Incêndios de Pedrógão

Jorge Mendes perguntou o que era preciso. Ferraria quis um abrigo

Projectado de raiz para resistir a altas temperaturas e a ventos ciclónicos, este abrigo contra incêndios (pioneiro em Portugal e no mundo) já tem peritos da Austrália e dos Estado Unidos a estudá-lo atentamente. Vai ser construído em Ferraria de São João, concelho de Penela, uma encomenda da Associação de Vitimas dos Incêndios de Pedrógão Grande. O empresário do mundo do futebol Jorge Mendes ofereceu-se para passar o cheque.

A história conta-se de uma maneira simples: o empresário de futebol Jorge Mendes quis deixar um contributo às populações que sofreram com os incêndios dantescos de 2017. Dirigiu-se, pessoalmente, à presidente da Associação das Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande (AVIPG), Nádia Piazza, e perguntou-lhe como poderia ajudar a amenizar o sofrimento, a reconstruir território, a ajudar no que fosse preciso. Ela recusou a ajuda para a reconstrução de casas, afinal já havia a instituição Revita no terreno. Mostrou-lhe, antes, um autêntico caderno de encargos, e que resultou do trabalho que a associação já tinha feito até ali, na tentativa de concretização do projecto Aldeias Resilientes.

Este projecto prevê, entre muitas medidas, acções de formação e capacitação dos aldeões que habitam no interior e que, em cenários de grandes catástrofes, acabam entregues a si próprios. E prevê, também, a existência de abrigos colectivos, estruturas que possam ser, no tempo comum, um espaço comunitário utilizado pelos habitantes das aldeias em que se inserem e, em tempos de calamidade, sirvam para proteger e alojar a comunidade. Jorge Mendes, conta Nádia Piazza, “gostou do facto de ser uma coisa colectiva, que iria servir para muita gente”. O empresário de futebol nunca falou de dinheiro e avisou que iria financiar o abrigo. A ideia é construir o primeiro abrigo feito de raiz e projectado para resistir ao fogo, a ventos ciclónicos, e resguardar e proteger de forma auto-suficiente as populações durante um período alargado de tempo.

A história simples terminou aqui. Agora, o relato vai passar para a forma como se desenrolou o processo, que dura há já quase um ano, e envolveu uma equipa alargada e multidisciplinar, sempre a trabalhar em regime pro bono. Desde os peritos em incêndios florestais, como Xavier Viegas e toda a equipa da Associação para o Desenvolvimento da Aerodinâmica Industrial (ADAI), que integra o Laboratório Associado de Energia, Transportes e Aeronáutica (LAETA) da Universidade de Coimbra, até à equipa de arquitectos do Atelier da Boavista — Arquitectura, passando pelas muitas reuniões com voluntários e representantes de moradores.

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Implantação simulada no terreno do abrigo Atelier da Boavista - Arquitectura

Com as devidas distâncias, houve muita semelhança neste processo com aquele que há décadas fundou o Serviço de Apoio Ambulatório Local (SAAL), o processo que Siza Vieira ajudou a imortalizar, mas que foi inicialmente enunciado pelo seu criador, Nuno Portas: “(...) No sistema de habitação tradicional, tudo está feito quando os inquilinos chegam. Com o programa SAAL, o inquilino chega antes de qualquer decisão ser tomada (...)” 

Os inquilinos deste abrigo vão ser os moradores da aldeia de Ferraria de São João, no concelho de Penela, e foram eles os últimos a dar a palavra sobre o que iria aparecer bem no centro da sua aldeia e que seria, afinal, o primeiro edifício com estas características a ser construído em Portugal. E, já agora, no resto do mundo, uma vez que ninguém da vasta equipa que integrou este projecto conhece, ou ouviu sequer falar de um edifício que dê resposta a todas as questões que este projecto definiu como prioritárias. O projecto que já se conhece para a aldeia de vale de Nogueira, na serra da Lousã, onde se adaptou um espaço de festa das aldeias para receber até 150 pessoas em caso de catástrofe, também está longe de ter as características que vão ficar asseguradas no Abrigo Colectivo de Ferraria de São João. E que vão poder ser replicadas em várias outras aldeias — construído de raiz ou adaptando edifícios já existentes.

A mesma equipa que está a avançar com o primeiro projecto também já decidiu que vai assegurar um segundo. O de adaptação de um espaço já existente e que pertence à paróquia da aldeia de Moninhos Cimeiros, em Figueiró dos Vinhos. E a despesa também vai estar inserida no cheque que Jorge Mendes vai passar. O empresário de futebol tem um representante a acompanhar todas as etapas do processo, Luís Almeida, e até agora nunca houve necessidade de impor limites ao orçamento. “Somos todos pessoas responsáveis. E, se a ideia deste projecto é replicá-lo em várias aldeias, tem de ser sempre algo equilibrado, sustentável”, limita-se a sublinhar Raquel Barbosa. Estimativas por alto, o projecto dos dois abrigos colectivos, o de Ferraria de São João, de raiz, e o da adaptação de um edifício em Moninhos Cimeiros, deverá rondar os 400 mil euros. 

Porquê aqui?

E porque foram escolhidas estas aldeias para receber este projecto-piloto? Nádia Piazza é quem explica os critérios, começando por sublinhar que este não é apenas um abrigo feito com material que resiste ao fogo e às altas temperaturas — para isso, já existem bunkers, a maior parte deles enterrados, que proliferaram pela Europa central e pela América por causa da ameaça nuclear. Este é também um edifício que assume a sua vocação essencial, de ser um espaço comunitário, reconhecível e reconhecido, e que seja usado no dia-a-dia. 

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Moradora de Ferraria de São João e membros da Associação de Vitimas dos Incêndios de Pedrógão Grande

“As pessoas têm de sentir o abrigo como delas, estar lá como se estivessem em casa. Têm de saber o que fazer quando funde a luz da casa de banho e a que gaveta vão buscar a lâmpada suplente. Têm de saber onde estão as panelas quando chega a família toda para jantar. O edifício tem de ser usado no dia-a-dia. Abrir só em caso de necessidade não funciona. Haver apropriação, haver treino, é fundamental. E para haver treino, consistência, é preciso haver uma equipa”, explica Nádia Piazza. 

Construir o abrigo numa aldeia em que houvesse esse comprometimento e interesse, em que houvesse equipa, tornou-se o primeiro item a verificar. O segundo era a confirmação por parte de Xavier Viegas, que conhece o território e a morfologia dos incêndios como poucos, de que a localização escolhida para o abrigo fazia sentido, considerando o perigo de as pessoas ficarem encurraladas. Pegando no levantamento que a APVIG já tinha feito para a construção do projecto das Aldeias Resilientes, quando andou a georreferenciar tudo quanto existia ou era preciso em 25 aldeias no Pinhal Interior, o caso de Ferraria de São João tornou-se evidente. Mais ainda com a percepção de que é uma aldeia muito povoada — tem cerca de 40 habitantes, o que, naquela região, e não sendo sede de concelho, parece muito. E tem também muita população flutuante, turistas de passagem nos circuitos de BTT ou visitantes da rede de aldeias de xisto que integra. “Tudo parecia fazer sentido”, resume Nádia. “Tudo faz sentido”, confirmou Xavier Viegas.

O perito em incêndios florestais explica que as duas aldeias estão em rotas de incêndios e que o perigo de ficarem encurraladas é real. A equipa técnica da Universidade de Coimbra, e que integra várias especialidades de engenharia, empenhou-se em encontrar soluções que dessem resposta a todas as situações que a realidade provou ser necessárias no incêndio de 17 de Junho. As temperaturas são altíssimas, o fogo demora minutos a passar por uma aldeia, mas o ar fica irrespirável durante horas seguidas. O abastecimento de água e electricidade fica comprometido, os abrigos precisam de ser auto-suficientes em todas essas dimensões. E precisam de ter escala para dar acesso a veículos de socorro, como ambulâncias. “A tragédia que aconteceu em Pedrógão ajuda-nos a perceber o que é necessário existir no terreno para dar segurança às populações”, termina o perito.

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Maria Rodrigues, membro da direcção da Associação de Moradores da Ferraria de São João, admite, ainda assim, que recebeu com surpresa a proposta de construção do abrigo. Isto porque os moradores andaram sempre sozinhos a lutar pela aldeia, pelas casas, pela vida, e até estranharam agora que lhes viessem dar alguma coisa.

“Porque normalmente não dão nada. Pelo contrário, até penalizam quem não esperou por ninguém e fez primeiro”, ironiza o presidente da direcção da Associação de Moradores. Pedro Pedrosa refere-se ao facto de a associação ter conseguido criar uma Zona de Protecção à Aldeia (ZPA), numa faixa de cem metros à volta das casas, e na qual eliminaram os eucaliptos existentes e os substituíram por árvores como sobreiros e outras folhosas de forma correcta e ordenada. Porém, agora que está previsto remunerar os serviços de ecossistema, quem fez este tipo de acção não pode apresentar a factura do trabalho já feito. “Não se está a dar um grande sinal às populações”, lamenta.

Se o Estado não dá sinais à população, já a população de Ferraria de São João deu todos os sinais de ter capacidade de se organizar e viver num verdadeiro espírito comunitário. A criação da ZPA será, porventura, o projecto mais emblemático desta associação, também pelo encargo burocrático que implicou ultrapassar, como fazer levantamento cadastral de 256 parcelas de 76 proprietários, e estabelecer uma área de intervenção de 18 hectares.

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A intenção de Raquel Barbosa, do Atelier da Boavista - Arquitectos (à direita, com Nádia Piazza), é fazer em Ferraria de São João “uma espécie de panfleto”, que possa ser replicado em qualquer parte do mundo

A decisão de fazer esta zona de protecção surgiu depois de a aldeia se ter sentido salva não apenas pela sorte, mas também pela existência de um souto com sobreiros centenários que protegeu o núcleo de casas da investida de uma das frentes de fogo. O sobreiral já tem cerca de 200 árvores e tem a particularidade de estar num terreno baldio, ou seja, já era um espaço comunitário.

Xavier Viegas admite que pensa no abrigo colectivo como um edifício que dê resposta a tudo o que faltou às populações durante o incêndio de Junho de 2017. Nádia Piazza acrescenta que é o sítio onde se poderão juntar as pessoas com mobilidade reduzida, onde haverá assistência para as dificuldades respiratórias, onde a população se poderá abrigar e proteger até que chegue o socorro: “E nós sabemos que isso pode demorar horas a acontecer”, completa. 

No fundo, explica Raquel Barbosa, do Atelier da Boavista — Arquitectos, quer fazer-se em Ferraria de São João “uma espécie de panfleto, de bandeira”, um programa que possa ser replicado em qualquer parte do mundo. Sabendo que o edifício já mereceu interesse de especialistas em construção e em incêndios da Austrália e dos Estados Unidos. A arquitecta entende “que chega até a ser enternecedor” que ele vá ser construído num sítio como Ferraria de São João, afinal, “no sítio onde precisam dele”. “Esta é uma intervenção local, mas o problema é global”, sintetiza.

Caderno de encargos

A primeira vez que a equipa de arquitectos foi chamada ao projecto — também ela convidada pelo empresário Jorge Mendes, de quem são conhecidos — foi apenas em Abril deste ano. Por essa altura, já estavam escolhidas e validadas localmente as duas aldeias que iriam receber os abrigos. A discussão do caderno foi mais intensa no caso de Ferraria, onde tudo foi projectado desde a estaca zero. Mas há-de servir para o projecto de Moninhos Cimeiros e para todos os que se lhe seguirão.

O desafio era grande. Em primeiro lugar, pelas componentes técnicas — e garantir que volumetria, implantação, acabamentos, aerodinâmica, lhe permitira resistir às altas temperaturas de um incêndio e a ventos ciclónicos. Em segundo lugar, pela componente da utilização diária e pela forma como as populações se iriam apropriar do edifício. “Nós fomos convidados a participar num projecto que já estava em curso, as aldeias já estavam escolhidas. Tínhamos de conseguir formalizar tudo isto numa proposta de arquitectura que cumprisse o programa e agradasse a todos”, explica Raquel Barbosa.

Pelo desenrolar da conversa, fomos percebendo que projectar este abrigo colectivo foi como que trabalhar com muitos clientes e donos de obra. Houve muitas reuniões, com todos, com alguns, presenciais, por Skype. Houve encontros com a população, reuniões para discutir detalhes técnicos, horas de pesquisa e brainstorming. Discutiu-se tudo ao pormenor. Se podia haver metal (não, que derrete), se poderia haver saliências no telhado (não, que o telhado é a primeira coisa a levantar voo quando há ventos fortes), se as camaratas que são necessárias em período de catástrofe terão de ter utilização todo o ano (são perfeitas para acolher as actividades com os praticantes de BTT que frequentam a região).

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“Se a população não acolher o edifício, nada disto funcionará. É preciso que gostem, que se identifiquem com ele, que o utilizem”, explica a arquitecta. Hoje em dia têm menos dúvidas sobre se o resultado final foi conseguido ou não. Tirou-as numa reunião com a população, em finais de Outubro, onde estiveram praticamente todos os habitantes de Ferraria, o presidente da Câmara de Penela, os arquitectos. “Era a prova de fogo para ver se gostavam ou não. Já todos sabiam do que andávamos a falar e do que aqui vínhamos trazer. Mas olhar para as projecções, para as plantas, para as maquetes em três dimensões é outra coisa”, recorda. A prova foi superada.

Pedro Pedrosa confirma que a participação foi intensa e o resultado foi animador. “Conseguimos sempre conversar e exprimir os nossos pontos de vista. A primeira solução que nos apresentaram era um edifício muito alto, iria parecer um mamarracho aqui na aldeia”, recorda. A equipa do Atelier da Boavista explica que a solução foi baixar o pé direito, transformar as duas águas projectadas inicialmente numa solução que levasse quatro e pensar em utilizar espelhos de água no cimo do telhado. “Foi também de uma sugestão da aldeia, que falou em fazer-se um jardim em cima que nos lembrámos dos espelhos de água, porque eles podem ter várias funções, esclarece Vasco Madeira. Uma delas é servir de nível aos depósitos que estão enterrados e que são fundamentais para ter este edifício auto-suficiente, como se impõe em caso de catástrofe. Estes depósitos vão receber águas das chuvas e, em caso de catástrofe, poderão transbordar e escorrer através de fissuras que vão ficar feitas na cofragem do betão — os sprinklers, para manter os edifícios humedecidos, não resistem a altas temperaturas. 

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Depois de todas as discussões e reuniões, a população ficou agradada com o que viu. E expectante com o que vai viver. Maria Rodrigues refere-se às camaratas (que estarão apetrechadas para pessoas com mobilidade reduzida), à cozinha comunitária, a um espaço comercial onde podem colocar à venda muitos dos produtos que os locais já fazem hoje em dia e vendem a turistas sem que na aldeia haja, sequer, um espaço de convívio para tomar um café. “Acreditamos que o abrigo vai valorizar a própria vivência da aldeia enquanto comunidade”, sintetiza Pedro Pedrosa.

Ilda dos Santos interrompe o passeio com as quatro cabras pelo monte para nos confirmar que sim, que está agradada com a ideia de ter um abrigo na aldeia. Também ela lá gostaria de vender os seus queijos, assim continue “a ter tempo para pastar com as betas” (é assim que chama às cabras) e de lhes tirar o leite para fazer o queijo. A principal preocupação, por estes dias, é cuidar do marido, que sofre de Alzheimer. 

Nas próximas semanas, a Associação dos Moradores de Ferraria de São João vai formalizar a compra do terreno bem no centro da aldeia e o Atelier da Boavista avança com o processo de licenciamento da Câmara de Penela. A correr tudo bem, o primeiro abrigo contra grandes incêndios e ventos ciclónicos construído de raiz estará pronto para receber visitas dentro de um ano. E Xavier Viegas e toda a equipa do ADAI/LAETA e o Atelier da Boavista ficam com uma espécie de bandeira para mostrar ao mundo que é possível, e necessário, fazer arquitectura pré-catástrofe e prevenir o que raramente dá para remediar.