Crítica

Mariah Carey: os anos 90 estão vivos e recomendam-se

Cautious não precisa da caução de ninguém: é Mariah Carey a brilhar, aos 48 anos, num regresso — coincidência ou não — simultaneamente ao passado e ao seu topo de forma.

Senhoras e senhores, <i>she still got it</i>: eis Mariah Carey em todo o seu esplendor
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Senhoras e senhores, she still got it: eis Mariah Carey em todo o seu esplendor RICH FURY/GETTY IMAGES

Não será novidade para ninguém o facto de se viver, no mundo do R&B actual, um intenso revivalismo dos anos 90 — algo que, muito natural nos dias que correm, seria impensável há meia dúzia de anos atrás, condenadas que tais sonoridades estavam a esse anacrónico e cruel tempo-espaço do “lá atrás”.

Se, por um lado, tal revivalismo ilustra o sempiterno efeito bumerangue destas coisas (as modas que, enfim, “vão e vêm”), reflecte também, mais significativamente, a chegada à idade adulta (ou aos palcos) de muitos miúdos e miúdas nascidos nos 80s 90s. Ou seja, gente que, tendo crescido a ouvir Aaliyah, Toni Braxton ou TLC (banda sonora dos seus primeiros amores e desilusões, noites de canícula e anódinas one-night-stand), deseja, hoje, emular os seus heróis e musas (um dos mais brilhantes exemplos é H.E.R., dois EP fabulosos em 2016 e 2017).

A novidade, aqui, é que quem encontramos a fazer o come back a esses sons “noventistas”, e ao seu já tardio “new jack swing” (originalmente “oitentista”, e o teclado inicial de The Distance vem precisamente daí), é não um desses fanboys, mas justamente uma das suas musas. Falamos, portanto, de uma Mariah Carey que, na Europa, nunca logrou alcançar a dimensão que realmente possui na América, o que a coloca, em termos de popularidade, ao lado de Tina Turner, Whitney Houston ou Beyoncé — aliás, dos anos 90, Mariah Carey talvez seja mesmo “a” cantora R&B, desde logo pela sua extraordinária elasticidade vocal, essa que lhe permite as impressionantes modulações em 8th Grade (e que inclusivamente chegam a fazer confundir a sua voz, quando o tom se agrava, com uma masculina, razão pela qual se pode bem “ouvir” Michael Jackson nos primeiros 30 segundos).

Essa décalage de popularidade, mesmo que “geograficamente” mais devedora de circunstâncias aleatórias do que de outra coisa, tem, ainda assim, razão de ser. Numa carreira extremamente prolífica, Carey tem alternado momentos belíssimos, R&B do mais apurado mel e glorioso pathos (dispensando a lente politizada que parecer ter colonizado em exclusivo alguma crítica, que, a pretexto de causas mais do que legítimas e necessárias, se esquece de falar, hélas, de música), com outros francamente desinteressantes (Me. I Am Mariah… The Elusive Chanteuse, disco editado em 2014 e que curiosamente reunia praticamente a mesma equipa de colaboradores de Caution, começava de forma entusiasmante para nos ir deixando progressivamente indiferentes), e em que o sempre tangencial registo corny descamba, não raras vezes, para o simples mau gosto.

Como quer que seja, a nova-iorquina é uma gata de sete vidas que tem sabido gerir a sua carreira com inteligência e cautela (Cautious, nem de propósito, embora o título também possa ser lido como um aviso à navegação para que não a dêem já por enterrada) numa indústria musical em transformação acelerada nos últimos 20 anos (muitíssimo diferente daquela com que Carey tomou contacto ao tempo do seu homónimo disco de estreia, de 90, do qual Vision Of Love era um prenúncio de todo o seu ultra-romântico universo).

O novo álbum é só mais uma prova disso, um coelho sacado da cartola quando ninguém o esperava (algo que, por exemplo, Mary J. Blige, outra diva dos 90s, não soube fazer no seu Strength Of A Woman do ano passado): peça sólida, compacta, sem uma nota fora do sítio e, com uma excepção ou outra (A No No sampla a Rain Dance dos The Jeff Lorber Fusion de forma pobremente idêntica, sem imaginação, àquela que Lil’ Kim samplou em Crush On You), assaz viciante. Mais a mais se abstendo de ceder ao impulso fácil, frequentemente de mau gosto mas comercialmente rentável, de enveredar pelo trap. GTFO, título da primeira faixa, rima perfeitamente, no seu sedutor paroxismo, com a capa do disco: é Carey exortando violentamente ao amado, com voz de anjo sobre um dulcíssimo instrumental, para Get The Fuck Out (a isto se chama mandar celestialmente alguém àquela parte). Tal e qual o seu rosto de menina bem-comportada paredes meias com o de nasty girl — como, enfim, o da sua heroína de sempre Marilyn Monroe (“Thinkin’ ‘bout when we were seventeen / Feelin’ myself like I’m Norma Jeane”, no refrão de Giving Me Life) — joga com as tonalidades blue mas, simultaneamente, escarlate-inferno (de desejo, lascívia) da capa. A mesma voluptuosidade travestida de inocência de One Mo’ Gen, com Mariah a pedir por reciprocidade de “movimentos” (e o Everywhere a esclarecer de que There está ela, afinal, a falar…): “Did you like when I put my lips there? / ‘Cause I like when you’re kissin’ me everywhere / Do you mind if we go back in?”.

De outro prisma, essa dualidade cromática da capa condensa, ainda, a própria transformação do R&B clássico dos 60s para o dos 80s em diante: blue, sim, mas com o vermelho a reforçar o rythm, a dança, a energia pop, enfim, mais brilho do que sombra. Embora, na realidade, Caution se constitua num álbum predominantemente de interiores, abstendo-se de convidar o ouvinte para a pista e investindo em malhas escuras, melancólicas q.b., de que o ex libris talvez seja Giving Me Lifebeat irresistível (composto a quatro mãos entre Carey e Blood Orange, que, diga-se, não sacou nenhum do mesmo calibre no disco que editou recentemente), narcótico, e que, por volta dos 4 minutos (já depois de o histórico Slick Rick ter deixado umas raras linhas), conhece uma segunda vida, momento em que a guitarra eléctrica sola em toada esfingicamente sexual. Mas existem ainda os instrumentais elegantemente minimalistas — fogo-de-artifício absolutamente ausente — de With You, Caution (que, juntamente com The Distance, é, na percussão e nos ecos caribenhos, a faixa mais “moderna”), 8th Grade (produzida por Timbaland, teclados que parecem arpas), Stay Long Love You ou One Mo’ Gen, dos melhores com que o ano de 2018 nos brindou. Ou, auge do minimalismo directamente apontado à soul, o grand finale ao piano de Portrait. Composições nas quais Mariah consegue fazer o que alguém como SiR não conseguiu em November: ultrapassar a circunstância de, no R&B actual (arquitectado predominantemente por produtores de hip-hop tout court, e não de R&B propriamente dito, como acontecia nos 90s), a voz surgir em cima de instrumentais ritmicamente rígidos (assim se sublinhando a traço grosso a repetição do loop nuclear, com o risco de monotonia a ele associado) e pouco adequados às nuances que o género — cantado, não apenas rappado — exige ao longo de uma canção. Senhoras e senhores, she still got it: eis Mariah Carey em todo o seu esplendor.