Forças Armadas da Venezuela prendem grupo de militares que queria depor Maduro

Oposição tem apelado a que os militares se revoltem contra o Presidente, mas o ataque desta madrugada parece ter sido protagonizado por militares de baixa patente. Adensa-se o clima para a grande manifestação pela "transição" marcada para quarta-feira.

Depois do ataque, vários civis envolveram-se em confrontos com a Guarda Nacional
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Depois do ataque, vários civis envolveram-se em confrontos com a Guarda Nacional CARLOS GARCIA RAWLINS/Reuters
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Depois do ataque, vários civis envolveram-se em confrontos com a Guarda Nacional MIGUEL GUTIERREZ/EPA

Um grupo de oficiais venezuelanos foi detido nesta segunda-feira num quartel de Caracas depois de tentar apropriar-se de armas, anunciaram as Forças Armadas do país. O comunicado foi emitido pouco depois de, nas redes sociais, ter surgido um vídeo em que um homem de uniforme militar pedia que Nicolás Maduro deixasse de ser reconhecido como chefe de Estado.

Foi a primeira vez que membros das forças armadas venezuelanas se insurgem contra o regime de Maduro.

O grupo de insurrectos manteve sequestrados quatro oficiais do quartel Cotiza, a cerca de um quilómetro do palácio presidencial de Miraflores​. Não se sabe ao certo o número de oficiais que participaram neste assalto ao quartel da Guarda Nacional Nacional Bolivariana, um dos quatro ramos das Forças Armadas.

Segundo a BBC Mundo, em língua castelhana, o assalto ocorreu perto das três da manhã desta segunda-feira. "Um reduzido número de assaltantes atraiçoou o seu juramento de fidelidade à pátria e às suas instituições, e submeteu o capitão Gerson Soto Martínez, comandante do posto de coordenação policial Macarao", diz a informação oficial.

A partir dali, continua o relato oficial, deslocaram-se em veículos militares para a sede do destacamento de segurança urbana em Petare, onde se apropriaram de armas e "sequestraram, debaixo da ameaça de morte", dois oficiais e dois guardas.

Já em Cotiza, os "delinquentes" encontraram resistência e foram capturados.

Testemunhas ouvidas pela agência Reuters disseram que ouviram tiros por volta das 3h da manhã locais (7h em Portugal continental). Depois do ataque, vários civis aproximaram-se do posto de controlo e atiraram pedras contra os elementos da Guarda Nacional. Durante o protesto foi queimado pelo menos um veículo.

"As Forças Armadas rejeitam categoricamente este tipo de acção, que é certamente motivada pelos interesses escuros da extrema-direita", disse o Governo.

Descontentamento nas Forças Armadas

Esta tentativa de assalto indica que há descontentamento no interior das Forças Armada venezuelanas. Não se sabe ao certo quem foram os participantes, mas acredita-se que envolveu oficiais de baixa patente, com pouca capacidade para mobilizarem os militares. 

Num dos vídeos divulgados nas redes sociais, um homem vestido de uniforme verde identifica-se como o sargento de terceira Wandres Figuero. Afirma que se trata de uma acção "contra o regime", que o grupo "não reconhece". E faz um apelo: "Preciso do apoio de todos vocês, saiam para a rua, nós já cá estamos."

Nicolás Maduro tomou posse para o seu segundo mandato no dia 10 de Janeiro perante as críticas internacionais contra a forma como foi declarado vencedor das eleições do ano passado. Vários dirigentes da oposição no país têm apelado ao Exército que se revolte contra Maduro, que denuncia esses apelos como um incitamento a um golpe de Estado.

No dia 12 de Janeiro, um desses opositores, o presidente do Parlamento, Juan Guaidó, declarou que Maduro é um "usurpador" e disse estar disponível para assumir a chefia interina do Estado e para dirigir uma transição para um regime democrático. Um dia depois, foi detido pelos serviços secretos, quando se dirigia para um comício, e libertado pouco depois.

O parlamento, controlado pela oposição que venceu as últimas eleições legislativas, foi esvaziado de poderes por Maduro que elegeu uma Assembleia Constituinte que actua como órgão legislativo paralelo.

Guaidó afirmou esta segunda-feira que o assalto deste grupo de militares é um sinal do baixo moral entre as Forças Armadas. "A cadeia de comando rompeu-se", escreveu Guaidó no Twitter. Noutra publicação, disse que não quer que as forças de segurança se dividam ou combatam entre si. "Queremos que sejam um só homem, ao lado do povo e da Constituição, contra a usurpação."

Outros dirigentes da oposição reagiram aos acontecimentos da madrugada demonstrando apoio aos membros das Forças Armadas que "contribuem activamente para a restituição da Constituição".

"Todos vocês pediram que saíssemos para as ruas para defendermos a Constituição. Aqui estamos. Temos tropas. Será hoje, quando as pessoas saírem para nos apoiar", disse noutro vídeo um homem que se identificou como Luis Bandres.

Guaidó apelou à população para que saia à rua em massa na próxima quarta-feira, dia 23, numa grande jornada pela "transição" na Venezuela. Um dia que se adivinha tenso perante o actual cenário de desafio a Maduro que, mesmo sem sucesso, já chegou a sectores das forças de segurança. Em 2016, depois de a Comissão Eleitoral ter anulado um referendo com o objectivo de destituir o Presidente, eclodiu uma revolta nas ruas e nos confrontos entre a população e as autoridades, que duraram quatro meses em 2017, morreram 120 pessoas.