Morreu Catalina Pestana, “uma mulher de muitas convicções”

A antiga provedora foi o rosto da instituição durante o processo da Casa Pia. “Nunca desistiu de combater pelas causas em que acreditava”, recorda Marcelo Rebelo de Sousa.

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Morreu a antiga provedora da Casa Pia. Tinha 72 anos David Clifford
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Maria Catalina Batalha Pestana foi a última provedora da Casa Pia de Lisboa e a primeira mulher a assumir aquele cargo tendo sido nomeada pelo então ministro da Segurança Social Bagão Félix, em 2002, na sequência do escândalo de abusos sexuais que envolveu alunos e um ex-funcionário da instituição. É lembrada como "mulher de muitas convicções", "uma força da natureza" que esteve "sempre ao lado dos que não têm voz".

A antiga professora morreu aos 72 anos num hospital em Lisboa, na madrugada deste sábado, vítima de doença, confirmou o advogado da Casa Pia à agência Lusa. De acordo com Miguel Matias, Catalina Pestana estava internada numa unidade hospitalar em Lisboa e "morreu durante a noite" vítima de uma infecção generalizada. As cerimónias fúnebres decorrerão no domingo, a partir das 11h, na Igreja da Cruz Quebrada, Oeiras.

"Foi uma pessoa admirável, com rosto, alma e coração. Esteve sempre ao lado dos que não têm voz, não têm poder e que não fazem notícias, não abrem telejornais, dos que estão indefesos", disse Bagão Félix em declarações à agência Lusa.

Portugal perdeu "uma grande senhora, uma portuguesa de eleição, uma pessoa que ao longo da sua vida juntou qualidades essenciais para as causas cívicas e públicas em que se envolveu". Era alguém "que juntava o sentido de dever, força da coragem, a enorme sensibilidade humana e a consistência da vontade. Trabalhou sempre em nome de um valor ético que às vezes desprezamos, que é valor ético da esperança", acrescentou.

Bagão Félix lembrou ainda que a antiga provedora lutou sempre contra "a tecnocracia estatística", que transforma pessoas em números. "Catalina Pestana teve uma vida feita pela grande luta pelas causas em que acreditava, com total autenticidade", sublinhou ainda.

No site da Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa lembra que Catalina Pestana "foi a primeira mulher a assumir a direcção da centenária Casa Pia de Lisboa, num dos momentos mais difíceis que a instituição atravessou".

"Catalina Pestana, professora e cuidadora, nunca desistiu de combater pelas causas em que acreditava, nomeadamente a defesa das crianças acolhidas. Depois da Casa Pia encarregou-se da refundação da Casa do Gaiato de Lisboa", acrescenta.

O Presidente da República recorda assim "a sua coragem no desempenho das funções profissionais e a genuinidade com que tratava todos com quem convivia".

Por seu lado, o conselho directivo da Casa Pia de Lisboa destaca, em comunicado, o legado "particularmente relevante" deixado pela antiga provedora Catalina Pestana na "defesa intransigente" dos direitos das crianças e jovens.

"Uma força da natureza"

Já Edmundo Martinho, actual provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), conta que trabalhou "muito próximo e em vários momentos da vida" com Catalina Pestana. "Era uma mulher de muitas convicções, muito combativa e muito enérgica a defender os seus pontos de vista mesmo que não fossem consensuais", lembra. "São características que não são muito comuns hoje em dia." Fica como "um exemplo de participação cívica". 

"Era uma força da natureza", recorda também Rui Godinho, director para a Infância, Juventude e Família da SCML. Foi há "25 ou 30 anos" que o responsável da SCML se cruzou pela primeira vez com Catalina Pestana. Tinha 16 anos quando trabalharam juntos no âmbito de um programa do Projecto Vida, o Viva a Escola, para prevenção da toxicodependência nas escolas, recorda. "Era um jovem quando a conheci e foi uma grande inspiração."

Tinha "uma força contagiante e era muito empenhada e dedicada", lembra Rui Godinho.

O advogado Miguel Matias lembrou, em declarações à Lusa, o "trabalho gigantesco", contra muitas dificuldades, da antiga provedora da Casa Pia de Lisboa na defesa das vítimas de abusos e da instituição.

De acordo com o jurista, que trabalhou na defesa das vítimas juntamente com Catalina Pestana, a antiga provedora enfrentou as dificuldades do processo da Casa Pia "de peito aberto e sempre preocupada com a defesa das crianças, do bom nome da instituição e dos funcionários", num período que classificou como "muito conturbado e difícil". Catalina Pestana, frisou, teve sempre em mente "a justiça".

"Foi uma pessoa com quem tive a sorte e o privilégio de trabalhar e de encetar uma amizade que ficou para sempre", disse. A imagem que fica, referiu, é "de uma pessoa amiga, muito determinada, muito boa" e que "soube reunir uma equipa" para levar a cabo um trabalho para que a defesa das crianças fosse "efectivamente salvaguardada".

A antiga provedora da Casa Pia de Lisboa permaneceu no cargo até Maio de 2007 — quando o julgamento do processo Casa Pia ainda decorria — foi uma das principais defensoras das crianças e jovens que diziam ter sido abusados sexualmente. Em Outubro de 2007, mais de cinco anos depois de o escândalo ter rebentado, a ex-provedora veio a público afirmar que os abusos sexuais na instituição continuavam.

Catalina Pestana, natural do Barreiro, começou a sua carreira profissional aos 24 anos como professora de um colégio feminino, depois de se ter licenciado em Filosofia na Universidade de Letras de Lisboa. Foi uma das organizadoras dos campos de férias para os filhos de presos políticos. Um ano depois do 25 de Abril de 1974 assumiu a direcção do Colégio de Santa Catarina, em Lisboa, que estava sob a tutela da Casa Pia de Lisboa, cargo que exerceu durante mais de uma década. 

Nunca abandonou o ensino, concluiu o mestrado em Psicologia Educacional, na década de 80 deu aulas na Faculdade de Motricidade Humana e no início da década de 90 foi coordenadora nacional do Projecto Vida de Prevenção da Toxicodependência em Meio Escolar. Em 1998 foi directora do Plano para a Eliminação de Exploração do Trabalho Infantil. 

Em Dezembro de 2002, após a demissão de Luís Rebelo exonerado do cargo na sequência do maior escândalo de abusos sexuais em Portugal, foi nomeada provedora da Casa Pia. Assumiu até ao fim uma postura de defensora acérrima dos menores que afirmavam ter sido abusados.

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