Joana Marques Vidal vai andar por aí

Em 2019, a ex-procuradora-geral da República continuará a trabalhar no Tribunal Constitucional, mas também será ouvida na Comissão de Inquérito a Tancos.

Joana Marques Vidal
Foto
Joana Marques Vidal Daniel Rocha

A discreta mas eficaz Joana Marques Vidal já deu provas de que é coerente com o princípio de que o silêncio é uma virtude, mas que não se cala quando entende ser o momento de falar. Foi o que fez, e com estrondo, na entrevista que deu à SIC/Expresso no último dia em funções como Procuradora-Geral da República, onde avisou que “amanhã podem aparecer casos ainda maiores” de corrupção, ainda que lamente não existir uma estratégia nacional para a combater.

Joana Marques Vidal suportou todo o tipo de declarações, pressões e movimentações de bastidores durante os dez meses que durou a polémica em torno da sua substituição sem dizer uma palavra, em público ou em “off”, sobre o assunto. Mas no momento certo, respondeu a todas as perguntas e deixou avisos para o futuro.

À saída daquele cargo influente, escolheu o Tribunal Constitucional para prosseguir o seu caminho. A partir do Palácio Ratton, terá oportunidade para aprofundar o estudo dos princípios de Direito Constitucional e a sua aplicação prática. No dirimir de conflitos, mas também no rigor ético que professa, a partir de um dos gabinetes que superiormente fiscaliza os partidos e os políticos. E no entanto não será tanto por aí que vamos ouvir falar dela em 2019, pois aquele é um trabalho quase invisível.

Joana Marques Vidal será uma das personalidades a ser ouvida na Comissão de Inquérito sobre as consequências e responsabilidades políticas do furto do material militar ocorrido em Tancos. Será uma das vozes fulcrais para se perceber o que aconteceu neste caso, que levou à queda de um ministro da Defesa e de um chefe de Estado do Exército, à prisão de um chefe da Polícia Judiciária Militar e que subiu na hierarquia do Estado até lançar suspeitas sobre o primeiro-ministro e o Presidente da República.

Também na definição de políticas de Justiça a procuradora já deu mostras de querer exercer a sua influência. Num ano que pode ser decisivo na definição de uma reforma da Justiça tecida por António Costa e Rui Rio, Joana Marques Vidal mostra que está atenta e actuante, e que dirá o que pensa sem ceder a pressões, com a independência de sempre. E aí, a autonomia do Ministério Público será uma causa que está disposta a defender até ao fim. Ela, sim, é hoje uma autêntica pitonisa da Constituição.