Hackers roubaram conversas entre diplomatas da União Europeia durante anos

Empresa que detectou a operação diz que o ataque está ligado ao Governo chinês. Segurança das redes europeias posta em causa.

Os atacantes entraram primeiro nos servidores de Chipre
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Os atacantes entraram primeiro nos servidores de Chipre LUSA/STEPHANIE LECOCQ

Milhares de telegramas diplomáticos da União Europeia foram roubados nos últimos anos por hackers com aparentes ligações ao Governo chinês, noticia esta quarta-feira o jornal New York Times. Os documentos revelam com mais pormenor o nervosismo com que a Administração Trump é vista a partir de Bruxelas e incluem conversas em que o Presidente chinês, Xi Jinping, surge decidido a enfrentar Washington.

Segundo o jornal, o conteúdo dos telegramas não é tão comprometedor como os dos que foram revelados pela WikiLeaks em 2010 e 2016, do Departamento de Estado dos EUA e do Comité do Partido Democrata norte-americano, respectivamente. Mas a operação "põe em evidência a protecção notavelmente fraca das comunicações de rotina entre representantes da União Europeia após anos de divulgações embaraçosas de documentos governamentais em todo o mundo".

Numa das comunicações, os diplomatas descrevem o encontro em Helsínquia entre o Presidente norte-americano, Donald Trump, e o Presidente russo, Vladimir Putin, como "um sucesso (pelo menos para Putin)".

Noutro telegrama, sobre a cimeira UE-China que decorreu em Julho passado, os diplomatas dizem que o Presidente chinês, Xi Jinping, disse que o "bullying" de Trump a Pequim parece "um combate de pugilismo sem regras". "A China não irá submeter-se ao bullying dos Estados Unidos mesmo que uma guerra comercial prejudique toda a gente", terá dito o Presidente chinês.

Segundo o New York Times, o ataque foi detectado pela empresa Area 1, fundada por antigos funcionários da Agência de Segurança Nacional norte-americana.

"Depois de mais de uma década de experiência no combate a operações chinesas, não há dúvidas de que esta campanha está ligada ao Governo chinês", disse Blake Darche, um dos especialistas da Area 1. A empresa acredita que os hackers trabalharam ao serviço da Força de Apoio Estratégico do Exército chinês, uma unidade de elite do Governo.

Os responsáveis da União Europeia ouvidos pelo New York Times dizem que as comunicações mais sensíveis estão guardadas numa rede mais segura, e que a protecção das comunicações de rotina está a ser reforçada.

A empresa norte-americana diz que no ataque em causa foi usada uma técnica básica, que depende muito mais da falta de rotinas de segurança dos utilizadores do que de conhecimentos sofisticados por parte dos atacantes.

"As pessoas falam muito sobre hackers sofisticados, mas não houve nada de sofisticado neste ataque", disse Oren Falkowitz, director da Area 1.

Segundo a empresa, os hackers entraram nos sistemas de Chipre através de uma comum operação de phishing dirigida a diplomatas locais, em que estes responsáveis foram levados a introduzir informações pessoais (como palavras-passe) em páginas criadas para serem confundidas com sites oficiais, por exemplo.

A partir dos sistemas cipriotas, os atacantes conseguiram ter acesso às palavras-passe necessárias para entrarem nas bases de dados da União Europeia.