Nem tudo rimou na vida de sucesso que Eurico Cebolo trilhou

De uma aldeia transmontana até ao Porto, com passagem por África, Eurico A. Cebolo conheceu o sucesso a pulso. Perdeu tudo, voltou a reerguer-se e fez-se um dos nomes mais conhecidos da pedagogia musical em Portugal. Vendeu centenas de milhares de manuais de ensino por todo o mundo, ao mesmo tempo que arriscava numa carreira paralela como escritor de romances de cordel com contornos macabros.

Sentado frente ao computador de secretária, Eurico Augusto Cebolo, 80 anos feitos em Outubro do ano passado, passa os olhos por mais um livro de quadras que está prestes a ser acabado. É o décimo segundo, entre romances e poesia, que vai lançar. Edição de autor, como todos os outros. Para estar fechado, falta alinhavar os últimos pormenores gráficos. Clica no botão do rato para o “folhear” dentro do programa de paginação que usa. Tudo o que ali está é obra sua — texto, design e paginação. Adianta que é o último que escreve, apesar de ter mais um já esboçado em mente; não vai arriscar outro lançamento. Vai ficar por este, que já tem capa e título: Versos Diversos (controversos).

Para quem o nome do autor não é estranho, mas que não o conheça do meio da escrita ficcional e da poesia, pode parecer que algo não está correcto nesta introdução. O melhor é explicar. Eurico A. Cebolo é também mestre do ensino musical. Para muitos, sobretudo num período pré-Internet, é “o mestre”. Foi com ele, através dos seus numerosos manuais, que uma grande parte dos músicos nacionais, mas não só, começou a dar os primeiros passos na aprendizagem de um instrumento musical. Aprenderam a solfejar e os primeiros acordes de guitarra e de piano, acordeão ou qualquer outro instrumento. Os tempos em que não havia YouTube, nem tutoriais à mão de semear e ao peso de uns quantos megabytes, não estão assim tão distantes.

É nessa área que o autor é mais conhecido em Portugal e além-fronteiras, com a edição de mais de meia centena de livros dedicados ao ensino musical, lançados em português, francês e inglês. Continuam a ser esses compêndios a base do seu sustento e o da loja de venda de instrumentos que ainda mantém aberta há quase 45 anos, a Musicarte, no número 80 da Rua da Boavista, no Porto, onde ainda passa parte dos dias, agora já afastado do balcão.

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Eurico A. Cebolo

Longe vão os tempos em que vendia, “à vontade”, aproximadamente 50 mil livros por ano para todo o mundo. Hoje, as vendas anuais rondam os 5 mil manuais — a Internet “deu cabo do negócio”. É o próprio que os distribuiu. Estão disponíveis na loja da qual é proprietário, mas também noutras de venda de instrumentos e nas grandes cadeias que vendem livros em território nacional.

É um homem dos sete ofícios, mas é na música que se sente como peixe na água. Além dos livros, também escreveu “uma série de temas sem conta”. A escrever “desde pequenino”, é na literatura de cordel que também encontra um dos grandes prazeres da sua vida. Aos 80 anos, com mais de seis dezenas de livros editados, Eurico A. Cebolo é mestre da música e romancista popular.

O caminho sinuoso do sucesso

Aparentemente nada parece ter falhado na vida do pedagogo e romancista. Os seus manuais foram um fenómeno de vendas, foi professor de música e tem a sua loja de instrumentos desde 1975. Confessa-se um “homem feliz” com tudo o tem e com o que faz.

É na sala de trabalho da loja que conta ao P2 o seu percurso, marcado por uma série de infortúnios que conseguiu fintar, até se tornar na pessoa que é hoje. Ao seu redor, um pouco por todo o lado, há pedaços desse drible ao passado menos feliz. Rigorosamente organizados, em prateleiras diferentes, estão os manuais de ensino musical, os CD e DVD que eram (e continuam a ser) vendidos com os mesmos e outros materiais relacionados com o universo musical.

Ao fundo da sala, está o “posto de comando” de Eurico Cebolo. É na cadeira frente ao computador onde se senta para falar connosco que faz nascer os livros que edita. À distância temporal que lhe permite falar de um assunto que durante anos o afligiu, conta o episódio que viria a mudar a sua vida. “A 27 de Janeiro de 1975, em Casais Novos, Penafiel, um camião bateu no carro onde seguia com o meu primo, que ia conduzir. O meu primo morreu na hora e eu fiquei paralisado”, recorda.

Eurico Cebolo vivia na altura em Moçambique, desde os 16 anos, para onde emigrou com a mãe. Tinha uma carreira em ascensão como músico acordeonista e era proprietário de uma escola de música com 16 salas, que fundou em 1968, em Lourenço Marques. No seu reportório contava já com uma série de músicas que gravou e compôs para outros artistas. No currículo, tinha alguns troféus que venceu em festivais internacionais.

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Estava em Portugal de férias por um mês. O acidente de viação dá-se precisamente no dia em que ia apanhar o avião de regresso a Moçambique. Já não voltou: “Estive três meses numa cama do Hospital de São João.” Ficou um ano sem andar. Durante dois anos não podia sequer ouvir as músicas que tinha gravado. “Enquanto estava no hospital, apanhei o processo de nacionalização [em Moçambique]. Foi tudo para o Estado. Apanhei a altura do terrorismo. Congelaram a conta do banco e ficaram com a casa. Só na casa tinha 15 pianos, louças, jóias, discos. Então, depois fiquei aqui sem nada e já não fui para lá.”

Começou tudo do zero, sabendo que havia algo que não voltaria a poder fazer: “Fiquei com um braço paralisado. Tocar música nunca mais. Foi o meu maior desgosto”, recorda com mágoa. Porém, durante esse período, não se deixou vencer pelo desânimo e reagiu. “Comecei aqui do nada. Aluguei este armazém, que era barato — na altura pagava quatro contos por mês —, e pus um anúncio na porta a dizer que ensinava música.” Tentou reerguer-se, fundando a Musicarte, que tem o mesmo nome da escola que tinha em Moçambique.

“Apareceram tantos alunos que alguns meses depois tive de passar alguns a um amigo meu”, recorda. “Naquele tempo não havia escolas. Fui dos primeiros a dar aulas. O meu instrumento é o acordeão, mas ensinava tudo”, lembra.

É na sequência do episódio trágico pelo qual passou e logo depois de fundar a escola que dá início a uma actividade que acabou por lhe mudar a vida. “Como não podia tocar, que era o que mais gostava de fazer, comecei a escrever os livros.”

Só um pouco mais tarde é que passa também a vender instrumentos, o que acabou por nascer de uma necessidade complementar à de mestre de música. “Havia muitos alunos a querer aprender a tocar acordeão, mas não tinham instrumento. Pedi um a um senhor de São João da Madeira que vendia acordeões, o Senhor Resende, para um aluno que o queria comprar. Ofereceu-se logo para enviar mais três para vender. Correu bem e a partir daí passei também a vender instrumentos.” E relembra: “Antes disso, o armazém só tinha cabines de madeira para os alunos estudarem.”

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Eurico A. Cebolo oferece boa parte da sua produção de romances de cordel

Aprender música com rimas

O sucesso na venda dos livros remete para a forma como são pensados. “Escrevo os livros de maneira a que toda a gente perceba e partindo do princípio de que quem os lê está a começar a aprender. Mas também há temas complexos nos livros”, afirma, reforçando que as obras que escreve são para todas as idades: “Não há idade para começar a tocar um instrumento.”

“Nota na primeira linha/suplementar inferior/é o dó essa notinha/pronta ao nosso dispor.” Este é parte de um dos livros de Cebolo. Serve esta quadra em rima para ensinar como se escreve a nota dó na pauta. O mestre usa rimas para facilitar a memorização. Esta técnica faz parte do sucesso do “método Cebolo”. As rimas também lhe valeram seis vitórias em 11 participações do Concurso da Grande Marcha de Lisboa, nas marchas de Santo António.

Um dos livros, o Órgão Mágico, n.º1, na altura do “boom dos teclados” vendia 10 mil por ano. Cebolo não consegue saber quantos livros vendeu por todo o mundo. “Na altura não era obrigatório referir o número da edição. Perdi a conta.” Sabe é que até para o Japão vendeu.

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Os manuais de Cebolo serviram para formar musicalmente toda uma geração na era pré-Internet

A Internet não foi responsável apenas pela descida das vendas dos manuais. O volume de vendas de instrumentos também decaiu. “Aliás, hoje a loja dá prejuízo”, refere. São os manuais que continuam a segurar o negócio. Cebolo diz ter havido uma editora espanhola que tentou comprar os direitos dos compêndios para serem distribuídos por todo o mundo. Não quis. “Tenho todos os direitos. Assim, depois, passo-os para a minha família, que durante 70 anos podem usufruir deles.”

Uma escola no Senegal

O mestre tem apenas um filho que adoptou em 2012. Mustafá, senegalês, que conhecemos quando passamos pela primeira vez na loja, foi perfilhado por Cebolo em 2012, quando tinha 40 anos, Pouco tempo antes, tinha chegado à Musicarte para trabalhar, por via de um amigo. No primeiro dia de trabalho, mal falou. No segundo, conta, aconteceu o mesmo. Abordou-o e descobriu que tinha perdido a mãe naquele dia, a 1 de Janeiro, data em que a mãe de Cebolo nasceu. Não tinha dinheiro para pagar o funeral. O mestre suportou as despesas. A partir daí, Mustafá passa a tratá-lo por pai.

Quando voltamos à loja, o filho do mestre não estava lá. Tinha viajado para o Senegal, para a aldeia onde a mãe nasceu, como faz todos os anos para visitar a família na casa que lá construiu num terreno comprado por três mil euros que o pai ajudou a comprar. “No Senegal, por mil euros compra-se um terreno com 15 mil metros quadrados”, explica.

Nesse terreno, Eurico Cebolo financiou a construção de uma escola primária que agora tem 40 alunos e um professor, conta-nos, enquanto nos mostra no computador fotografias do edifício e dos alunos. Todos os meses, envia para lá 300 euros, “o suficiente para pagar os estudos e a alimentação das crianças”.

No Porto, na loja, é recorrente receber visitas de aprendizes estrangeiros. Habitual também é chegarem-lhe cartas de músicos nacionais e internacionais a agradecerem pelo trabalho desenvolvido, como de resto pudemos confirmar. Isso enche Cebolo de orgulho, por poder constatar que o seu legado não foi em vão.

As quadras que o mestre transfere para os manuais são fruto de uma capacidade que desenvolveu desde muito cedo. Desde que se lembra, recorda-se de fazer rimas. Outra capacidade que desenvolveu em criança foi a de escrever ficção.

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Montra da loja de instrumentos musicais de Eurico A. Cebolo, aberta ao público em 1975

Cruz de Fogo

Eurico Cebolo nasceu a 28 de Outubro de 1938, um ano antes do início da II Guerra Mundial, em Coleja, uma aldeia transmontana do concelho de Carrazeda de Ansiães, no seio de uma família pobre. Estudou lá até fazer a quarta classe e depois mudou-se para o Porto, onde o pai teve dois cafés/restaurantes, um na Sé, na Rua de São Sebastião, e outro na Restauração.

O pai aprendeu a tocar guitarra de fado e acústica de ouvido. Foi com ele que aprendeu os primeiros acordes e arriscou nas primeiras rimas em cantares ao desafio. Cebolo teve durante pouco tempo aulas de música, mas cedo abandonou-as. A partir daí, tudo o que aprendeu foi a partir do investimento de tempo que fez sozinho.

Quando chegou ao Porto, o pai inscreveu-o no colégio João de Deus, mas não conseguia sustentar os custos. Diz Cebolo que o director, o “padre Germano” não deixou que isso acontecesse e deixou-o frequentar o estabelecimento de ensino gratuitamente. Logo aí, surgiram os primeiros sinais de empreendedorismo e da vontade que tinha em escrever ficção.

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“Tinha um colega de escola que gostava de banda desenhada, o Franklin, que já faleceu, que era doido por banda desenhada. Naquele tempo só havia o Mosquito, o Mundo de Aventuras e depois mais tarde o Cavaleiro Andante. Mas isto não lhe chegava. Ele era muito rico. Então, eu com duas folhas do caderno desenhei e escrevi uma banda desenhada chamada o Jovem da Selva. Ele comprava-me aquilo por 2 escudos, que na altura era muito dinheiro. Para aquilo render, criei uma história que nunca tinha fim.” Nasce aqui o Eurico Cebolo romancista.

Apesar de ter sido lançado muito mais tarde, o primeiro dos quase 12 livros de ficção e quadras do autor, Cruz de Fogo, começa a escrevê-lo com 16 anos. “É uma obra que me obrigou a muito estudo. O livro baseia-se em factos históricos, mas depois junto-lhe detalhes que não aconteceram. Começa no dia da morte de Jesus Cristo e termina na morte de Nero”, conta.

Pouca música, muito estrondo

Esta será a obra com o título mais brando. Na bibliografia de Cebolo há títulos como A Filha do Padre, que explora uma trama à volta de um membro do clero que tem uma filha que o rouba; Casei com a Minha Irmã, uma história de incesto involuntário; A Prostituta Virgem, que se desenrola num cenário de mentira e crimes de contornos macabros; ou O Violador das Mortas, dedicado o tema da necrofilia.

Outra obra na mesma linha é Falo Perdido. Nalgumas biografias, há quem coloque a obra de Cebolo na prateleira do erotismo, sobretudo pelo título deste livro. Mas o autor rejeita categoricamente esse rótulo: “Como é que pode ser erótico se este livro fala sobre pedofilia? Este livro é um alerta para os pais, como diz logo na entrada.” Nunca aceitou o rótulo de escritor erótico, muito menos neste livro. “Os títulos são agressivos para serem polémicos”, afirma.

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Eurico A. Cebolo nasceu a 28 de Outubro de 1938, em Coleja, uma aldeia transmontana do concelho de Carrazeda de Ansiães

Na capa, composta a partir de um desenho, um adulto exibe-se de tronco nu e com as calças descaídas para duas crianças — o design, do qual Cebolo também é responsável, é, em todos os livros, no mínimo, sui generis. O mesmo acontece com o Violador das Mortas, com capa que tem como pano de fundo um homem a acariciar o seio de uma mulher morta.

Seguindo a via do macabro, Matavam as Freiras Grávidas — na capa, duas freiras abraçadas num banco de jardim com um cemitério como pano de fundo e uma criança na frente —, afirma ter sido escrito com base numa história que ouviu ainda em criança e que acredita ter fundamento verídico. “Era pequeno e na altura, morava numa ilha perto do Marquês [Porto]. Em frente havia um terreno que era de um convento e quando lá fizeram um prédio, que mais tarde ruiu, descobriram que por dentro existiam subterrâneos com cadáveres de freiras grávidas”, diz Cebolo, que afirma acreditar na veracidade desta história que serve de mote para a trama do livro.

Noutro registo, Mãe, um livro de poemas dedicado às mães, e o próximo, a sair agora no início do ano, Versos Diversos (controversos), recorre às rimas. O autor explica que este último começa com quadras de esperança, mas depois, ao longo de diferentes capítulos, vai progredindo até se tornar mais ácido.

Lê-nos um pedaço do capítulo final: “Deus não é omnipotente/nem até será clemente/ (...) Deus está no céu sentado/não vem cá/ficou cansado.”

Aos 80 anos, Eurico Cebolo já há muito que se afastou da igreja. Foi perdendo a fé, quando ainda jovem foi pesquisando mais sobre o assunto e interessando-se por Filosofia. O livro não segue sempre esta linha. “No início é mais optimista.” No final torna-se mais realista. “Serve para ver se as pessoas põem a cabeça a trabalhar”, atira.

A ficção de Eurico Cebolo é quase ingénua, no sentido em que todo o trabalho que ali está, desde a escrita à paginação, é feito apenas a duas mãos e com o coração. Fá-lo sem qualquer intuito comercial. Ao contrário dos manuais de ensino, estes livros, com uma tiragem de cinco mil exemplares, são todos para oferecer. Já em relação aos compêndios, a sua fonte de rendimento, é claro: “Nem aos meus amigos ofereço.”