Crítica

O filme da graça de Paul Schrader

O silencioso e grácil Ethan Hawke quer limpar a poluição do mundo com sangue. Com ele, Paul Schrader violenta mecanismos de identificação e empatia e faz o filme da sua graça.

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Cedric, o Artista, Ethan Hawke, Primeiro Reformado
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Fazendo resistência passiva-agressiva ao template cinematográfico dos dias de hoje, No Caminho da Escuridão violenta os dados da cronologia e, sendo um filme realizado em 2017 por Paul Schrader, coloca-se ao lado de Blue Collar (1978), de Hardcore — A Rapariga da Zona Quente (1979) e de American Gigolo (1980), os três títulos iniciais da filmografia do realizador.

Os dois primeiros revisitavam as suas origens no Michigan: por um lado, o calvinismo puro e duro de classe média, mas tendo Schrader vivido num bairro com vista para o gueto proletário isso permitiu-lhe pressentir a claustrofobia social — o genérico de Blue Collar fazia-se com “I can’t get ahead no matter how hard I try” de Hard workin Man de Captain Beefheart e parecia revelar-se ali um marxista... Por outro, ao olhar para trás, com a história de um obstinado protestante que procurava a filha no mundo do porno para onde ela fugira (George C. Scott em Hardcore), retratava o seu pai e o seu próprio movimento de fuga de Grand Rapids — onde só havia palavras; as imagens eram o inferno — e uma nova obsessão, o sexo.

É que o presente para Schrader, nesses anos, era já o corpo. Apresentara-se-lhe quando aterrou em Los Angeles. Sobre as experiências do sensualista dar-nos-ia conta American Gigolo, o filme do Call me de Blondie/Giorgio Moroder e do “visual” (via Ferdinando Scarfiotti, que estava ali por causa da art direction no Conformista de Bertolucci). Por estar indexado ao chic de um tempo, American Gigolo talvez não se tenha deixado ver convenientemente. Por exemplo, a forma como ao mesmo tempo que se embriagava (Schrader transformava o corpo no ginásio; exercitava-se no contacto físico, que estivera ausente da sua família, nos clubes gay, o que não representava “perigo”, segundo ele, era coreografia), oferecia resistência, arredando os corpos de Richard Gere e de Lauren Hutton do espectáculo para, com a contenção, permitir uma deflagração final. Era uma frustração ou mesmo violentação da natureza empática do cinema. O final desse filme foi o primeiro dos vários em que Schrader fez versões da cena de libertação na prisão de Pickpocket, o filme de 1959 de Robert Bresson (“Oh, Jeanne, pour aller jusqu’à toi, quel drôle de chemin il m’a fallu prendre”) — Bresson sendo um dos autores, com Ozu e Dreyer, sobre o qual incidiu o seu livro Transcendental Style in Film. Passou a ser esse um “motivo” do cinema do realizador, uma música de fundo, na verdade, não uma aprofundamento total de uma experiência transcendental. A carreira de cineasta que a partir daí ganhou velocidade e várias vezes se estamparia com um chic cultural e de choque pareceu demonstrar a sua própria tese de que os filmes que fez nunca foram os filmes sobre os quais escreveria. Até chegar a No Caminho da Escuridão.

Uma das coisas inusitadas deste filme é a forma como se intromete naqueles títulos realizados entre 1978 e 1980 para os completar, para libertar ressonâncias — sobre a América, hoje espaço claustrofóbico, sem linhas de fuga como as que ainda se apresentavam em Hardcore, e sobre a experiência religiosa, que no filme de 2017 está irremediavelmente corrompida pelas estratégias empresariais enquanto no filme de 1979 ainda era familiar e por isso o olhar sobre o passado não estava isento de nostalgia. Sendo filme escuríssimo, No Caminho da Escuridão faz incidir luz sobre os caminhos que Schrader tomou, incluindo as possibilidades que ficaram por aprofundar a partir do momento em que, outra vez com Moroder e Scarfiotti (e com a obsessão por Nastassja Kinski), movimentou a câmara em Cat People/A Felina (1982) por pura luxúria. (Já quanto a American Gigolo, No Caminho da Escuridão faz com que seja hoje melhor filme.)

Está logo tudo — a violência do conhecimento de si — na voz off inicial do reverendo Ernst Toller/Ethan Hawke. Anuncia a forma como vai manter o seu diário, “sem piedade”. Dessa forma dirige-se ao espectador para lhe anunciar como vai ser o filme, que violência vai infligir ao cinema. Como vai fazê-lo sangrar no interior.

São gestos, palavras, silêncios e subtracções. Os sussurros adquirem a força de gritos, uma compostura vigorosa. Tudo organizando uma liturgia mais do que um plot. E que impõe ao ritual cinematográfico de hoje algo que é um há muito não visto - por exemplo, diálogos sobre a fé como os de Léon Morin, Prêtre (1962) de Jean-Pierre Melville - e que devolve a densidade das primeiras experiências cinematográficas de Schrader. Que não foram, como no caso dos seus colegas movie brats, nem a comédia nem o western, foram Antonioni, Godard, Bresson...

Ex-capelão do Exército em agonia espiritual e física — culpa-se pela morte do filho, porque o incentivou a alistar-se e perdeu-o —, Toller, perante a corrupção do corpo (um cancro), da Igreja e do meio ambiente (descobre ligações poluídas entre corporações e o seu templo), veste um colete de explosivos: o sangue limpa. A crise é desencadeada pelo encontro com um casal de ambientalistas radicais, Michael (Philip Ettinger) e Mary (Amanda Seyfried), e com o suicídio de Michael, que deixou, para além do testamento, o colete...

O silencioso, grácil Ethan é o assustador Hawke. Esse movimento interiorizado e imperceptível deve algo ao terror — Schrader aproveita a eterna boyishness do actor para contaminar a identificação; quando damos por isso, não está lá ninguém. Mas o exterminador das sujidades deve mais ao Travis Bickle de Taxi Driver, o filme de Scorsese que Schrader escreveu em dez dias como se expulsasse de si a solidão, a atracção pelas armas e pelo suicídio. Filme e personagem dos mais icónicos do cinema americano dos anos 70, é o título do mundo de Schrader que faltava referir aqui para dar conta de como explode a graça.

Fecho de um percurso, até porque “pode ser” o último filme, como já disse o realizador, é o recolhimento de um cineasta de 71 anos após a experiência do mundo. É aquela cena final dos seus filmes. Mas agora ele é a personagem: “Ó Paul, para chegar aqui que estranho caminho tiveste de percorrer...”