Há quem chegue ao final do ano com resoluções cumpridas. É o caso destas quatro pessoas

Dois portugueses, uma inglesa e um americano — não é o início de uma piada. São casos de pessoas que cumpriram as resoluções que definiram para este ano.

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Nuno Ferreira Santos

Ler 52 livros, correr uma maratona em menos de quatro horas, fazer 95% das refeições em casa ou terminar o mestrado. São resoluções de quatro pessoas diferentes, feitas no início de 2018 e que, agora que o ano está a chegar ao fim, dão-se finalmente por cumpridas. As memórias de resoluções falhadas logo em Janeiro podem ser motivo de desânimo para muitos, mas há quem chegue ao final do ano com uma lista cheia de cruzinhas. Fomos falar com essas pessoas. 

Lindsay não esperava, “nem por um segundo”, terminar os 52 livros (um por semana) que se tinha proposto ler em 2018, mas está a meio do último, certa de que irá virar a página final antes das 12 badaladas. Ao longo dos últimos anos, a executiva de marketing digital britânica de 39 anos foi-se apercebendo de que passava demasiado tempo nas redes sociais e de que “o fluxo constante de negatividade” — notícias relacionadas com Donald Trump e com o Brexit, por exemplo — estava a afectar a sua saúde mental. “Decidi que precisava de equilibrar a realidade do mundo com a fantasia da ficção”, conta ao PÚBLICO.

“Acho que tive sucesso com a resolução porque, em vez de tentar parar de fazer algo que gosto de fazer, comprometi-me a fazer mais de algo que adoro”, aponta, recordando ainda todas as tentativas falhadas, logo a 2 de Janeiro, de abdicar de chocolate. “Adoro livros e nos últimos anos não tenho conseguido encontrar tempo suficiente para parar e ler. Por isso, estava determinada a arranjar mais tempo para algo positivo na minha vida — e a reduzir as pilhas de centenas de livros que tenho em casa”, continua. Apesar de ter por hábito fazer resoluções de Ano Novo, nunca as cumpria, talvez por serem “demasiado irrealistas”.

Já Joana Marques, gestora e autora do blogue Quiosque da Joana, diz que as resoluções de Ano Novo que faz têm um papel fundamental na forma como planeia a sua vida. Uma das mais de meia dúzia que tinha para este ano, por exemplo, era aprender a fazer duas coisas novas ou fazer dois workshops. Escolheu fotografia e cosmética natural: a primeira, apesar de ter sido uma boa aprendizagem, ficará arrumada em 2018, mas planeia continuar a investir na segunda. “Sei que, se não colocar isso nas resoluções, facilmente a vida corre e eu não faço nada”, comenta.

Joana saiu de casa cedo, aos 17 anos. “Não estava preparada”, admite, e ao final de um ano a sua vida “era um caos”. “O meu pai aconselhou-me, na altura, a planear as coisas com antecedência e foi mais ou menos assim que nasceram as minhas resoluções”, conta.

Paula Capaz, coach profissional na plataforma Coaching-pt.pt, considera que a passagem de ano é um marco importante no calendário para nos fazer reflectir sobre como foram os últimos 12 meses e como queremos que os próximos sejam. Mas avisa: “As tomadas de consciência de que é preciso mudar no Ano Novo são tão importantes como no resto do ano. O Ano Novo é que nos faz lembrar isso, porque paramos e festejamos.”

“Acho também que quando as resoluções se fazem só porque é Ano Novo e não porque se tem a consciência de que é importante fazê-las ao longo do ano, normalmente no fim de Janeiro já foi tudo por água abaixo...”, ressalva.

No caso de João Patrício, consultor de marketing digital de 23 anos, fazer resoluções foi uma estreia. Estabeleceu uma dúzia para 2018. Ainda pretende fazer uma análise mais aprofundada do ano, mas estima que tenha atingido umas dez — nem tudo é preto e branco, sendo que algumas metas, como “ser feliz”, não são tão facilmente quantificáveis. Entre as 12, estavam terminar o mestrado; tratar de alguns quistos que tinha; encontrar um trabalho do qual gostasse; visitar o Porto pela primeira vez; e visitar uma amiga que estava em Salamanca, onde ele agora trabalha.

Foi seguindo a lista de uma forma “completamente solta”. No caso dos “objectivos intangíveis”, conta, sempre que era confrontado com situações específicas, recordava-se "automaticamente" da lista. “Sentia que as coisas estavam a acontecer naturalmente", diz. E era capaz de passar meses seguidos sem olhar para a lista e depois aperceber-se de que tinha cumprido novos objectivos.

Apesar de não acreditar em resoluções de Ano Novo, no início de 2018 João sentiu a necessidade de mudar: “Tanto no plano pessoal, como no plano profissional, o ano passado foi complicado. O ano anterior acho que foi pior ainda. Era uma questão de querer dar o salto em frente. Encontramos nestes pequenos desafios do dia-a-dia metas para ultrapassar."

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João Patrício, consultor de marketing digital, fez 12 resoluções de Ano Novo para 2018 D.R.

João considera que a chave para o sucesso é “nunca desistir e acreditar em nós próprios”. E conseguir manter o foco. Paula Capaz faz uma observação semelhante: "Os pontos que nos levam a ter sucesso são a persistência, a vontade e a coragem”. Pelo contrário, “o que nos leva ao fracasso ou não concretização é essencialmente o medo de falhar e a falta de confiança”.

Quanto aos métodos para alcançar objectivos, defende que deve ser cada um a definir os seus. “Há algumas estratégias que podem ser comuns à maior parte das pessoas”, como ter “muita atenção àquilo que estou a fazer todos os dias, aos meus hábitos (aos que quero manter e que quero mudar) e autoconsciência”. “O resto é tudo muito subjectivo: há pessoas que precisam de mais motivação e mais trabalho do que outras; há pessoas que precisam de desenvolver mais a autoconfiança e outras precisam de trabalhar mais o medo”, acrescenta.

Joana Marques imprime sempre as resoluções na forma de uma check list, que coloca num placard no escritório e vai assinalando à medida que cumpre os objectivos. Além de querer aprender duas coisas novas, propôs-se chegar ao final deste ano a conseguir correr 14 quilómetros, a retomar a prática de yoga, a escrever 50 posts no seu blogue, a inventar pelo menos dez receitas de cozinha, ler 15 livros (sendo que está a terminar o último), fazer cinco peças de tricot ou crochet com utilidade, comer comida caseira em 95% das refeições, viajar para dois países diferentes sem ser em trabalho, ter um diário gráfico e ver o Sporting a ser campeão. A lista é longa, mas, à parte o último ponto (que “foi posto por graça”), apenas ficou por cumprir a resolução da corrida, que a sua gravidez acabou por adiar. Em vez de correr, caminha os mesmos quilómetros diariamente. Apesar de ter começado o ano com uma fractura na perna.

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Entre uma série de outras resoluções, Joana Marques comprometeu-se a fazer pelo menos cinco peças úteis de tricot ou crochet D.R.

Quanto à promessa de 50 posts, cumpriu-a logo em Janeiro. “Fui muito pouco ambiciosa, porque tinha uma filha há pouco tempo e não sabia bem se teria tempo ou não, mas não queria que o blog acabasse e por isso achei que tinha pelo menos de escrever 50 posts”, conta.

“As resoluções são pensadas, não as escrevo só por escrever. E visam, claro, contribuir para a minha felicidade”, comenta ainda, acrescentando que estas são sempre “quantificáveis” e “metas que de alguma forma consiga atingir”.

Quanto a este o ponto, Paula Capaz diz que os nossos objectivos devem ser claros e concretos. Não quer dizer que "ser mais feliz" não possa ser uma boa resolução, mas sugere que a pessoa tente precisar o que isso significa para si. “É como se tivesse uma pizza enorme à frente: não a consigo comer toda de uma vez, tenho de a cortar às fatias”, ilustra.

John Munjak, um professor de inglês americano de 45 anos que vive no Japão há duas décadas, tinha dois objectivos muito concretos no início de 2018: correr uma maratona em menos de quatro horas — uma resolução importada de 2017 — e ganhar o hábito de ir para a cama até às 23h nos dias úteis. “Foram precisas quatro maratonas e dois anos” e em Março de 2018 cortou a meta dos 42,2 quilómetros com 3h55m no relógio. Também decidiu acabar com a televisão no final da noite e ir para a cama depois da última lição via Skype, normalmente por volta das 23h. O regime de corridas acabou por ajudar a cumprir esta segunda meta.

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O professor de inglês diz que uma das expressões populares na imprensa japonesa em 2017 foi jinsei hyaku nen jidai, que significa que muitas pessoas estão a viver até aos 100 anos. “Eu questiono-me sobre a sua saúde e felicidade. Por isso, resolvi fazer tudo o que pudesse para viver tanto e de forma tão saudável quanto possível”, explica. Já tinha bons hábitos alimentares e a prática de exercício físico, chegando pois à conclusão de que faltava melhorar a qualidade do sono.

“Sinto que a cada dia, apesar de estar a ficar mais velho, ainda estou a ficar mais forte, rápido e inteligente”, reconhece. As resoluções de Ano Novo, essas, fá-las há cerca de cinco anos.

Motivação para o próximo ano

Para Joana Marques, a próxima meta é passar 65 dias em 2019 offline. John Munjak quer ler mais livros e João Patrício está a ponderar fazer uma nova lista — não de 12 items, mas talvez mais curta e com objectivos concretos e desafiantes.

Chegar ao final do ano com uma ou mais resoluções cumpridas é uma fonte de motivação. Lindsay, por exemplo, já definiu que no próximo ano quer gastar menos dinheiro em coisas novas, tirar mais partido daquelas que já tem e poupar dinheiro para a compra de uma casa. Quer passar um ano sem comprar roupa nova. “Toda a gente com quem falei até agora riu-se de mim, por isso acho que talvez seja um pouco ambicioso”, desabafa.

Ao mesmo tempo, diz ter motivos para estar confiante: “Sinto-me extremamente orgulhosa por ter conseguido ter sucesso em algo que nunca esperaria ter. Provei a mim mesma que tenho a disciplina para me surpreender quando realmente me empenho."