Instagram foi a ferramenta preferida dos trolls russos para "desinformar e dividir"

Relatórios independentes pedidos pelo Senado norte-americano acusam empresas de redes sociais de responderem à interferência de forma "tardia" e com informações "evasivas e deturpadas".

Mark Zuckerberg, fundador do Facebook (dono do Instragam), respondeu no Congresso dos EUA em Abril
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Mark Zuckerberg, fundador do Facebook (dono do Instragam), respondeu no Congresso dos EUA em Abril LUSA/MICHAEL REYNOLDS (Arquivo)

Dois estudos independentes das universidades de Oxford, no Reino Unido, e de Columbia, nos EUA, corroboram a acusação das agências de serviços secretos norte-americanas e do Departamento de Justiça de que houve uma campanha de desinformação e propaganda lançada a partir da Rússia e usada em 2016 para apoiar a candidatura de Donald Trump à Casa Branca. Mas mostram que essa campanha começou anos antes das eleições, foi sendo adaptada a cada nova realidade na política do país e espalhou-se por todas as principais redes sociais na Internet, com particular destaque para o Instagram.

As duas investigações foram divulgadas esta semana, mas pedidas no ano passado pela Comissão de Serviços Secretos do Senado norte-americano, que lidera um dos inquéritos às suspeitas de interferência russa na campanha para as presidenciais de 2016. Uma dessas investigações foi feita pela Universidade de Oxford e pela empresa de análise de redes sociais Graphika; a outra é da empresa de cibersegurança New Knowledge e da Universidade de Columbia.

Durante mais de um ano, as duas equipas analisaram mais de dez milhões de posts e mensagens em redes sociais e outros serviços como o Facebook, Twitter, Instagram, YouTube, PayPal, Google+, Tumblr ou Reddit, entre outros. Essas mensagens foram disponibilizadas pelas empresas a pedido do Senado.

Em termos gerais, ambas as investigações chegam a conclusões muito semelhantes, desde a forma como a campanha foi evoluindo ao longo dos anos até à resposta das empresas de redes sociais a partir da segunda metade de 2017, quando a Google, o Facebook ou o Twitter começaram a reconhecer que os seus serviços foram usados para influenciar os eleitores norte-americanos.

"Fábrica de trolls" russa

Uma das conclusões mais surpreendentes é a de que o Instagram foi a rede social mais usada pela empresa russa Internet Research Agency para partilhar informações falsas e reforçar sentimentos já existentes na sociedade americana, como os protestos contra a violência policial sobre cidadãos negros ou a desconfiança em relação a imigrantes e refugiados.

O papel da Internet Research Agency é referido há muito tempo – é uma empresa com sede em São Petersburgo conhecida como a "fábrica de trolls" russa.

Em Fevereiro, a empresa e 12 dos seus funcionários foram acusados formalmente pelo Departamento de Justiça norte-americano de interferência criminosa "no processo político e eleitoral" dos EUA. Segundo a equipa do procurador especial Robert Mueller, a Internet Research Agency é financiada pelo empresário russo Ievgeni Prigozhin, próximo do Presidente Vladimir Putin.

Segundo os relatórios divulgados esta semana nos EUA, as imagens partilhadas em contas criadas pela empresa russa no Instagram receberam 187 milhões de comentários e "likes", mais do que em posts e mensagens da mesma autoria publicados no Facebook e no Twitter em conjunto.

"A atracção do Instagram é que é lá que os mais jovens estão, e parece ter sido o alvo preferencial dos russos", disse Philip N. Howard, director do grupo de investigação de Oxford.

Os autores dos estudos apresentam vários exemplos de posts e mensagens que dizem ter sido criados a partir da "fábrica de trolls" russa, divididas em três grandes grupos: apoio a temas de campanha à partida mais próximos dos eleitores de Donald Trump, como as críticas ao controlo das armas e à imigração; um apoio, mais residual, à candidatura do senador Bernie Sanders contra a antiga secretária de Estado Hillary Clinton, no Partido Democrata; e uma atenção especial à população afro-americana, tradicionalmente mais próxima dos democratas, através de contas no Instagram e noutras redes sociais com o objectivo de reforçar as divisões na sociedade americana e lançar mensagens enganadoras para reduzir a participação nas eleições.

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Boicote ao Facebook

Numa reacção às conclusões destes relatórios, a histórica associação de defesa dos direitos dos afro-americanos NAACP apelou a um boicote de uma semana ao Facebook, a partir desta terça-feira, acusando a empresa (que também é dona do Instagram) de disseminar "retratos enganadores da comunidade afro-americana".

Os relatórios acusam as principais empresas, como o Facebook e a Google, de terem respondido de forma "tardia e descoordenada", e muitas vezes de forma "evasiva e deturpada", aos pedidos de colaboração do Senado norte-americano, deixando a dúvida a alguns congressistas sobre se esse comportamento terá sido propositado.

"Se o Facebook não estava consciente [da campanha de propaganda], isso é um problema. Mas se eles estavam conscientes e não partilharam o que sabiam, o problema é outro, completamente diferente", disse Adam Schiff, do Partido Democrata, que será a partir de Janeiro o presidente da Comissão de Serviços Secretos da Câmara dos Representantes. Em particular, Schiff salientou o facto de os responsáveis do Facebook terem falado pouco sobre o papel do Instagram quando foram ouvidos no Congresso.

No Senado, o presidente da comissão responsável pelos estudos divulgados esta semana, o republicano Richard Burr, disse que as conclusões mostram "a agressividade com que a Rússia procurou dividir os americanos por raça, religião e ideologia".

Em comunicado, o Facebook disse que tem feito "progressos para prevenir interferência nas plataformas durante as eleições" e que reforçou "as políticas contra a supressão do voto antes das eleições intercalares de 2018", para além de financiar investigações independentes "sobre o impacto das redes sociais na democracia".

Outras empresas, como o Tumblr, também disseram que apagaram "desinformação relacionada com a Rússia" antes das eleições do mês passado nos EUA. E quase todas as que reagiram aos relatórios divulgados esta semana, como o Twitter, garantem que reforçaram as suas equipas "para combater e prevenir o uso ilícito dos serviços".