Entrevista

Pedro Duarte: votação por braço no ar no PSD "seria morte política de Rui Rio"

Ex-líder da JSD acusa Rio de ser um líder cada vez mais "fragilizado" e de colocar partido numa situação "perigosa". E admite candidatar-se, se houver directas.

"Rui Rio tem-se afunilado num buraco" que ninguém percebe qual é e António Costa deve estar a "rir-se" com a actual situação do PSD, diz Pedro Duarte, em entrevista ao PÚBLICO/Renascença, que pode ouvir nesta quinta-feira às 12h. 

O que espera da reunião desta quinta-feira do conselho nacional do PSD?
Aquilo que provavelmente a generalidade dos portugueses esperará: que desta crise possa sair um partido renovado e revigorado e com um projecto para o país. Temos discutido nos últimos dias questões internas do PSD e questiúnculas. Para o PSD sair fortalecido, era muito importante que houvesse uma clarificação absoluta dentro do partido. Quem tem convicções no seu projecto deve defendê-lo sem medo e os militantes devem ser chamados a participar. Já o defendi no Verão passado e os últimos seis meses confirmaram a justiça daquilo que afirmei na altura. O PSD não está a conseguir encontrar um rumo para o país e tem dificuldade em galvanizar os portugueses. Era muito importante que se repensasse a estratégia.

Normalmente, a avaliação do trabalho dos líderes é feita em eleições ou não?
Normalmente, é. Mas o PSD não está numa fase normal. Nós, seres humanos, somos dotados de inteligência para podermos fazer avaliações permanentes. Se somos autómatos - elegemos uma determinada condução e depois ficamos quietos e calados e não pensamos, de forma acéfala - para tirarmos conclusões apenas no final, isso é muito curto. Isto está a ser como quem tem um pequeno negócio que chega ao final do primeiro trimestre a correr mal mas diz: "Eu só vou fechar contas em Janeiro do ano seguinte e, portanto, agora não vou mudar nada. Quando olhar para as contas no final do ano e perceber que perdi muito dinheiro, aí é que vou mudar seja o que for". Não é assim que se faz. Se percebemos que o caminho não está a ser o correcto, corrigimo-lo.

Rui Rio não tem a capacidade de corrigir o seu caminho?
O próprio tem recorrentemente afirmado que não muda. E usa sempre a primeira pessoa do singular. Diz que não muda, não muda, não muda. Não mostra capacidade para renovar quadros, renovar ideias, para ouvir pessoas de cariz diferente. Tem-se afunilado num buraco que tenho dificuldade em perceber qual é. Não percebo que projecto é este e os portugueses também não.

Rio costuma dizer que está a fazer aquilo que disse que ia fazer. Portanto, nessa medida, não defraudou os militantes que votaram nele.
Não tenho essa opinião e falo com os militantes. Sei que há uma maioria dos militantes que está desiludida com o dr. Rui Rio. Quando apresentou a sua candidatura, ele disse que o PSD não iria ser uma muleta do PS. Ora, não é isso que temos visto. De forma mais activa ou passiva, tem sido. Não é por acaso que um conjunto de vozes próximas do PS tem defendido a estabilidade de mandatos dentro do PSD. Se eu fosse do PS, provavelmente também gostaria da actual situação do PSD.

António Costa está a rir-se?
Anda a sorrir há já muitos meses. O PSD tem sido um dos pilares da alternância democrática. O que assistimos nos últimos tempos é uma alteração dessa circunstância e, por isso, a situação é muito perigosa e impõe uma outra atitude por parte do PSD, seus dirigentes e líder. Em todos os países europeus, está a haver uma reconfiguração do espectro partidário. O PSD tornou-se insignificante do ponto de vista político. Isso é o mais preocupante, mais do que os 24% nas sondagens, que é um valor histórico nunca antes registado.

Pedro Passos Coelho, em 2017, chegou a ter 23%.
Não conheço essa sondagem. E da forma consistente como tem acontecido, não me recordo. Estamos numa tendência decrescente. Há um ano ninguém imaginava que se pudesse piorar.

Se fosse conselheiro nacional, votaria contra a moção de confiança?
Sim, mas não teria nenhum prazer em ir à reunião. Estes ataques pessoais, estes pequenos truques da hora e da forma de votação são inqualificáveis e desprestigiam a história do PSD. A minha opção seria sempre recorrer a eleições directas para dar voz aos militantes.

Se não forem para eleições directas e se a moção de confiança passar, a crise vai continuar? Rio será um líder enfraquecido e a prazo?
A prazo, não sei. Enfraquecido, sim, por duas razões: o próprio não mostrou vontade de alterar a sua estratégia e pela forma como preparou este conselho nacional. Permitir que os seus próximos - e isto é dramático - andem a defender que a votação não deve ser de forma secreta é assumir a sua fragilidade, é assumir que não sairá nunca bem de uma situação destas. A percepção que temos é que se está a tentar ganhar na secretaria. Um líder político que se quer afirmar perante o país não pode, dentro do seu próprio partido, demonstrar esta fraqueza. É inaceitável. Não acredito que a votação não venha a ser por voto secreto. Se assim não for, esse momento seria o da morte política do dr. Rui Rio, não teria cara para enfrentar os portugueses no dia a seguir. O PSD é um partido com raízes históricas na democracia portuguesa inabaláveis. Há princípios que estão acima de qualquer contenda. Esses não se podem colocar em causa, era só o que faltava.

Que legitimidade tem Luís Montenegro para pedir directas, quando há um ano ele não quis ir a votos?
Uma das características dos portugueses é sermos muito orgulhosos e não corrigirmos posições. E quando alguém o faz parece ser sinal de fraqueza e fragilidade. Se há quem mude de posição, isso é uma evolução, um sinal de inteligência.

Se houver directas, apoia Montenegro para presidente do PSD?
É prematuro. Um colega vosso perguntava-me se estava a ponderar candidatar-me. Não sei se vamos ter directas. Enquanto não chegarmos a esse momento, é prematuro.

Não afasta uma candidatura sua?
Neste momento não posso afastar nada. Isto não é uma feira de vaidades ou concurso de afirmação de personalidades. Tem que ser um projecto colectivo em prol do país.

Até que ponto o avanço de Montenegro veio atrapalhar a sua própria estratégia que era mais a longo prazo e que passa pelo Manifesto X?
Não sei. Eu sou diferente do político tradicional. Não lancei o Manifesto X a pensar na minha carreira pessoal. Há um divórcio muito grande entre a realidade social e a realidade política. Com alguma imodéstia, concluí que podia acrescentar alguma coisa com a minha visão do mundo, apresentando novas propostas. A forma como o posso concretizar é o menos relevante. Se tiver que ser assumindo uma candidatura à liderança do PSD, assumindo a liderança de um Governo em Portugal ou apenas através do Manifesto X, isso é possível. Todos os cenários estão em aberto.

O que vai pesar mais para a sua decisão de concorrer ao PSD?
Se não me revir em nenhum projecto em cima da mesa, terei que assumir as minhas responsabilidades. Se houver hipótese de ajudar de outra forma, terei uma postura colaborativa.

Um dos momentos de avaliação de Rui Rio seriam as eleições europeias. O que será um bom resultado e um mau resultado? 
Impõe-se que o PSD ganhe as eleições. Mas tão ou mais importante do que aquilo que venha a ser o resultado eleitoral é o programa político que o PSD tem para apresentar. Isso é mais uma das razões que me levam a pensar que o PSD tem estado insignificante na vida política portuguesa. Estamos a três meses de fechar o processo e não conhecemos nada, um candidato, uma ideia e temos perspectivas dúbias sobre a posição do PSD.