeira fila das nomeações, depois de anos a ficar-se por categorias secundárias.

Também inevitável era a presença de A Favorita. O filme de época que marcou a entrada na “primeira liga” do formalista grego Yorgos Lanthimos (Canino, A Lagosta) passou a ter por trás o peso da major Fox, que comprou os direitos internacionais desta produção independente. Foi nomeado para os galardões de filme, realizador, actriz (Olivia Colman), actriz secundária (duas citações, para Emma Stone e Rachel Weisz), argumento original, montagem, fotografia, cenografia e figurinos.

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Na lista de melhor actriz, Glenn Close parte favorita por A Mulher, do sueco Björn Runge – é a sétima nomeação para a americana, que tem o recorde pouco invejável de ser a actriz mais vezes nomeada sem ganhar a estatueta. Contra ela concorrem Olivia Colman, a cantora Lady Gaga (Assim Nasce uma Estrela), e, como outsiders, Yalitza Aparicio, a não-profissional que Alfonso Cuarón levou para Roma, e a comediante Melissa McCarthy, uma das surpresas destas nomeações, pelo seu papel dramático em Can You Ever Forgive Me?, de Marielle Heller, sobre a história verídica da biógrafa Lee Israel.

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Mais renhido será o confronto na categoria de melhor actor: Christian Bale, como Dick Cheney em Vice, e Viggo Mortensen, italo-americano em Green Book – Um Guia para a Vida, partem favoritos, concorrendo com Bradley Cooper (Assim Nasce uma Estrela), Willem Dafoe (interpretando Vincent van Gogh em À Porta da Eternidade, de Julian Schnabel, que tem estreia a 31 de Janeiro) e Rami Malek (o Freddie Mercury de Bohemian Rhapsody).

Surpresas e inevitabilidades

A lista dos nomeados à 91.ª edição dos Óscares, anunciada ao início da tarde desta terça-feira, inclui outros filmes “inevitáveis”: Vice, o biopic de Dick Cheney por Adam McKay (estreia a 14 de Fevereiro, produção da indie Annapurna, de Megan Ellison), e Assim Nasce uma Estrela somam oito nomeações cada. Green Book – Um Guia para a Vida de Peter Farrelly, sobre a história real da amizade entre um músico negro e um guarda-costas branco no Sul segregado dos EUA, algures na década de 1960 (chega às nossas salas já esta quinta-feira), tem seis citações.

Black Panther, o filme de super-heróis all-black que Ryan Coogler (Creed) dirigiu para a Marvel, surge em sete categorias – que, para lá da “consolação” de melhor filme, são todas técnicas. A sua presença nos nomeados, à imagem da do biopic dos Queen Bohemian Rhapsody (presente em cinco categorias), sugere “sobras” da ideia do prémio de “melhor filme popular” que a Academia ponderou introduzir há alguns meses no palmarés dos Óscares, para recompensar os sucessos de bilheteira, mas que viria a abandonar perante a polémica resultante.

Surpresa é a presença do incendiário veterano Spike Lee, de novo na mó de cima graças a BlacKKKlansman – O Infiltrado  seis nomeações, incluindo filme, realizador e actor secundário (Adam Driver). Também surpresa é a “infiltração” nas categorias técnicas de filmes considerados “estrangeiros” (pelo menos segundo as regras da Academia) quando estão em causa outras categorias. Para além de Roma, Guerra Fria recebeu nomeações para Pawel Pawlikowski (realizador) e Lukasz Zal (fotografia), enquanto o alemão Nunca Deixes de Olhar, de Florian Henckel von Donnersmarck, viu Caleb Deschanel citado para melhor fotografia. Os outros dois nomeados para filme estrangeiro são Cafarnaum, de Nadine Labaki, a estrear a 7 de Fevereiro, e Shoplifters – Uma Família de Pequenos Ladrões, de Hirokazu Kore-eda, Palma de Ouro em Cannes.

Mas os filmes que estão de fora são também significativos. Se Esta Rua Falasse, o novo filme de Barry Jenkins (cujo Moonlight ganhou o Óscar de melhor filme há dois anos), com estreia marcada para 21 de Fevereiro, está completamente ausente de todas as categorias principais, com citações apenas para argumento, banda-sonora e actriz secundária (Regina King). Correio de Droga, o novo filme de Clint Eastwood, Destroyer – Ajuste de Contas, de Karyn Kusama, com uma interpretação aclamada de Nicole Kidman, e O Cavalheiro com Arma, de David Lowery, que muitos esperariam levar a uma nomeação para Robert Redford, não receberam uma única citação. O Primeiro Homem na Lua, o ambicioso filme de Damien La La Land Chazelle sobre Neil Armstrong, e Maria, Rainha dos Escoceses, de Josie Rourke, falharam por completo as categorias principais, ficando apenas com nomeações técnicas. E um dos filmes americanos mais importantes de 2018, No Coração da Escuridão, de Paul Schrader, surge com a “consolação” da nomeação para melhor argumento original.

Os vencedores conhecer-se-ão na madrugada de 24 para 25 de Fevereiro, quando a cerimónia de entrega tiver lugar em Los Angeles. Até lá, não faltarão apostas.