Crítica

A sinfonia brilhantemente composta por Michael Ondaatje

“Era a época dos fantasmas de guerra”, lê-se num livro com acção em 1945. Não é um romance de guerra, mas um tratado íntimo sobre a memória a partir da reescrita de um passado de abandono. Um rapaz e uma rapariga foram deixados pelos pais ao cuidado de estranhos muito suspeitos. Esta é A Luz da Guerra, sinfonia brilhantemente composta por Michael Ondaatje.

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Rolex & Bart Michiels

A Luz da Guerra, oitavo livro em prosa do canadiano Michael Ondaatje (1943), começa com a notícia de um abandono. “Em 1945 os nossos pais foram-se embora, deixaram-nos ao cuidado de dois homens que podiam muito bem ser criminosos. Vivíamos numa rua de Londres chamada Ruvigny Gardens, e numa manhã, um deles, a mãe ou o pai, sugeriu que depois do pequeno almoço tivéssemos uma conversa em família, e disseram-nos que nos ia deixar e deslocar-se para Singapura durante um ano.” O narrador é um homem de 28 anos, Nathaniel, alguém que através das memórias de infância tenta responder a um dos mistérios fundadores da sua existência: a razão do abandono. Nathaniel tinha 14 anos e a irmã, Rachel “quase dezasseis”.

O trabalho com a memória é uma das características da obra de Ondaatje. Quase uma fixação temática que o tornou célebre com O Paciente Inglês (1992), o seu terceiro romance — este ano nomeado o melhor vencedor de sempre do Booker Prize —, mas que persiste desde que começou a publicar; primeiro, poesia — The Dainty Monsters, em 1967, e depois em prosa, a partir de 1970, com The Collected Works of Billy the Kid. A sua voz narrativa é quase sempre a que resulta dessa sobreposição de perspectivas para chegar a uma hipotética memória mais próxima do real, por isso, como refere em entrevista ao Ípsilon, não há uma voz, mas sim vozes, uma polifonia constitutiva da dispersão e invenção de que é feita necessariamente a memória.  

O protagonista e narrador de A Luz da Guerra é também um escritor, arqueólogo da memória que aprendeu com o seu mestre e criador Ondaatje. Sobretudo a partir de um livro onde essa escavação pessoal foi mais profunda: Running in the Family. Publicado em 1982, é uma saga familiar, espécie de memória onde Ondaatje, então com menos de 30 anos, terá tido pela primeira vez a percepção da derrota que é tentar fazer a narrativa do passado pessoal. Nathaniel irá saber disso no que podemos tomar como uma anotação biográfica do próprio autor Michael Ondaatje: “Quando se tenta escrever um livro de memórias, dizem-me, é necessário estar em estado de orfandade. Dessa forma, aquilo que está em falta em nós, e as coisas em relação às quais nos tornámos cautelosos e hesitantes, vêm quase por acaso ao nosso encontro. ‘Um livro de memórias é a herança perdida’, compreendemos, de forma que durante esse tempo devemos aprender como e para onde olhar. No autorretrato que daí resulta todas as coisas rimarão, porque todas as coisas foram refletidas.”

O romance parte de uma noção: a de que é preciso estar preparado para encarar a infância. “Tenho agora uma idade que me permite falar disso, de como crescemos protegidos pelos braços de estranhos”, dirá como quem lança “luz sobre uma fábula” de que fazem parte ele, Rachel, o Traça — inquilino da família que Rachel desconfiava que “trabalhava como criminoso” —, o Flecheiro, amigo de Traça, uma cantora de ópera, ou Olive, uma das namoradas do Flecheiro, “viajante solitária”, mulher com “muitas paisagens dentro dela”, que lhes alargou o mapa fechado em que viviam. Neste bando meio anarca, os dois aprenderam de tudo enquanto iam à escola e escondiam do mundo a ausência dos pais. 

Dividido em duas partes — a primeira que pode ser vista como a da formação sentimental e emocional de Nathaniel, e a segunda o modo como vive os seus primeiros anos de adulto — o livro reconstitui a vida na Inglaterra pós-guerra e revela a relação próxima entre o escritor e os lugares onde ancora a sua escrita. O tempo e o lugar determinam caminhos e são definidores não apenas das personagens, como da linguagem que é sempre estruturante nos livros de Ondaatje, um namoro eterno entre prosa e poesia. Há uma passagem onde Rachel tenta compreender essa relação. “Um peixe camuflado na sombra já não é um peixe, é apenas um ângulo da paisagem, como se ele possuísse outra linguagem, o modo como precisamos de ser desconhecidos, às vezes. Por exemplo, tu conheces-me como esta pessoa, mas não me conheces como outra pessoa.”

A Luz da Guerra revela ainda outro dos traços da escrita de Ondaatje, e mais uma vez de uma maneira conseguida: o namoro que faz com outras artes. Aqui, sobretudo, com a música. Há Mahler e os altos e baixos de uma sinfonia, de uma vida, e há a pintura. “Picasso, em jovem, contaram-me, só pintava à luz da vela, para permitir o movimento variável das sombras. Mas eu, em pequeno, sentava-me à escrivaninha e desenhava mapas detalhados que irradiavam para o resto do mundo.” É esse mapa que Nathaniel tenta revisitar, reconhecer-lhe os traços. E qualquer impulso pode ser uma pista para despertar a memória, levá-lo até lá. Por exemplo, o sussurro de uma amante.