Putin diz que a hipótese de guerra nuclear está a ser “subestimada”

Presidente russo voltou a falar sobre a eventualidade de um conflito nuclear, quando os EUA anunciaram a sua saída do tratado histórico de controlo das armas entre os dois países.

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Vladimir Putin durante a sua tradicional conferência de imprensa de fim de ano Reuters/MAXIM SHEMETOV

O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, voltou a falar de um cenário de guerra nuclear, numa altura em que os EUA anunciaram a saída de um acordo histórico de controlo de armamento assinado em 1987 entre os dois países. Na sua tradicional conferência de imprensa de fim de ano, Putin avisou que uma guerra nuclear “poderá exterminar toda a civilização, e talvez até o planeta”.

“Estamos a assistir ao colapso do sistema internacional de contenção nuclear”, disse o Presidente russo na sua mensagem ao país, esta quinta-feira.

“Nós sabemos como garantir a nossa segurança. Mas, no geral, isto é muito mau para a humanidade, porque nos deixa mais perto de uma linha perigosa. É uma questão muito séria, e é lamentável que esteja a ser subestimada.”

Vladimir Putin referia-se ao anúncio, feito em Outubro, de que os EUA vão retirar-se do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermédio, assinado por Ronald Reagan e Mikhail Gorbatchov em 1987 e que só vincula os EUA e a Rússia.

Este anúncio seguiu-se à apresentação, em Fevereiro de 2018, da nova doutrina nuclear norte-americana, que prevê o desenvolvimento de bombas nucleares mais pequenas, em resposta aos esforços de modernização nuclear da Rússia. O objectivo é ter armas menos devastadoras, que em teoria possam ser usadas no campo de batalha e que não estão abrangidas pelos actuais tratados para limitar o uso de armas nucleares.

O Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermédio levou os dois países a destruir 2692 mísseis de curto e médio alcance (entre 500km e 5500km), com capacidade para serem armados com ogivas nucleares, e a comprometerem-se a não fabricar novas versões dessas armas — nem das plataformas móveis que permitem o seu lançamento. O acordo abrange apenas os mísseis disparados a partir do solo, por terem maior mobilidade e permitirem ataques com menos tempo de aviso.

Segundo a Casa Branca, a Rússia está a violar o tratado ao fabricar o míssil Novator 9M729, que Washington diz ter um alcance superior aos limites estabelecidos e que a Rússia afirma estar abaixo dos 500km.

Apesar de a avaliação da Casa Branca ser partilhada por vários especialistas independentes, também é verdade que muitos analistas criticam o presidente Donald Trump por querer responder com a saída do tratado – dizem que essa decisão pode provocar uma nova corrida às armas nucleares e um regresso de mísseis nucleares à Europa pela primeira vez em décadas.

O impulso para a assinatura do tratado começou em meados da década de 1970, numa época em que não se vislumbrava um mundo muito diferente daquele que tinha nascido após a II Guerra Mundial: para efeitos de superioridade militar, os EUA e a União Soviética só tinham de tirar as medidas entre si para estabelecerem os limites dos seus arsenais.

Já os acordos Start destinam-se a limitar o número e o uso de armas com objectivos estratégicos, como ameaçar a infra-estrutura industrial ou a estrutura de comando de um inimigo.

Mas agora, como referiu o Presidente norte-americano no seu anúncio em Outubro, há outros adversários em jogo, em particular a China — que pode continuar a crescer sem ter de cumprir os limites do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermédio.

“Teremos de desenvolver essas armas, a não ser que a Rússia e a China venham ter connosco e digam que temos todos de deixar de desenvolver essas armas. Mas se a Rússia e a China estão a desenvolvê-las, e nós continuamos a cumprir o acordo, isso é inaceitável”, disse o Presidente norte-americano.

A referência à possibilidade de uma guerra nuclear tem surgido em várias declarações do Presidente russo nos últimos anos.

Em Junho de 2017, numa série de entrevistas feitas pelo realizador norte-americano Oliver Stone, Vladimir Putin disse “ninguém sobreviveria” a uma guerra nuclear entre os EUA e a Rússia.

Em Março deste ano, o Presidente russo disse que a Rússia desenvolveu mísseis intercontinentais invencíveis” e um torpedo nuclear que, segundo ele, consegue derrubar todas as defesas norte-americanas.

Em Outubro, quando os EUA anunciaram a saída do tratado, o Presidente russo disse que a estratégia de defesa do país “não inclui o conceito de ataque nuclear preventivo”. “O agressor terá de perceber que a retaliação é inevitável, que será destruído, e que nós, como vítimas de agressão, como mártires, iremos para o Paraíso. Eles morrerão, porque não terão tempo para se arrepender”, disse Putin em tom irónico, perante os risos da audiência.

A Rússia actualizou a sua doutrina militar em Dezembro de 2014, num documento em que explica a sua posição perante a eventualidade de um ataque nuclear. Segundo uma tradução da jornalista russo-americana Masha Gessen, crítica de Vlaimir Putin, não é excluída a possibilidade de um ataque nuclear em resposta a um ataque com outro tipo de armamento: “A Federação Russa reserva-se o direito de usar armas nucleares em resposta a um ataque contra a Rússia e/ou os seus aliados com armas nucleares ou outras armas de destruição maciça, e em casos de agressão contra a Federação Russa com armas convencionais sempre que a existência do Estado seja ameaçada. As decisões sobre o uso de armas nucleares são tomadas pelo Presidente da Federação Russa.”